Foi bom vender
Os municípios que sediavam antigas
estatais
vivem bem melhor depois da privatização
Daniella Camargos e José Edward
A privatização de estatais vem mexendo com
a vida de milhões de brasileiros. Nos grandes centros
urbanos, o efeito mais visível se deu no setor de
telecomunicações. Nas mãos da iniciativa
privada, as companhias telefônicas tiveram de se desdobrar
para oferecer melhores serviços e se diferenciar
da concorrência, até então inexistente.
Nada se compara, entretanto, ao impacto ocorrido em algumas
cidades interioranas que cresceram à sombra de estatais,
principalmente dos setores de siderurgia e mineração.
Nesses lugares, não foram apenas os lucros das empresas
privatizadas que melhoraram. Depois de um baque inicial,
houve indiscutível progresso nos indicadores sociais
e econômicos. De maneira geral, a arrecadação
cresceu, o setor de serviços se desenvolveu e outras
empresas foram abertas nessas cidades. Muitas em contratos
de parceria com a antiga estatal.
Nada disso teria acontecido sem os ventos privatizantes.
Além da ineficiência administrativa e de se
terem transformado em vistosos cabides de emprego, as empresas
públicas estimularam no decorrer dos anos alto grau
de dependência econômica nos pequenos municípios.
Eram as "mães" dessas cidades e resolviam até
problemas pessoais dos moradores. Do banco do jardim ao
hospital, tudo vinha delas. Em Volta Redonda, no Rio de
Janeiro, até a verdura consumida por seus habitantes
era trazida de uma fazenda que a Companhia Siderúrgica
Nacional, CSN, tinha no município. "O grau de dependência
era tão grande que as cidades temiam ficar desamparadas",
diz o economista e ex-ministro do Planejamento Paulo Haddad.
"Era como se tivessem ficado órfãs."
Não por acaso, quando finalmente essas empresas
começaram a ser vendidas, a maioria da população
se posicionou contra. Em Ipatinga, no Vale do Aço,
Minas Gerais, o processo de privatização da
siderúrgica Usiminas foi marcado por protestos dos
moradores. Afinal, quase tudo na cidade escola, clube,
hotel e até casas de funcionários pertencia
à estatal. Era comum a siderúrgica mobilizar
seus funcionários para apagar incêndios ou
socorrer vítimas de inundações. Na
prática, ela funcionava como um poder paralelo dentro
da cidade. Por essas e outras, sua privatização
foi encarada como o fim do mundo. Oito anos depois, Ipatinga
conseguiu dar a volta por cima.
Antes conhecida como a "Cubatão mineira", hoje
a cidade tem indicadores sociais e inovações
urbanas de dar inveja. Possui uma área verde de 127
metros quadrados por habitante dez vezes maior que a
recomendada pela Organização das Nações
Unidas, ONU e ônibus coletivos com ar condicionado.
Recentemente ganhou um novo distrito industrial, novos hotéis
e um shopping center e teve seu aeroporto reformado para
receber os cerca de 400 "turistas de negócios" que
aportam por lá todos os dias. A economia local continuou
crescendo com a presença da empresa. Nos últimos
cinco anos, a Usiminas investiu mais de 1,5 bilhão
de dólares na ampliação e modernização
de sua usina e transferiu para a cidade o setor de compras,
antes sediado em Belo Horizonte.
Cerca de 90 bilhões de dólares já
foram arrecadados no país com a venda de estatais.
O saldo positivo desse balanço não são
apenas as cifras. No caso das cidades que se formaram em
torno das estatais, a mudança foi total. O antigo
paternalismo foi substituído por parcerias, e elas
tiveram de aprender a andar com as próprias pernas.
Depois de 52 anos sob o comando do Estado, a CSN foi privatizada
em 1993. A cidade quase parou. Só recentemente políticos
e empresários de Volta Redonda passaram a tomar iniciativas
para se adaptar aos novos tempos. Os resultados já
são visíveis. Nos últimos três
anos, mais de 1.000 empresas
foram atraídas para o município, que se tornou
um pólo regional de prestação de serviços.
A arrecadação da prefeitura, que antes era
de 45 milhões de reais, mais que triplicou. Apesar
de ter sido contra a privatização, o atual
prefeito, Antônio Francisco Neto, do PSB, reconhece
que a cidade mudou para melhor. "Se a CSN não tivesse
sido vendida, Volta Redonda não teria acordado",
admite. Um dos setores que mais cresceram no município
fluminense foi o de serviços médicos. Depois
da privatização, a CSN terceirizou seu hospital
e passou a pagar plano de saúde para os funcionários,
o que aumentou a demanda por clínicas particulares.
Aproveitando o filão, há dois anos o médico
João Carlos Monteiro investiu mais de 2 milhões
de reais na construção de um hospital na cidade.
Com oitenta empregados e equipamentos de Primeiro Mundo,
hoje o hospital faz aproximadamente 400 atendimentos por
dia.
Inicialmente, a venda de estatais causa insegurança,
porque acaba com privilégios e gera demissões.
Mas, aos poucos, as empresas ficam mais eficientes, passam
a produzir mais e voltam a contratar. As comunidades percebem,
então, que a privatização é
um bom negócio. Foi o que aconteceu em São
José dos Campos, no interior de São Paulo,
sede da fábrica de aviões Embraer. No processo
de privatização da empresa, o número
de empregados caiu de 12.000
para 4.000. Apesar de, na época,
já ser considerada uma das principais indústrias
de tecnologia de ponta do país, a Embraer estava
atolada numa dívida de 1 bilhão de dólares
e só não fechou as portas porque no Brasil
estatal não quebra. Hoje, cinco anos após
ter sido privatizada, voltou a impulsionar o crescimento
de São José. Ganhou novamente o mercado internacional
e abriu 5.000 postos de trabalho.
Outros 3.000 empregos foram gerados
por cerca de 200 fornecedores que se instalaram na região.
Uma das empresas que se deram bem com a privatização
da Embraer foi fundada por dois ex-funcionários da
companhia, o engenheiro Euvaldo Rodriguez e o físico
José Lafaiete da Mota. A fábrica, que tem
setenta funcionários, produz materiais e componentes
não-metálicos para aviões. No ano passado,
a produção foi de 72.000
peças e o faturamento, superior a 1 milhão
de reais. "A recuperação da Embraer alavancou
nosso negócio", comemora Rodriguez. A cidade paulista
também não vive mais apenas em função
dos negócios do setor aeroespacial. Escaldada com
a crise que enfrentou na década passada, passou a
diversificar sua economia. Com isso, atraiu empresas de
outras áreas, como a sueca Ericsson, do setor de
telecomunicações, e a americana Solectron,
fabricante de placas de circuito impresso. Os resultados
dessa retomada estão se refletindo nos cofres da
prefeitura. Recentemente, São José dos Campos
passou a ter a maior arrecadação do interior
do Estado de São Paulo, título antes ostentado
por Campinas. É o sinal inequívoco de que
há vida depois da privatização. E bem
melhor.