Comunicações
Fogueira espacial
Motorola decide destruir os 66 satélites
do
Iridium queimando-os na atmosfera terrestre
O mais espetacular sistema de comunicações
telefônicas já construído pelo homem
terá fim melancólico: os 66 satélites
que, por apenas um ano e meio, mantiveram o Iridium em funcionamento
serão destruídos um a um. Depois da estrondosa
falência do sistema, a frota de 5 bilhões de
dólares simplesmente não serve para nada.
Principal acionista do projeto fracassado, a gigante americana
Motorola preferiu gastar entre 30 e 50 milhões de
dólares na destruição dos satélites
a seguir com os prejuízos. Só a manutenção
do equipamento em órbita consome 10 milhões
de dólares por mês. Os técnicos ainda
estão calculando os detalhes da enorme operação
logística para tirar os satélites da órbita
atual, a cerca de 700 quilômetros da superfície.
O objetivo é lançá-los em direção
à Terra e fazê-los queimar como meteoros por
causa do atrito com a atmosfera. É preciso ainda
que sejam reduzidos a pó de carvão, para evitar
que caiam na cabeça de alguém. "Vamos derrubar
porque não recebemos nenhuma oferta razoável
pelo sistema", diz o advogado da empresa no processo de
falência, William Perlstein.
A constelação de satélites está
vindo ao chão porque o Iridium nunca conseguiu emplacar
como opção de telefonia móvel. O projeto
era inovador e arrojado quando foi concebido, em 1987, mas
já estava superado ao ser inaugurado, em 1998. Os
celulares convencionais haviam ampliado a área de
cobertura e ganhavam disparado no item portabilidade dos
aparelhos. Enquanto um celular cabe na palma da mão,
o aparelho Iridium era mais caro e tinha o tamanho de um
tijolo. O sistema não conseguiu superar sérias
limitações: não funcionava em áreas
montanhosas, ambientes fechados ou dentro de um carro. Um
fiasco total, apesar da alta tecnologia usada na concepção
do conjunto de satélites. O equipamento gira em órbitas
mais baixas do que as utilizadas pelos demais satélites
de comunicação e tem coordenação
de vôo impecável, com cobertura contínua
sobre todo o planeta.
É exatamente o mecanismo que garante a qualidade
da órbita que vai ser usado na derrubada dos aparelhos.
Dotados de um propulsor para correção de trajetória,
cada satélite poderá ser manobrado intacto
até órbitas mais baixas, entre 200 e 100 quilômetros
de altitude. Nesse ponto, começa a rota suicida em
direção à superfície terrestre.
"Não é uma manobra que acontece com freqüência",
diz Hélio Koiti Kuga, chefe da divisão de
mecânica espacial e controle do Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais (Inpe). "É mais comum os satélites
ficarem no espaço como lixo espacial e depois caírem
naturalmente sobre a Terra, desintegrando-se na descida."
Às vezes, há quedas apocalípticas,
como a que pôs fim ao laboratório espacial
Skylab, há vinte anos. Esse trambolho de 36 metros
e 79 toneladas despencou sobre a Terra em julho de 1979
e seus destroços foram localizados no deserto australiano.
Um deles tinha 1,8 metro, pesava 1 tonelada e caiu em uma
fazenda de criação de carneiros. A maior parte
da estrutura, contudo, acabou pulverizada numa chuva incandescente.
Desde que a Motorola optou pela solução
radical, os técnicos que controlam o Iridium se dedicam
a planejar a rota de reentrada atmosférica desses
artefatos. Eles precisam determinar o ângulo e a trajetória
correta para que cada satélite pesando 600 quilos
se queime por completo. Devem ainda dirigi-los para que
façam sua viagem final sobre um oceano, como última
medida de segurança. Dramática e melancólica,
a operação foi saudada com euforia por técnicos
da Nasa, a agência espacial americana. Os engenheiros
responsáveis pelo lixo espacial que gira em torno
da Terra ficaram felizes ao saber que não terão
de se preocupar com mais essa sucata. Há cerca de
9.000 cacarecos com mais de 10
centímetros girando a alturas de até 2.000
quilômetros sobre a superfície do planeta.