Edição 1 642 - 29/3/2000

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Os limites de uma revolução

A ousadia dos cientistas só aumenta, mas
as terapias que prometem curar doenças
hereditárias ainda não deram frutos

 

 

Reuters
Porcos clonados pela equipe que criou a ovelha Dolly: dez anos

A morte de Jesse Gelsinger foi horrível. Internado no hospital da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, no ano passado, para tratar de uma rara doença hereditária que ataca o fígado, o jovem de 18 anos apresentou-se como voluntário para testar o que parece ser uma promissora droga feita pela engenharia genética. Se o tratamento tivesse dado certo, em poucas horas a droga viajaria pela corrente sanguínea do rapaz até atingir as células hepáticas com a precisão de uma ogiva teleguiada. Uma vez instalada no fígado, a substância injetada começaria um lento trabalho de reengenharia genética. Como um grupo de trabalhadores microscópicos, ela desmontaria os genes defeituosos responsáveis pela doença que Jesse carregava desde sua concepção no útero materno. O resultado seria visível em poucas semanas. O doente recuperaria a cor rosada das pessoas saudáveis e seria considerado curado de um mal antes inabordável pela medicina. Deu tudo errado. Em poucas horas, Jesse Gelsinger estava morto, vitimado pelos efeitos tóxicos da substância que deveria salvá-lo.

O episódio não foi um acidente. Pelo menos não foi um acidente qualquer. Jesse pode ser considerado um mártir de um nascente campo da medicina, a terapia genética. Esse ramo da medicina se propõe a tratar as doenças hereditárias onde elas estão instaladas, ou seja, dentro das células. Mais especificamente no núcleo celular onde se encontra o material genético, o DNA, a molécula miraculosa que define os caracteres da maioria dos seres vivos. Genes defeituosos, propõe a terapia genética, podem ser neutralizados por substâncias especialmente fabricadas para esse fim. Uma área excitante da ciência há pelo menos sete anos, a terapia genética até hoje não produziu mais do que promessas. Os cientistas garantem que ela dará grandes frutos no futuro, mas não antes de produzir algum estrago, como o que matou Jesse Gelsinger na Pensilvânia. "Os médicos esconderam a informação de que a droga experimental que injetaram no meu filho tinha matado ratos de laboratório e provocado efeitos horripilantes nos pacientes humanos em que fora injetada anteriormente", disse Paul Gelsinger, pai de Jesse. Por que os médicos agiram com tanta leniência no caso do rapaz? Esta pergunta foi levantada em todas as fases do rápido avanço das técnicas médicas. Ela só tem uma resposta. Quando se tem em mãos uma terapia experimental promissora, como a que agora é apresentada pela manipulação genética, alguma força misteriosa faz com que os pesquisadores queimem etapas e submetam seus pacientes voluntários a riscos desmesurados. "Nos últimos anos fomos informados oficialmente de apenas 39 casos de reações adversas em experimentos de terapia genética, mas sabemos que o número real de casos desastrosos chega a quase 700", diz a doutora Amy Patterson, chefe do departamento do governo americano encarregado de controlar as centenas de equipes autorizadas a testar drogas experimentais em pacientes com distúrbios hereditários.

O caso de Jesse Gelsinger está reabrindo uma questão ética fundamental: os cientistas podem ser os árbitros de seus próprios experimentos? São eles as pessoas mais qualificadas para determinar se seus colegas estão indo longe demais ou sendo pouco cuidadosos em experiências que utilizam seres humanos como cobaias? O mais respeitado estudioso do campo da genética, o britânico Steve Jones, professor do University College London, está convencido de que a resposta é não. Numa entrevista a VEJA, cujos melhores trechos estão reproduzidos ao longo das três páginas desta reportagem, Jones se ocupou mais em traçar os limites científicos e éticos da revolução genética do que em ressaltar os benefícios que ela certamente trará no futuro. "Acho que os geneticistas não têm o menor direito de discutir as questões éticas", diz Jones, não sem um certo exagero. "Não temos qualificação necessária. Estamos muito perto da ciência. Não temos o distanciamento necessário. Não podemos esquecer que o passado recente dos geneticistas é terrível. Na década de 30, muitos defenderam a esterilização de criminosos. O próprio Adolf Hitler baseou-se em preceitos genéticos bastante aceitos na época para levar a cabo sua política criminosa da Solução Final, a eliminação dos judeus."

Talvez a melhor fiscalização venha a ser o próprio limite das terapias baseadas na manipulação de genes humanos. A recente clonagem de porcos, feita pela mesma equipe de escoceses que há três anos produziu artificialmente a hoje famosa ovelha Dolly, tem o objetivo explícito de abrir caminho para a utilização de órgãos de animais em implantes em seres humanos. Pelo grau de complexidade da tarefa, calcula-se que isso não será possível em menos de dez anos.

As previsões de resultados espetaculares tornaram-se parte integrante do jogo da ciência moderna. Uma das fantasias mais freqüentes que acompanham a genética é a possibilidade de fazer reviver animais extintos partindo-se de porções ínfimas de seu DNA, encontradas em graus variados de conservação em camadas de gelo ártico. Equipes russas anunciaram que tentarão criar um mamute a partir de pedaços do animal pré-histórico encontrados nas planícies geladas da Sibéria.

Com a palavra Steve Jones: "Não existe a menor chance de recuperar o DNA nesses animais congelados. O DNA sofre muito com o congelamento. Quando se congela um rato de laboratório, em poucos minutos seu DNA se torna inútil. Portanto, a idéia de clonar animais extintos está confinada aos limites da ficção científica".

 

Um cientista com os pés no chão

AFP
Protesto contra manipulação genética: medo


O britânico Steve Jones, de 55 anos, casado há 25 e sem filhos, é uma das maiores autoridades mundiais em genética e evolução. Graduado pela Universidade de Edimburgo, na Escócia, Jones fez pós-graduação em Chicago, nos Estados Unidos, e atualmente é professor do University College London, onde chefia o laboratório Galton, um dos centros pioneiros em investigação genética no mundo. Jones recebeu VEJA em seu laboratório em Londres para a entrevista em que joga água fria nas mirabolantes expectativas que se criaram em torno das possibilidades da engenharia genética.

Veja O futuro chegou?
Jones
Longe disso. O problema é que as pessoas vivem muito amedrontadas com suas possíveis conseqüências e, ao mesmo tempo, estão com expectativas muito altas. Na verdade, até agora não se conseguiu alcançar muita coisa. Pense na medicina e na agricultura. Nada mudou radicalmente. Acho que nem irá mudar tão cedo.

Veja O senhor não está sendo muito pessimista?
Jones
É certo que há cinco anos estávamos na Idade Média em termos de genética. Só há pouco tempo o primeiro cromossomo foi totalmente decifrado. O mapa dos nossos genes deve estar pronto no ano que vem. Um terço já está feito. A descrição da estrutura dos nossos DNAs será uma mudança considerável. Talvez a mais importante dos últimos 200 milhões de anos. Isso é quase ficção científica. É como a primeira viagem de Cristóvão Colombo à América. Há um novo mundo a nossa frente.

Veja Quais serão as conseqüências?
Jones
Erra quem diz que as mudanças acontecerão em um curto período de tempo. A terapia genética, a mudança dos nossos DNAs para evitar doenças, vai levar mais 100 anos para dar resultados práticos. Uma coisa é mapear os genes. Outra bem diferente é fazer intervenções precisas e certeiras.

Veja Por que vai demorar tanto?
Jones
Uma de nossas descobertas mais espantosas é a de que as doenças comuns são as mais complicadas geneticamente. Elas são causadas por diferentes tipos de genes. A variação genética nas famílias nas quais há casos de esquizofrenia, por exemplo, é muito grande. Portanto, é difícil que se consiga isolar todas as suas causas e, depois, se consiga produzir uma droga capaz de cortar o problema pela raiz. A vida é muito mais complicada do que se imagina.

Veja O que o senhor acha das previsões de que em breve será possível prolongar a vida humana para a casa dos 120 anos?
Jones
É um chute. Estamos quase batendo no teto. As populações dos países ricos, como o Japão, já têm uma expectativa de vida altíssima. Não há como ir muito mais longe. Isso também é evolução. A degeneração genética chega a um ponto em que não temos como ultrapassá-la. Não será a descoberta de um ou outro gene que fará a diferença. Talvez haja milhares de genes envolvidos no envelhecimento. E mudá-los, depois de descobri-los, não será tarefa simples.

Veja Quais são as vantagens reais das descobertas no campo da genética?
Jones
Em breve poderemos identificar as pessoas que têm maiores possibilidades de desenvolver determinada doença. Mais medidas poderão ser tomadas como precaução. Também será possível saber com mais certeza os efeitos de determinadas drogas em cada paciente. Ao saber que um sujeito é mais resistente à substância que mata células cancerígenas, por exemplo, seu médico poderá aumentar a dose do remédio. Isso salvará muitas vidas. Por outro lado, conhecendo uma predisposição com antecedência, poderemos tomar medidas desenhadas para cada paciente com a intenção de evitar o surgimento da doença.

Eduardo Salgado