Edição 1 642 - 29/3/2000

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Será que agora vai?

Cores fortes e vibrantes tentam de novo
desbancar o preto. Façam suas apostas

O "pretinho básico" que Chanel criou em 1926: modelito chegou, foi visto e venceu

Uma batalha vem sendo travada há três invernos no mundo da moda. De um lado estão os estilistas. De outro, o preto. Sim, o velho e bom preto, que emagrece as silhuetas um pouco mais rechonchudas, enobrece os guarda-roupas menos fornidos e combina com absolutamente tudo. Por que eles querem derrubar o preto? Porque acham que não é exatamente uma preferência, e sim a opção mais fácil de quem não quer perder tempo ou queimar neurônios na hora de se produzir. Sintoma de preguiça e de falta de criatividade, trocando em miúdos. Para a próxima estação de frio (que no Brasil não passa de uma sucessão de frentes vindas do Sul), o pessoal da agulha está propondo outra vez cores vivas, que ao menos atenuem o primado de Sua Excelência: vermelho, azul, pink, verde, amarelo e laranja, em calças, saias, blusas e casacos cheios de brilhos e transparências. Será que desta vez o inimigo será derrotado? A missão é difícil.

Preto é aposta certa desde o início do século XVIII, quando a indumentária masculina urbana, especialmente na Inglaterra, ganhou a sobriedade que até então se restringia ao círculo dos pastores protestantes e dos militares. A razão do fenômeno é socioeconômica. Os tons escuros e as modelagens menos bufantes eram mais uma forma de os burgueses, a classe em ascensão, marcarem sua diferença em relação à aristocracia que teimava em cultivar o espalhafato das rendas e dos frufrus. Foi assim que o preto se tornou a cor dos cavalheiros vetustos, sendo depois incorporado ao guarda-roupa dos dândis, os janotas que começaram a ditar a moda a partir de meados do século XIX. "Considerados o retrato da elegância, os dândis eram copiadíssimos", explica a professora de história da moda da Faculdade Santa Marcelina, Mitie Shitara.

Fotos André Rolin
Malha listrada sob paletó caramelo, calça estampada, blusas em tons fortes: você pode até experimentar, mas encare isso como uma "pulada de cerca"


No armário das mulheres, porém, o preto ainda continuaria a ser por muito tempo símbolo de luto, e só. O preto, no Ocidente, foi associado a rituais fúnebres como renúncia à ostentação material. Para expressar tristeza, os privilegiados abriam mão durante um certo período de usar seus tecidos coloridos, inacessíveis aos pobres. Até o século XVIII, os pigmentos usados para tingir eram caríssimos, motivo que levou a que as cores vibrantes, como o dourado e o vermelho, fossem vistas como sinal de poder e opulência. Essa aura permaneceu no universo feminino até o início do século XX, cultivada também por aqueles senhores que adotaram o preto para si próprios. Afinal de contas, para um burguês bem-sucedido, nada como uma esposa ricamente trajada e colorida para mostrar quão polpuda era sua conta bancária. O preto só entraria para o dia-a-dia feminino com a chegada das mulheres ao mercado de trabalho e sua conseqüente emancipação social e política. Quando elas deixaram, enfim, de ser um objeto masculino e passaram a fazer suas escolhas, em diversos âmbitos, sem ter de obedecer aos padrões ditados por eles, os donos do mundo.

Essa revolução tem seu eixo na figura de Gabrielle "Coco" Chanel, a estilista francesa que inventou quase tudo o que é moderno e elegante no figurino feminino atual. Foi ela a aposentar definitivamente os vestidões compridos e armados. A palavra de ordem de Coco Chanel era conforto e praticidade, conceitos que se casavam à perfeição com as necessidades da nova mulher. Ela apresentou ao mundo seu modelito curto, reto, simples e preto nas páginas da revista Vogue, em 1926. Quase instantaneamente, o "pretinho básico" virou o uniforme da mulher chique. Nas décadas seguintes, o preto ganharia dose extra de glamour por obra e graça das estrelas de cinema. Entre elas, Audrey Hepburn, a atriz capaz de emprestar elegância até a um saco de batatas. Audrey fez dele seu tom de roupa favorito e, num longo de alças, tirou o fôlego da audiência em Bonequinha de Luxo.

Tri Star Pictures/Columbia
Anjelica Huston, como Morticia Addams: não há modelito menos fúnebre do que o usado pela fúnebre personagem

Outros exemplos? A estonteante Rita Hayworth, cantando com voz rouca no papel de Gilda, começou e terminou nas luvas um memorável ensaio de strip-tease não mexeu no ultra-sexy longo negro (com detalhe abaixo do busto para esconder a gravidez). A loiríssima Anita Ekberg, de preto, inesquecível, banhou-se na Fontana di Trevi em La Dolce Vita. E não há vestido menos fúnebre do que o usado pela Morticia de Anjelica Huston na versão modernosa de A Família Addams. Com tanto estímulo, não espanta que a maioria das mulheres ainda prefira o preto. Afora todos os motivos elencados até agora, ele disfarça marcas de uso prolongado. Um vestido escuro, como sabem as mais econômicas, demora a ficar com aspecto de coisa velha.

Apesar do retrospecto desfavorável, os estilistas garantem que, em um dia não tão longínquo, convencerão as mulheres a deixar de lado esse grande amigo. Andam animados por ter conseguido derrotá-lo no último verão sim, porque o preto volta e meia estende seus domínios para além do inverno. A diluição que eles sugerem para a próxima estação parece ser, assim, apenas uma etapa para sua planejada destruição final. Por isso, adeptas do preto, não se deixem levar pela conversa de que as cores vibrantes só servem para realçá-lo. Experimentem um caramelo aqui, um carmim acolá e outras tonalidades que virem nas vitrines. Nada grave. Mas encarem isso apenas como uma "pulada de cerca". Seu companheiro fiel, seguro e para toda a vida, não esqueçam em nenhum momento, será sempre o preto.