Capitalismo verde
A nova aventura do Greenpeace é
comprar ações para forçar empresas
a investir no meio ambiente
Rodrigo Vieira da Cunha
Eduardo Issa
 |
| Ativistas do Greenpeace: as ações
em alto-mar ganham um reforço engravatado |
O movimento ambientalista Greenpeace é conhecido
no mundo inteiro pelo barulho que costuma fazer nos protestos
ecológicos. Os ativistas da organização
já ficaram pendurados em baleias, foram arremessados
de barcos e acamparam no Alasca sob temperatura de 40 graus
negativos. Todas atividades com alto grau de adrenalina
e audácia suficiente para garantir espaço
na mídia. Agora, no entanto, o Greenpeace está
se especializando em outro front. Bem menos arriscado, diga-se
de passagem. Há quinze dias, o grupo anunciou o investimento
de aproximadamente 250.000 dólares
na compra de um lote de ações da poderosa
multinacional Shell, um de seus maiores adversários.
A quantia é mínima se comparada aos 2 bilhões
de ações da Shell, mas suficiente para garantir
ao Greenpeace uma cadeira no encontro anual de acionistas
minoritários, marcado para maio. Nessa reunião,
o grupo vai apresentar um estudo encomendado à empresa
de consultoria KPMG, que aponta a produção
em escala de painéis solares como um ótimo
negócio, além de poupar o meio ambiente. A
idéia é convencer os executivos da Shell a
fabricar 5 milhões de painéis solares por
ano, o suficiente para abastecer de energia 250.000
residências.
A estratégia de usar armas capitalistas para conseguir
seus objetivos é uma novidade que vem ganhando espaço
dentro do grupo. No ano passado, foi criada na Alemanha
a Greenpeace-Energy, uma empresa que vai repassar a chamada
energia limpa obtida sem prejuízos ambientais
para consumidores interessados. Foi feito um acordo com
uma geradora de energia que já possui uma carteira
de 100.000 clientes. Em 1992,
a ONG já havia comprado ações da indústria
química francesa Rhone-Poulenc. O objetivo dos ecologistas
era impedir que os franceses continuassem contaminando com
lixo industrial uma área de Cubatão, município
brasileiro próximo de São Paulo. Deu certo.
"Não estamos abandonando o campo de batalha", garante
Roberto Kishinami, diretor-geral do Greenpeace no Brasil.
"Apenas utilizamos outras armas para o mesmo fim: defender
as causas ecológicas."
Protestar
em condições adversas é uma proeza
típica de ativistas do Greenpeace, uma ONG que atua
em 33 países e tem 2,8 milhões de associados.
O grupo é conhecido como um dos mais radicais do
mundo, ativo principalmente na defesa de espécies
em extinção, da proibição de
alimentos transgênicos e da Floresta Amazônica.
Em 1998, o orçamento para financiar as ousadias da
organização foi de 120 milhões de dólares.
O próximo ataque com a nova estratégia já
tem alvo marcado: a petrolífera British Petroleum-Amoco.
No lugar de comprar participação, os ambientalistas
querem convencer um grupo de 100 pessoas que possui mais
de 150.000 ações
da empresa a ajudar a impedir a construção
de um oleoduto no Mar Beaufort, no Alasca. Eles vão
conversar com um a um dos acionistas e tentar influenciá-los.
Foi lá no Ártico que os ativistas do Greenpeace
estiveram acampados, sob temperaturas de até 40 graus
negativos. Os dias de agruras, contudo, podem estar no fim.
O lema do grupo agora parece ser o velho: "Se não
pode vencê-los, una-se a eles".
Saiba
mais |
|
|
|