Será que agora vai?
Cores fortes e vibrantes
tentam de novo
desbancar o
preto. Façam suas apostas
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| O "pretinho
básico" que
Chanel criou em 1926: modelito chegou, foi visto e venceu
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Uma batalha vem sendo travada há
três invernos no mundo da moda. De um lado estão
os estilistas. De outro, o preto. Sim, o velho e bom preto,
que emagrece as silhuetas um pouco mais rechonchudas, enobrece
os guarda-roupas menos fornidos e combina com absolutamente
tudo. Por que eles querem derrubar o preto? Porque acham
que não é exatamente uma preferência,
e sim a opção mais fácil de quem não
quer perder tempo –
ou queimar neurônios –
na hora de se produzir. Sintoma
de preguiça e de falta de criatividade, trocando
em miúdos. Para a próxima estação
de frio (que no Brasil não passa de uma sucessão
de frentes vindas do Sul), o pessoal da agulha está
propondo outra vez cores vivas, que ao menos atenuem o primado
de Sua Excelência: vermelho, azul, pink, verde, amarelo
e laranja, em calças, saias, blusas e casacos cheios
de brilhos e transparências. Será que desta
vez o inimigo será derrotado? A missão é
difícil.
Preto é aposta certa desde
o início do século XVIII, quando a indumentária
masculina urbana, especialmente na Inglaterra, ganhou a
sobriedade que até então se restringia ao
círculo dos pastores protestantes e dos militares.
A razão do fenômeno é socioeconômica.
Os tons escuros e as modelagens menos bufantes eram mais
uma forma de os burgueses, a classe em ascensão,
marcarem sua diferença em relação à
aristocracia que teimava em cultivar o espalhafato das rendas
e dos frufrus. Foi assim que o preto se tornou a cor dos
cavalheiros vetustos, sendo depois incorporado ao guarda-roupa
dos dândis, os janotas que começaram a ditar
a moda a partir de meados do século XIX. "Considerados
o retrato da elegância, os dândis eram copiadíssimos",
explica a professora de história da moda da Faculdade
Santa Marcelina, Mitie Shitara.
Fotos André Rolin
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| Malha listrada
sob paletó caramelo, calça estampada,
blusas em tons fortes: você pode até
experimentar, mas encare isso como uma "pulada de
cerca" |
No armário das mulheres, porém,
o preto ainda continuaria a ser por muito tempo símbolo
de luto, e só. O preto, no Ocidente, foi associado
a rituais fúnebres como renúncia à
ostentação material. Para expressar tristeza,
os privilegiados abriam mão durante um certo período
de usar seus tecidos coloridos, inacessíveis aos
pobres. Até o século XVIII, os pigmentos usados
para tingir eram caríssimos, motivo que levou a que
as cores vibrantes, como o dourado e o vermelho, fossem
vistas como sinal de poder e opulência. Essa aura
permaneceu no universo feminino até o início
do século XX, cultivada também por aqueles
senhores que adotaram o preto para si próprios. Afinal
de contas, para um burguês bem-sucedido, nada como
uma esposa ricamente trajada –
e colorida –
para mostrar quão polpuda
era sua conta bancária. O preto só entraria
para o dia-a-dia feminino com a chegada das mulheres ao
mercado de trabalho e sua conseqüente emancipação
social e política. Quando elas deixaram, enfim, de
ser um objeto masculino e passaram a fazer suas escolhas,
em diversos âmbitos, sem ter de obedecer aos padrões
ditados por eles, os donos do mundo.
Essa revolução tem
seu eixo na figura de Gabrielle "Coco" Chanel, a estilista
francesa que inventou quase tudo o que é moderno
e elegante no figurino feminino atual. Foi ela a aposentar
definitivamente os vestidões compridos e armados.
A palavra de ordem de Coco Chanel era conforto e praticidade,
conceitos que se casavam à perfeição
com as necessidades da nova mulher. Ela apresentou ao mundo
seu modelito curto, reto, simples e preto nas páginas
da revista Vogue, em 1926. Quase instantaneamente,
o "pretinho básico" virou o uniforme da mulher chique.
Nas décadas seguintes, o preto ganharia dose extra
de glamour por obra e graça das estrelas de cinema.
Entre elas, Audrey Hepburn, a atriz capaz de emprestar elegância
até a um saco de batatas. Audrey fez dele seu tom
de roupa favorito e, num longo de alças, tirou o
fôlego da audiência em Bonequinha de Luxo.
| Tri Star Pictures/Columbia |
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| Anjelica Huston,
como Morticia Addams: não há modelito
menos fúnebre do que o usado pela fúnebre
personagem |
Outros exemplos? A estonteante Rita
Hayworth, cantando com voz rouca no papel de Gilda,
começou e terminou nas luvas um memorável
ensaio de strip-tease –
não mexeu no ultra-sexy longo negro (com detalhe
abaixo do busto para esconder a gravidez). A loiríssima
Anita Ekberg, de preto, inesquecível, banhou-se na
Fontana di Trevi em La Dolce Vita. E não há
vestido menos fúnebre do que o usado pela Morticia
de Anjelica Huston na versão modernosa de A Família
Addams. Com tanto estímulo, não espanta
que a maioria das mulheres ainda prefira o preto. Afora
todos os motivos elencados até agora, ele disfarça
marcas de uso prolongado. Um vestido escuro, como sabem
as mais econômicas, demora a ficar com aspecto de
coisa velha.
Apesar do retrospecto desfavorável,
os estilistas garantem que, em um dia não tão
longínquo, convencerão as mulheres a deixar
de lado esse grande amigo. Andam animados por ter conseguido
derrotá-lo no último verão –
sim, porque o preto volta
e meia estende seus domínios para além do
inverno. A diluição que eles sugerem para
a próxima estação parece ser, assim,
apenas uma etapa para sua planejada destruição
final. Por isso, adeptas do preto, não se deixem
levar pela conversa de que as cores vibrantes só
servem para realçá-lo. Experimentem um caramelo
aqui, um carmim acolá e outras tonalidades que virem
nas vitrines. Nada grave. Mas encarem isso apenas como uma
"pulada de cerca". Seu companheiro fiel, seguro e para toda
a vida, não esqueçam em nenhum momento, será
sempre o preto.