A elite do crime
A lista dos dez mais procurados do FBI,
que a História transformou em mito, faz cinqüenta
anos
Donald Eugene Webb é um dos homens mais procurados
dos Estados Unidos. O FBI, a polícia federal americana,
sabe detalhes de sua vida que até os amigos mais
íntimos desconhecem. Como toda folha corrida, sua
ficha criminal traz a data e local de nascimento, altura,
peso, cor dos olhos e apelidos e informa que em 1980 matou
um policial. Conta muito mais. Por exemplo, que Webb tem
uma pequena cicatriz na bochecha direita e duas tatuagens,
na mão direita e no peito. Assegura que é
alérgico à penicilina. Ele é descrito
como um especialista em disfarces e amante de cães.
Mesmo com toda essa gama de minúcias, Webb figura
na lista dos dez mais procurados pelo FBI há quase
duas décadas sem que a polícia tenha conseguido
colocar as mãos nele. Trata-se de uma exceção.
Desde que a lista foi criada, está fazendo cinqüenta
anos neste mês, 429 dos 458 foragidos que tiveram
o rosto exposto na relação foram encontrados
e presos.
O índice de aproveitamento de 94% atesta mais a
competência do FBI do que da relação.
Apenas um em cada três procurados foi capturado com
o uso de informação dada por cidadãos
que viram os cartazes de "procura-se". De qualquer maneira,
o método virou uma grife e foi copiado pela polícia
de quase todo o mundo. A história da famosa lista
começou em fevereiro de 1949, de forma acidental.
Uma jornalista do The Washington Daily News pediu
ao FBI um levantamento dos criminosos mais perigosos para
uma reportagem. A publicação gerou uma repercussão
tão fabulosa que o então diretor do órgão,
o legendário J. Edgar Hoover, decidiu criar uma lista
permanente com uma dezena de criminosos. Acreditava que
a exposição pública de seus dados e
retratos pudesse ajudar em sua localização.
A idéia teve sucesso imediato.
Hoje Donald Eugene Webb aparece na lista ao lado de personagens
bem mais famosos e perigosos que ele. É o caso do
milionário saudita Osama bin Laden, considerado inimigo
público número 1 dos Estados Unidos por financiar
os atentados contra as embaixadas americanas no Quênia
e na Tanzânia, ou do narcotraficante mexicano Ramón
Eduardo Arellano-Felix, chefe do cartel de Tijuana. Eric
Robert Rudolph, outro figurante, é um mistério.
A polícia nunca conseguiu chegar perto dele, embora
seja acusado de diversas explosões de bomba, entre
elas a que matou uma mulher durante as Olimpíadas
de Atlanta, em 1996. Outro famoso da lista foi James Earl
Ray, o assassino de Martin Luther King, em 1968. Ray esteve
duas vezes entre os dez mais procurados. Na primeira vez,
logo após ter cometido o crime, seu nome ficou em
exposição durante dois meses, até ser
preso em Londres. Quase dez anos mais tarde, Ray fugiu da
cadeia, voltou para os cartazes, mas foi recapturado em
48 horas.
O perfil dos "mais procurados" mudou muito em cinqüenta
anos e também o modo de divulgação.
Antes, era afixado nas estações de trem. Hoje,
pode ser consultado na internet. Antigamente, a maioria
era constituída de assaltantes de bancos ou ladrões
de carro. Agora os maiores criminosos são narcotraficantes,
terroristas ou serial killers. Para entrar na lista, o criminoso
deve ser considerado perigoso para a sociedade, e o FBI
precisa achar que torná-lo conhecido vai ajudar em
sua captura. E só sai quando é capturado,
morto, absolvido ou se os critérios para sua inclusão
não correspondem mais. Apenas quatro nomes foram
retirados pelo último motivo. Nestes cinqüenta
anos, só sete mulheres figuraram entre os criminosos
mais procurados. Enquanto Donald Eugene Webb bateu um recorde
ao permanecer na relação por quase 7.000
dias, Joseph Paul Cato esteve nela por apenas duas horas.