Edição 1 642 - 29/3/2000

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Construindo o passado

A França amplia seu patrimônio cultural
com a reconstituição de um castelo medieval
e uma fragata histórica

Quem quiser fazer uma viagem ao coração da Idade Média precisa apenas ir a Treigny, uma pequena cidade na região da Borgonha, a cerca de 200 quilômetros de Paris. Ali está sendo erguido um novo castelo, com torres, seteiras, muralhas e tudo de mais atrasado e antigo que se conhece. A construção, iniciada em 1998, já consumiu o equivalente a 1 milhão de reais, emprega apenas trinta operários e deve durar pelo menos 25 anos. Essa aparente falta de eficiência é, ao contrário do que parece, o próprio espetáculo. É como se aquele lugar onde até pouco tempo atrás existia uma pedreira desativada e uma pequena floresta tivesse entrado na máquina do tempo e voltado à Idade Média. As casas e as roupas dos trabalhadores, as ferramentas e as técnicas usadas na construção e a própria obra, tudo é fruto de minuciosa pesquisa histórica e arqueológica para reproduzir no século XXI a realidade do século XIII nos domínios de um pequeno senhor feudal chamado Geoffroy Guédelon. "Quem chega aqui tem de acreditar que está na Idade Média", diz Michel Guyot, um dos donos do castelo e da idéia de sua construção medieval.

No local não existe eletricidade, e todo o material usado é recolhido nas imediações. Na era dos pré-fabricados, as muralhas do castelo são erguidas como se fazia há 800 anos: duas paredes de pedra uma ao lado da outra com o vão entre elas preenchido de entulho e terra compactada. Na verdade, Guédelon nunca teve um castelo como o que está sendo construído. O senhor daquelas terras não possuía recursos para erguer uma fortaleza de 4.200 metros quadrados de área e um torreão de 30 metros de altura. Os responsáveis pela obra falam em reconstrução porque se trata de uma reconstituição de técnicas, processos e materiais do passado. A idéia do retorno à Idade Média surgiu na cabeça do empresário Michel Guyot, um especialista em restaurar castelos decadentes, ao ouvir uma palestra dos historiadores Nicolas Fauchères e Christian Corvisier sobre fortificações medievais. Os três juntaram seus interesses e conhecimentos e, com o apoio financeiro de empresas e órgãos públicos, iniciaram as obras há dois anos. Guyot espera que o próprio turismo se encarregue de financiar o empreendimento daqui para a frente. Só no ano passado, 90.000 pessoas visitaram o canteiro de obras de Guédelon.

A França tem no acervo histórico e cultural sua maior fonte de riqueza. Os 1.000 anos de História, centenas de castelos, milhares de obras de arte são o principal responsável pela afluência de 70 milhões de turistas ao país a cada ano. A novidade é que, além de preservar seu patrimônio, os franceses tratam agora de ampliá-lo. Além do castelo, está sendo reconstruída também a Hermione, uma fragata francesa do século XVIII que lutou ao lado dos americanos na guerra da independência dos Estados Unidos. Com 1.200 toneladas e 65 metros de comprimento, a fragata histórica está sendo armada nos mesmos estaleiros de Rochefort, onde foi construída a Hermione original mais de 200 anos atrás. A armação de uma embarcação como essa demorava um ano e empregava centenas de operários de duas dezenas de profissões. A preocupação em repetir os mesmos processos de fabricação deve garantir pelo menos dez anos de trabalho antes que a obra esteja concluída. O que é providencial. Como no caso do castelo, a feitura do navio é também uma atração turística.