Os limites de uma revolução
A ousadia dos cientistas
só aumenta, mas
as terapias que prometem
curar doenças
hereditárias
ainda não deram frutos
Reuters
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| Porcos
clonados pela equipe que criou a ovelha Dolly: dez
anos |
A morte de Jesse Gelsinger foi horrível.
Internado no hospital da Universidade da Pensilvânia,
nos Estados Unidos, no ano passado, para tratar de uma rara
doença hereditária que ataca o fígado,
o jovem de 18 anos apresentou-se como voluntário
para testar o que parece ser uma promissora droga feita
pela engenharia genética. Se o tratamento tivesse
dado certo, em poucas horas a droga viajaria pela corrente
sanguínea do rapaz até atingir as células
hepáticas com a precisão de uma ogiva teleguiada.
Uma vez instalada no fígado, a substância injetada
começaria um lento trabalho de reengenharia genética.
Como um grupo de trabalhadores microscópicos, ela
desmontaria os genes defeituosos responsáveis pela
doença que Jesse carregava desde sua concepção
no útero materno. O resultado seria visível
em poucas semanas. O doente recuperaria a cor rosada das
pessoas saudáveis e seria considerado curado de um
mal antes inabordável pela medicina. Deu tudo errado.
Em poucas horas, Jesse Gelsinger estava morto, vitimado
pelos efeitos tóxicos da substância que deveria
salvá-lo.
O episódio não foi
um acidente. Pelo menos não foi um acidente qualquer.
Jesse pode ser considerado um mártir de um nascente
campo da medicina, a terapia genética. Esse ramo
da medicina se propõe a tratar as doenças
hereditárias onde elas estão instaladas, ou
seja, dentro das células. Mais especificamente no
núcleo celular onde se encontra o material genético,
o DNA, a molécula miraculosa que define os caracteres
da maioria dos seres vivos. Genes defeituosos, propõe
a terapia genética, podem ser neutralizados por substâncias
especialmente fabricadas para esse fim. Uma área
excitante da ciência há pelo menos sete anos,
a terapia genética até hoje não produziu
mais do que promessas. Os cientistas garantem que ela dará
grandes frutos no futuro, mas não antes de produzir
algum estrago, como o que matou Jesse Gelsinger na Pensilvânia.
"Os médicos esconderam a informação
de que a droga experimental que injetaram no meu filho tinha
matado ratos de laboratório e provocado efeitos horripilantes
nos pacientes humanos em que fora injetada anteriormente",
disse Paul Gelsinger, pai de Jesse. Por que os médicos
agiram com tanta leniência no caso do rapaz? Esta
pergunta foi levantada em todas as fases do rápido
avanço das técnicas médicas. Ela só
tem uma resposta. Quando se tem em mãos uma terapia
experimental promissora, como a que agora é apresentada
pela manipulação genética, alguma força
misteriosa faz com que os pesquisadores queimem etapas e
submetam seus pacientes voluntários a riscos desmesurados.
"Nos últimos anos fomos informados oficialmente de
apenas 39 casos de reações adversas em experimentos
de terapia genética, mas sabemos que o número
real de casos desastrosos chega a quase 700", diz a doutora
Amy Patterson, chefe do departamento do governo americano
encarregado de controlar as centenas de equipes autorizadas
a testar drogas experimentais em pacientes com distúrbios
hereditários.
O caso de Jesse Gelsinger está
reabrindo uma questão ética fundamental: os
cientistas podem ser os árbitros de seus próprios
experimentos? São eles as pessoas mais qualificadas
para determinar se seus colegas estão indo longe
demais ou sendo pouco cuidadosos em experiências que
utilizam seres humanos como cobaias? O mais respeitado estudioso
do campo da genética, o britânico Steve Jones,
professor do University College London, está convencido
de que a resposta é não. Numa entrevista a
VEJA, cujos melhores trechos estão reproduzidos ao
longo das três páginas desta reportagem, Jones
se ocupou mais em traçar os limites científicos
e éticos da revolução genética
do que em ressaltar os benefícios que ela certamente
trará no futuro. "Acho que os geneticistas não
têm o menor direito de discutir as questões
éticas", diz Jones, não sem um certo exagero.
"Não temos qualificação necessária.
Estamos muito perto da ciência. Não temos o
distanciamento necessário. Não podemos esquecer
que o passado recente dos geneticistas é terrível.
Na década de 30, muitos defenderam a esterilização
de criminosos. O próprio Adolf Hitler baseou-se em
preceitos genéticos bastante aceitos na época
para levar a cabo sua política criminosa da Solução
Final, a eliminação dos judeus."
Talvez a melhor fiscalização
venha a ser o próprio limite das terapias baseadas
na manipulação de genes humanos. A recente
clonagem de porcos, feita pela mesma equipe de escoceses
que há três anos produziu artificialmente a
hoje famosa ovelha Dolly, tem o objetivo explícito
de abrir caminho para a utilização de órgãos
de animais em implantes em seres humanos. Pelo grau de complexidade
da tarefa, calcula-se que isso não será possível
em menos de dez anos.
As previsões de resultados
espetaculares tornaram-se parte integrante do jogo da ciência
moderna. Uma das fantasias mais freqüentes que acompanham
a genética é a possibilidade de fazer reviver
animais extintos partindo-se de porções ínfimas
de seu DNA, encontradas em graus variados de conservação
em camadas de gelo ártico. Equipes russas anunciaram
que tentarão criar um mamute a partir de pedaços
do animal pré-histórico encontrados nas planícies
geladas da Sibéria.
Com a palavra Steve Jones: "Não
existe a menor chance de recuperar o DNA nesses animais
congelados. O DNA sofre muito com o congelamento. Quando
se congela um rato de laboratório, em poucos minutos
seu DNA se torna inútil. Portanto, a idéia
de clonar animais extintos está confinada aos limites
da ficção científica".
Um cientista com os pés
no chão
AFP
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| Protesto
contra manipulação genética:
medo |
O britânico Steve Jones, de 55 anos, casado
há 25 e sem filhos, é uma das maiores
autoridades mundiais em genética e evolução.
Graduado pela Universidade de Edimburgo, na Escócia,
Jones fez pós-graduação em Chicago,
nos Estados Unidos, e atualmente é professor
do University College London, onde chefia o laboratório
Galton, um dos centros pioneiros em investigação
genética no mundo. Jones recebeu VEJA em seu
laboratório em Londres para a entrevista em
que joga água fria nas mirabolantes expectativas
que se criaram em torno das possibilidades da engenharia
genética.
Veja –
O futuro chegou?
Jones –
Longe disso. O problema
é que as pessoas vivem muito amedrontadas com
suas possíveis conseqüências e,
ao mesmo tempo, estão com expectativas muito
altas. Na verdade, até agora não se
conseguiu alcançar muita coisa. Pense na medicina
e na agricultura. Nada mudou radicalmente. Acho que
nem irá mudar tão cedo.
Veja –
O senhor não
está sendo muito pessimista?
Jones –
É certo que há
cinco anos estávamos na Idade Média
em termos de genética. Só há
pouco tempo o primeiro cromossomo foi totalmente decifrado.
O mapa dos nossos genes deve estar pronto no ano que
vem. Um terço já está feito.
A descrição da estrutura dos nossos
DNAs será uma mudança considerável.
Talvez a mais importante dos últimos 200 milhões
de anos. Isso é quase ficção
científica. É como a primeira viagem
de Cristóvão Colombo à América.
Há um novo mundo a nossa frente.
Veja –
Quais serão as
conseqüências?
Jones –
Erra quem diz que as
mudanças acontecerão em um curto período
de tempo. A terapia genética, a mudança
dos nossos DNAs para evitar doenças, vai levar
mais 100 anos para dar resultados práticos.
Uma coisa é mapear os genes. Outra bem diferente
é fazer intervenções precisas
e certeiras.
Veja –
Por que vai demorar
tanto?
Jones –
Uma de nossas descobertas
mais espantosas é a de que as doenças
comuns são as mais complicadas geneticamente.
Elas são causadas por diferentes tipos de genes.
A variação genética nas famílias
nas quais há casos de esquizofrenia, por exemplo,
é muito grande. Portanto, é difícil
que se consiga isolar todas as suas causas e, depois,
se consiga produzir uma droga capaz de cortar o problema
pela raiz. A vida é muito mais complicada do
que se imagina.
Veja –
O que o senhor acha
das previsões de que em breve será possível
prolongar a vida humana para a casa dos 120 anos?
Jones –
É um chute. Estamos
quase batendo no teto. As populações
dos países ricos, como o Japão, já
têm uma expectativa de vida altíssima.
Não há como ir muito mais longe. Isso
também é evolução. A degeneração
genética chega a um ponto em que não
temos como ultrapassá-la. Não será
a descoberta de um ou outro gene que fará a
diferença. Talvez haja milhares de genes envolvidos
no envelhecimento. E mudá-los, depois de descobri-los,
não será tarefa simples.
Veja –
Quais são as
vantagens reais das descobertas no campo da genética?
Jones –
Em breve poderemos identificar
as pessoas que têm maiores possibilidades de
desenvolver determinada doença. Mais medidas
poderão ser tomadas como precaução.
Também será possível saber com
mais certeza os efeitos de determinadas drogas em
cada paciente. Ao saber que um sujeito é mais
resistente à substância que mata células
cancerígenas, por exemplo, seu médico
poderá aumentar a dose do remédio. Isso
salvará muitas vidas. Por outro lado, conhecendo
uma predisposição com antecedência,
poderemos tomar medidas desenhadas para cada paciente
com a intenção de evitar o surgimento
da doença.
Eduardo
Salgado
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