Edição 1 642 - 29/3/2000

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Entra na moda uma nova classe de suplementos nutricionais, com promessas milagrosas de bem-estar

Cristina Poles e Sandra Boccia

Q10, Pycnogenol, NADH, n-acetilcisteína ou SAMe – os brasileiros devem se acostumar com esses nomes estranhos, alguns quase impronunciáveis. Depois das vitaminas e dos minerais, são essas as pílulas da vez. A levar em conta o furor que vêm causando nos Estados Unidos, em breve deverão provocar o mesmo alvoroço por aqui. Trata-se das novas substâncias da categoria dos antioxidantes, aqueles compostos capazes de inibir a ação dos radicais livres, as moléculas tóxicas que vagam pela corrente sanguínea, corroem as células, degeneram os tecidos e comprometem o bom funcionamento do organismo. É fácil entender por que tanta gente se encanta com as drágeas coloridas que prometem milagres. Quem não cederia ao apelo de um único comprimido capaz de deter o envelhecimento e combater doenças sérias, como o câncer e a artrite?

O mercado dos chamados suplementos nutricionais é estrondoso. Entre os remédios vendidos sem receita médica, foi o que mais cresceu entre 1998 e 1999. Hoje, detém 16% dos 45 bilhões de dólares movimentados ao redor do mundo com a venda desses medicamentos. Ultrapassou até os antiácidos. Perde apenas para os antigripais e analgésicos. No Brasil, os suplementos geram receitas anuais de cerca de 500 milhões de dólares. A previsão dos especialistas é de que o faturamento cresça, no mínimo, 10% ao ano. Os fabricantes estão rindo à toa. Os novos produtos são muito mais caros que as tradicionais pílulas de vitaminas e de minerais. Uma das substâncias mais procuradas pelos americanos é o Pycnogenol, derivado da casca de um pinheiro típico do Canadá e da França. Atribuem-se a ele efeitos excelentes no combate a problemas circulatórios, doenças do coração, distúrbios de visão, inflamações e até tumores malignos. O preço do santo remédio: mais de 80 reais por um vidro com apenas trinta cápsulas.

Os antioxidantes de última geração são objeto de um furor consumista similar ao que cercou as vitaminas e minerais no início da década de 90. Na época, propagandeou-se que megadoses dessas substâncias eram capazes de aumentar o bem-estar e prolongar a vida. Não havia então pesquisas para contrapor à confiança ilimitada no consumo à larga. Mais tarde se descobriu que, em excesso, algumas vitaminas e minerais fazem mal à saúde (veja quadro). Estamos assistindo a um repeteco. Teoricamente, os novos compostos têm tudo para cumprir o que prometem. O NADH, por exemplo, é fabricado a partir de uma substância sintetizada pelo próprio organismo, essencial para a produção de energia. Daí se extrapolou a idéia de que doses extras podem evitar o envelhecimento, o stress físico e mental, a perda de memória e a queda do sistema imunológico. Não há, mais uma vez, pesquisas que comprovem tantas benesses. E, mais importante, que assegurem que a superdose não faz mal.

A maioria dos novos suplementos são enzimas, como o NADH. As enzimas são compostos indispensáveis para o bom funcionamento do organismo. Algumas atuam no processamento de gorduras, outras no transporte de minerais e proteínas, entre as mais diversas funções. Há uma infinidade delas. Apesar das diferenças, uma enzima depende da outra para exercer seu papel. Ou seja, todas precisam trabalhar em perfeita harmonia. "Qualquer alteração nos níveis de apenas uma enzima pode desestabilizar essa cadeia", diz o geriatra Clineu Almada Filho, professor da Universidade Federal de São Paulo. Como ainda não se conhecem os resultados das pesquisas com os novos suplementos, ninguém tem certeza do que pode acontecer depois de alguns anos de uso. O risco de o tiro sair pela culatra existe. Em vez de as novas pílulas funcionarem como antioxidantes, podem proporcionar a formação de mais radicais livres. E, com eles, acelerar o envelhecimento e as doenças.

Diferentemente do que ocorre com remédios convencionais, que só chegam às farmácias depois de, em média, vinte anos de estudos científicos, os suplementos nutricionais percorrem um caminho bem curto. "As pesquisas com o ácido alfa-lipóico, por exemplo, só começaram há cerca de cinco anos", diz o professor Paolo Di Mascio, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo. O ácido, contudo, já está à disposição dos consumidores. A exemplo do que ocorre com todos os novos antioxidantes, não se sabe quais as doses mínimas necessárias, as máximas toleradas e as contra-indicações. "É imprescindível que todos esses suplementos sejam receitados somente em casos de deficiência no organismo", alerta o médico Fernando Flaquer, clínico geral de São Paulo. O que coloca essas novidades farmacológicas numa faixa de risco é o fato de serem vendidas como "drogas do bem-estar". Vendem bem porque mesmo quem não tem nenhum problema de saúde acredita que pode beneficiar-se com o consumo de algumas delas. A questão é que a velha máxima popular do "se bem não fizer, mal também não vai fazer" não funciona na medicina.

Estima-se que 9 milhões de brasileiros consumam suplementos nutricionais com regularidade. O mercado potencial, nos cálculos dos fabricantes de remédios, é de 35 milhões de pessoas. O cenário é tão promissor que a indústria de cosméticos começa a entrar no jogo. A Avon acaba de se associar ao laboratório Roche para produzir sua própria linha de suplementos nutricionais, com lançamento previsto para 2001. Há dois anos, a Natura se juntou à empresa americana Shaklee, fabricante de suplementos há mais de quarenta anos, e em abril apresenta a linha Natura Bioequilíbrio, com sete tipos diferentes de compostos vitamínicos e minerais. "Apesar do entusiasmo, as pessoas têm de tomar cuidado com o que ingerem", diz Guilherme Deucher, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Ortomolecular. Na dúvida, a prudência costuma ser a melhor saída.

 
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Da internet
  Vitacost (O site não entrega no Brasil mas vale a visita pela quantidade de informações disponíveis sobre o assunto)