Edição 1 642 - 29/3/2000

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Comunicações

Fogueira espacial

Motorola decide destruir os 66 satélites do
Iridium queimando-os na atmosfera terrestre

O mais espetacular sistema de comunicações telefônicas já construído pelo homem terá fim melancólico: os 66 satélites que, por apenas um ano e meio, mantiveram o Iridium em funcionamento serão destruídos um a um. Depois da estrondosa falência do sistema, a frota de 5 bilhões de dólares simplesmente não serve para nada. Principal acionista do projeto fracassado, a gigante americana Motorola preferiu gastar entre 30 e 50 milhões de dólares na destruição dos satélites a seguir com os prejuízos. Só a manutenção do equipamento em órbita consome 10 milhões de dólares por mês. Os técnicos ainda estão calculando os detalhes da enorme operação logística para tirar os satélites da órbita atual, a cerca de 700 quilômetros da superfície. O objetivo é lançá-los em direção à Terra e fazê-los queimar como meteoros por causa do atrito com a atmosfera. É preciso ainda que sejam reduzidos a pó de carvão, para evitar que caiam na cabeça de alguém. "Vamos derrubar porque não recebemos nenhuma oferta razoável pelo sistema", diz o advogado da empresa no processo de falência, William Perlstein.

A constelação de satélites está vindo ao chão porque o Iridium nunca conseguiu emplacar como opção de telefonia móvel. O projeto era inovador e arrojado quando foi concebido, em 1987, mas já estava superado ao ser inaugurado, em 1998. Os celulares convencionais haviam ampliado a área de cobertura e ganhavam disparado no item portabilidade dos aparelhos. Enquanto um celular cabe na palma da mão, o aparelho Iridium era mais caro e tinha o tamanho de um tijolo. O sistema não conseguiu superar sérias limitações: não funcionava em áreas montanhosas, ambientes fechados ou dentro de um carro. Um fiasco total, apesar da alta tecnologia usada na concepção do conjunto de satélites. O equipamento gira em órbitas mais baixas do que as utilizadas pelos demais satélites de comunicação e tem coordenação de vôo impecável, com cobertura contínua sobre todo o planeta.

É exatamente o mecanismo que garante a qualidade da órbita que vai ser usado na derrubada dos aparelhos. Dotados de um propulsor para correção de trajetória, cada satélite poderá ser manobrado intacto até órbitas mais baixas, entre 200 e 100 quilômetros de altitude. Nesse ponto, começa a rota suicida em direção à superfície terrestre. "Não é uma manobra que acontece com freqüência", diz Hélio Koiti Kuga, chefe da divisão de mecânica espacial e controle do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). "É mais comum os satélites ficarem no espaço como lixo espacial e depois caírem naturalmente sobre a Terra, desintegrando-se na descida." Às vezes, há quedas apocalípticas, como a que pôs fim ao laboratório espacial Skylab, há vinte anos. Esse trambolho de 36 metros e 79 toneladas despencou sobre a Terra em julho de 1979 e seus destroços foram localizados no deserto australiano. Um deles tinha 1,8 metro, pesava 1 tonelada e caiu em uma fazenda de criação de carneiros. A maior parte da estrutura, contudo, acabou pulverizada numa chuva incandescente.

Desde que a Motorola optou pela solução radical, os técnicos que controlam o Iridium se dedicam a planejar a rota de reentrada atmosférica desses artefatos. Eles precisam determinar o ângulo e a trajetória correta para que cada satélite pesando 600 quilos se queime por completo. Devem ainda dirigi-los para que façam sua viagem final sobre um oceano, como última medida de segurança. Dramática e melancólica, a operação foi saudada com euforia por técnicos da Nasa, a agência espacial americana. Os engenheiros responsáveis pelo lixo espacial que gira em torno da Terra ficaram felizes ao saber que não terão de se preocupar com mais essa sucata. Há cerca de 9.000 cacarecos com mais de 10 centímetros girando a alturas de até 2.000 quilômetros sobre a superfície do planeta.