Edição 1 642 - 29/3/2000

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Foi bom vender

Os municípios que sediavam antigas estatais
vivem bem melhor depois da privatização

Daniella Camargos e José Edward

 
Oscar Cabral

Volta Redonda (RJ), sede da CSN
Ano da privatização: 1993
O que melhorou na cidade:
a arrecadação mais que triplicou, o número de hospitais dobrou e a CSN
está investindo em programas de proteção ao meio ambiente

A privatização de estatais vem mexendo com a vida de milhões de brasileiros. Nos grandes centros urbanos, o efeito mais visível se deu no setor de telecomunicações. Nas mãos da iniciativa privada, as companhias telefônicas tiveram de se desdobrar para oferecer melhores serviços e se diferenciar da concorrência, até então inexistente. Nada se compara, entretanto, ao impacto ocorrido em algumas cidades interioranas que cresceram à sombra de estatais, principalmente dos setores de siderurgia e mineração. Nesses lugares, não foram apenas os lucros das empresas privatizadas que melhoraram. Depois de um baque inicial, houve indiscutível progresso nos indicadores sociais e econômicos. De maneira geral, a arrecadação cresceu, o setor de serviços se desenvolveu e outras empresas foram abertas nessas cidades. Muitas em contratos de parceria com a antiga estatal.

 
Giovani Pereira

Ipatinga (MG), sede da Usiminas
Ano da privatização: 1991
O que melhorou na cidade:
a arrecadação própria
cresceu 50%, o número de empresas ficou maior e a
taxa de analfabetismo caiu
de 19,3% para 7,5%

Nada disso teria acontecido sem os ventos privatizantes. Além da ineficiência administrativa e de se terem transformado em vistosos cabides de emprego, as empresas públicas estimularam no decorrer dos anos alto grau de dependência econômica nos pequenos municípios. Eram as "mães" dessas cidades e resolviam até problemas pessoais dos moradores. Do banco do jardim ao hospital, tudo vinha delas. Em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, até a verdura consumida por seus habitantes era trazida de uma fazenda que a Companhia Siderúrgica Nacional, CSN, tinha no município. "O grau de dependência era tão grande que as cidades temiam ficar desamparadas", diz o economista e ex-ministro do Planejamento Paulo Haddad. "Era como se tivessem ficado órfãs."

 
Giovani Pereira

São José dos Campos (SP),
sede da Embraer

Ano da privatização: 1994
O que melhorou na cidade:
a arrecadação dobrou,
o número de salas de cinema subiu de 4 para 22 e o índice
de tratamento de esgoto
cresceu de 3% para 45%

Não por acaso, quando finalmente essas empresas começaram a ser vendidas, a maioria da população se posicionou contra. Em Ipatinga, no Vale do Aço, Minas Gerais, o processo de privatização da siderúrgica Usiminas foi marcado por protestos dos moradores. Afinal, quase tudo na cidade – escola, clube, hotel e até casas de funcionários – pertencia à estatal. Era comum a siderúrgica mobilizar seus funcionários para apagar incêndios ou socorrer vítimas de inundações. Na prática, ela funcionava como um poder paralelo dentro da cidade. Por essas e outras, sua privatização foi encarada como o fim do mundo. Oito anos depois, Ipatinga conseguiu dar a volta por cima.

Antes conhecida como a "Cubatão mineira", hoje a cidade tem indicadores sociais e inovações urbanas de dar inveja. Possui uma área verde de 127 metros quadrados por habitante – dez vezes maior que a recomendada pela Organização das Nações Unidas, ONU – e ônibus coletivos com ar condicionado. Recentemente ganhou um novo distrito industrial, novos hotéis e um shopping center e teve seu aeroporto reformado para receber os cerca de 400 "turistas de negócios" que aportam por lá todos os dias. A economia local continuou crescendo com a presença da empresa. Nos últimos cinco anos, a Usiminas investiu mais de 1,5 bilhão de dólares na ampliação e modernização de sua usina e transferiu para a cidade o setor de compras, antes sediado em Belo Horizonte.

Cerca de 90 bilhões de dólares já foram arrecadados no país com a venda de estatais. O saldo positivo desse balanço não são apenas as cifras. No caso das cidades que se formaram em torno das estatais, a mudança foi total. O antigo paternalismo foi substituído por parcerias, e elas tiveram de aprender a andar com as próprias pernas. Depois de 52 anos sob o comando do Estado, a CSN foi privatizada em 1993. A cidade quase parou. Só recentemente políticos e empresários de Volta Redonda passaram a tomar iniciativas para se adaptar aos novos tempos. Os resultados já são visíveis. Nos últimos três anos, mais de 1.000 empresas foram atraídas para o município, que se tornou um pólo regional de prestação de serviços. A arrecadação da prefeitura, que antes era de 45 milhões de reais, mais que triplicou. Apesar de ter sido contra a privatização, o atual prefeito, Antônio Francisco Neto, do PSB, reconhece que a cidade mudou para melhor. "Se a CSN não tivesse sido vendida, Volta Redonda não teria acordado", admite. Um dos setores que mais cresceram no município fluminense foi o de serviços médicos. Depois da privatização, a CSN terceirizou seu hospital e passou a pagar plano de saúde para os funcionários, o que aumentou a demanda por clínicas particulares. Aproveitando o filão, há dois anos o médico João Carlos Monteiro investiu mais de 2 milhões de reais na construção de um hospital na cidade. Com oitenta empregados e equipamentos de Primeiro Mundo, hoje o hospital faz aproximadamente 400 atendimentos por dia.

Inicialmente, a venda de estatais causa insegurança, porque acaba com privilégios e gera demissões. Mas, aos poucos, as empresas ficam mais eficientes, passam a produzir mais e voltam a contratar. As comunidades percebem, então, que a privatização é um bom negócio. Foi o que aconteceu em São José dos Campos, no interior de São Paulo, sede da fábrica de aviões Embraer. No processo de privatização da empresa, o número de empregados caiu de 12.000 para 4.000. Apesar de, na época, já ser considerada uma das principais indústrias de tecnologia de ponta do país, a Embraer estava atolada numa dívida de 1 bilhão de dólares e só não fechou as portas porque no Brasil estatal não quebra. Hoje, cinco anos após ter sido privatizada, voltou a impulsionar o crescimento de São José. Ganhou novamente o mercado internacional e abriu 5.000 postos de trabalho. Outros 3.000 empregos foram gerados por cerca de 200 fornecedores que se instalaram na região.

Uma das empresas que se deram bem com a privatização da Embraer foi fundada por dois ex-funcionários da companhia, o engenheiro Euvaldo Rodriguez e o físico José Lafaiete da Mota. A fábrica, que tem setenta funcionários, produz materiais e componentes não-metálicos para aviões. No ano passado, a produção foi de 72.000 peças e o faturamento, superior a 1 milhão de reais. "A recuperação da Embraer alavancou nosso negócio", comemora Rodriguez. A cidade paulista também não vive mais apenas em função dos negócios do setor aeroespacial. Escaldada com a crise que enfrentou na década passada, passou a diversificar sua economia. Com isso, atraiu empresas de outras áreas, como a sueca Ericsson, do setor de telecomunicações, e a americana Solectron, fabricante de placas de circuito impresso. Os resultados dessa retomada estão se refletindo nos cofres da prefeitura. Recentemente, São José dos Campos passou a ter a maior arrecadação do interior do Estado de São Paulo, título antes ostentado por Campinas. É o sinal inequívoco de que há vida depois da privatização. E bem melhor.