Edição 1 642 - 29/3/2000

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A guerra dos megajatos

Boeing e Airbus lançam seus modelos de avião executivo. Eles são de arrasar

Christian Schwartz

 

A briga promete ser feia. A americana Boeing e a européia Airbus, os dois maiores fabricantes de aviões do mundo, resolveram entrar para valer no mercado dos jatos executivos. E estrearam bem ao seu estilo: com dois verdadeiros colossos voadores cujo preço, dependendo de como o cliente resolve decorar o amplo espaço interno, pode chegar a 50 milhões de dólares. Tradicionais concorrentes no mercado de aviões de grande porte, as duas empresas projetaram seus primeiros modelos executivos a partir de um know-how de décadas. Criaram, assim, uma categoria superior à dos já suntuosos superjatos, como o Gulfstream V, ainda o preferido de milionários e homens de negócios. Boeing Business Jet e Airbus Corporate Jetliner, ambos inspirados em modelos da aviação comercial, são o que se poderia chamar de megajatos. São máquinas incríveis capazes de fazer o percurso São Paulo–Moscou em apenas treze horas. Sem escala.

O modelo da Boeing fez o vôo inaugural ainda no final de 1998, mas só em setembro do ano passado um dos novos aparelhos chegou às mãos do primeiro comprador. O milionário sortudo pediu sigilo sobre sua identidade. Até o início deste ano, a empresa contava mais de cinqüenta encomendas do BBJ, como é conhecido o jato, mas apenas cinco já tinham sido entregues. A máquina é mesmo um luxo para poucos: com 75 metros quadrados de área, pode carregar a bordo camas, banheiro equipado com chuveiro, um cômodo para reuniões e até uma pequena sala de ginástica – tudo montado e decorado ao gosto do freguês. Na configuração mais confortável, é projetado para oito passageiros, mas apertando um pouco pode levar até cinqüenta.

 

O jato da Airbus, que tem 79 metros quadrados de área e quatro modelos voando: configurações que variam de dez a 43 passageiros conforme a decoração interna

O jato da Airbus oferece espaço um pouquinho maior: tem 79 metros quadrados e carrega entre dez e 43 passageiros de acordo com a decoração interna. A divisão de cômodos e equipamentos também é definida pelo comprador. O privilégio de voar num ACJ (sigla para Airbus Corporate Jetliner) está restrito, por enquanto, aos executivos de duas grandes corporações cujas marcas são mantidas em segredo e aos membros do primeiro escalão do governo italiano, que comprou dois aparelhos no início deste mês. No total, são apenas quatro modelos como esses cruzando os céus.

 

O modelo da Boeing é mesmo um luxo para poucos: pode carregar a bordo camas, banheiro equipado com chuveiro, um cômodo para reuniões e até uma sala de ginástica

Concorrentes na briga pelos clientes, os jatos da Boeing e da Airbus têm a mesma tecnologia de bordo. São aeronaves que praticamente não dependem da ajuda das torres de controle dos aeroportos para se orientar. Atingem velocidades de até 900 quilômetros por hora e navegam totalmente via satélite. Essa conexão é também mais um conforto para os passageiros, que podem plugar-se à internet para, por exemplo, resolver os negócios mais urgentes. Com todo o arsenal tecnológico e os assessores mais próximos a bordo, um executivo ou chefe de Estado pode começar a fechar acordos e transações a 15.000 metros de altitude, horas antes de chegar ao destino da viagem. Ou simplesmente aproveitar para relaxar assistindo à TV, que funciona perfeitamente graças à conexão com o satélite.

A guerra dos megajatos aparece num momento em que as vendas no mercado da aviação civil estão em baixa. Na semana passada, o governo americano apontou a queda nas exportações de aviões como uma das principais causas do déficit de 28 bilhões de dólares na balança comercial do país verificado em janeiro. No primeiro mês do ano, a Boeing exportou apenas dezesseis de seus aviões de carreira, vinte menos que em dezembro. Com os novos jatões executivos, a indústria aeronáutica espera poder reaquecer as turbinas.

 

Um presente para jobs

Gulfstream V: o preferido de milionários e homens de negócios

Enquanto as gigantes Boeing e Airbus se engalfinham por um primeiro naco do mercado de jatos executivos, o fabricante líder do setor vai de vento em popa. Há quarenta anos produzindo aviões de luxo que servem a grandes empresas, governos dos quatro cantos do mundo e gente muito, muito rica, a empresa americana Gulfstream parece não estar nem aí para os novos concorrentes. Por uma razão simples: o Gulfstream V, modelo de ponta da empresa, que custa 42 milhões de dólares, é disparado o preferido de quem se arrisca a comprar máquinas tão caras. Desde 1997, mais de oitenta desses aviões foram entregues, segundo o representante da empresa no Brasil. Outros trinta estão em fase de acabamento, quase prontos para voar, o que fará com que a frota em atividade dos G-V, como são conhecidos, em breve ultrapasse uma centena de aparelhos.

O jato executivo mais vendido no mundo é, além de um assombro tecnológico, um charme. Tem menos da metade do tamanho dos novos jatões e, na configuração mais pedida pelos clientes, capacidade para treze a quinze pessoas. Em geral dividido em três cômodos, o avião oferece o conforto de um pequeno apartamento. Também é capaz, como os aparelhos da Boeing e da Airbus, de fazer a rota São Paulo–Moscou sem escalas, navegando via satélite e orientado por sensores que avisam a aproximação de outras aeronaves. Voa a até 850 quilômetros por hora.

A preferência de celebridades e executivos pela marca Gulfstream é um fenômeno que já se verificava com o modelo anterior ao G-V, o Gulfstream IV. A liderança é absoluta entre as grandes empresas americanas: das cinqüenta maiores, segundo o ranking da revista Fortune, 45 utilizam o G-IV ou o G-V. O último alto executivo a aderir foi Steve Jobs, o homem que tirou a Apple do buraco com seus computadores de cores berrantes, os iMac. Jobs voltou à empresa que ajudou a fundar para receber um salário simbólico de 1 dólar por ano. Cumpriu a missão de recuperar o negócio e, por decisão do conselho de executivos, agora tem um G-V para se deslocar de seu escritório na Apple para a empresa de animação que mantém em San Francisco. Um mimo mais do que merecido.

 

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