As pílulas da estação
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Entra na moda uma nova classe
de suplementos nutricionais,
com promessas milagrosas
de bem-estar
Cristina Poles e Sandra Boccia
Q10, Pycnogenol, NADH, n-acetilcisteína ou SAMe
os brasileiros devem se acostumar com esses nomes
estranhos, alguns quase impronunciáveis. Depois das
vitaminas e dos minerais, são essas as pílulas
da vez. A levar em conta o furor que vêm causando
nos Estados Unidos, em breve deverão provocar o mesmo
alvoroço por aqui. Trata-se das novas substâncias
da categoria dos antioxidantes, aqueles compostos capazes
de inibir a ação dos radicais livres, as moléculas
tóxicas que vagam pela corrente sanguínea,
corroem as células, degeneram os tecidos e comprometem
o bom funcionamento do organismo. É fácil
entender por que tanta gente se encanta com as drágeas
coloridas que prometem milagres. Quem não cederia
ao apelo de um único comprimido capaz de deter o
envelhecimento e combater doenças sérias,
como o câncer e a artrite?
O mercado dos chamados suplementos nutricionais é
estrondoso. Entre os remédios vendidos sem receita
médica, foi o que mais cresceu entre 1998 e 1999.
Hoje, detém 16% dos 45 bilhões de dólares
movimentados ao redor do mundo com a venda desses medicamentos.
Ultrapassou até os antiácidos. Perde apenas
para os antigripais e analgésicos. No Brasil, os
suplementos geram receitas anuais de cerca de 500 milhões
de dólares. A previsão dos especialistas é
de que o faturamento cresça, no mínimo, 10%
ao ano. Os fabricantes estão rindo à toa.
Os novos produtos são muito mais caros que as tradicionais
pílulas de vitaminas e de minerais. Uma das substâncias
mais procuradas pelos americanos é o Pycnogenol,
derivado da casca de um pinheiro típico do Canadá
e da França. Atribuem-se a ele efeitos excelentes
no combate a problemas circulatórios, doenças
do coração, distúrbios de visão,
inflamações e até tumores malignos.
O preço do santo remédio: mais de 80 reais
por um vidro com apenas trinta cápsulas.
Os antioxidantes de última geração
são objeto de um furor consumista similar ao que
cercou as vitaminas e minerais no início da década
de 90. Na época, propagandeou-se que megadoses dessas
substâncias eram capazes de aumentar o bem-estar e
prolongar a vida. Não havia então pesquisas
para contrapor à confiança ilimitada no consumo
à larga. Mais tarde se descobriu que, em excesso,
algumas vitaminas e minerais fazem mal à saúde
(veja quadro). Estamos assistindo
a um repeteco. Teoricamente, os novos compostos têm
tudo para cumprir o que prometem. O NADH, por exemplo, é
fabricado a partir de uma substância sintetizada pelo
próprio organismo, essencial para a produção
de energia. Daí se extrapolou a idéia de que
doses extras podem evitar o envelhecimento, o stress físico
e mental, a perda de memória e a queda do sistema
imunológico. Não há, mais uma vez,
pesquisas que comprovem tantas benesses. E, mais importante,
que assegurem que a superdose não faz mal.
A maioria dos novos suplementos são enzimas, como
o NADH. As enzimas são compostos indispensáveis
para o bom funcionamento do organismo. Algumas atuam no
processamento de gorduras, outras no transporte de minerais
e proteínas, entre as mais diversas funções.
Há uma infinidade delas. Apesar das diferenças,
uma enzima depende da outra para exercer seu papel. Ou seja,
todas precisam trabalhar em perfeita harmonia. "Qualquer
alteração nos níveis de apenas uma
enzima pode desestabilizar essa cadeia", diz o geriatra
Clineu Almada Filho, professor da Universidade Federal de
São Paulo. Como ainda não se conhecem os resultados
das pesquisas com os novos suplementos, ninguém tem
certeza do que pode acontecer depois de alguns anos de uso.
O risco de o tiro sair pela culatra existe. Em vez de as
novas pílulas funcionarem como antioxidantes, podem
proporcionar a formação de mais radicais livres.
E, com eles, acelerar o envelhecimento e as doenças.
Diferentemente do que ocorre com remédios convencionais,
que só chegam às farmácias depois de,
em média, vinte anos de estudos científicos,
os suplementos nutricionais percorrem um caminho bem curto.
"As pesquisas com o ácido alfa-lipóico, por
exemplo, só começaram há cerca de cinco
anos", diz o professor Paolo Di Mascio, do Instituto de
Química da Universidade de São Paulo. O ácido,
contudo, já está à disposição
dos consumidores. A exemplo do que ocorre com todos os novos
antioxidantes, não se sabe quais as doses mínimas
necessárias, as máximas toleradas e as contra-indicações.
"É imprescindível que todos esses suplementos
sejam receitados somente em casos de deficiência no
organismo", alerta o médico Fernando Flaquer, clínico
geral de São Paulo. O que coloca essas novidades
farmacológicas numa faixa de risco é o fato
de serem vendidas como "drogas do bem-estar". Vendem bem
porque mesmo quem não tem nenhum problema de saúde
acredita que pode beneficiar-se com o consumo de algumas
delas. A questão é que a velha máxima
popular do "se bem não fizer, mal também não
vai fazer" não funciona na medicina.
Estima-se que 9 milhões de brasileiros consumam
suplementos nutricionais com regularidade. O mercado potencial,
nos cálculos dos fabricantes de remédios,
é de 35 milhões de pessoas. O cenário
é tão promissor que a indústria de
cosméticos começa a entrar no jogo. A Avon
acaba de se associar ao laboratório Roche para produzir
sua própria linha de suplementos nutricionais, com
lançamento previsto para 2001. Há dois anos,
a Natura se juntou à empresa americana Shaklee, fabricante
de suplementos há mais de quarenta anos, e em abril
apresenta a linha Natura Bioequilíbrio, com sete
tipos diferentes de compostos vitamínicos e minerais.
"Apesar do entusiasmo, as pessoas têm de tomar cuidado
com o que ingerem", diz Guilherme Deucher, presidente da
Sociedade Brasileira de Medicina Ortomolecular. Na dúvida,
a prudência costuma ser a melhor saída.
Saiba
mais |
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Da
internet |
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Vitacost
(O site não entrega no Brasil mas
vale a visita pela quantidade de informações
disponíveis sobre o assunto) |
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