Construindo o passado
A França amplia seu patrimônio
cultural
com a reconstituição de um castelo medieval
e uma fragata histórica
Quem quiser fazer uma viagem ao coração
da Idade Média precisa apenas ir a Treigny, uma pequena
cidade na região da Borgonha, a cerca de 200 quilômetros
de Paris. Ali está sendo erguido um novo castelo,
com torres, seteiras, muralhas e tudo de mais atrasado e
antigo que se conhece. A construção, iniciada
em 1998, já consumiu o equivalente a 1 milhão
de reais, emprega apenas trinta operários e deve
durar pelo menos 25 anos. Essa aparente falta de eficiência
é, ao contrário do que parece, o próprio
espetáculo. É como se aquele lugar onde até
pouco tempo atrás existia uma pedreira desativada
e uma pequena floresta tivesse entrado na máquina
do tempo e voltado à Idade Média. As casas
e as roupas dos trabalhadores, as ferramentas e as técnicas
usadas na construção e a própria obra,
tudo é fruto de minuciosa pesquisa histórica
e arqueológica para reproduzir no século XXI
a realidade do século XIII nos domínios de
um pequeno senhor feudal chamado Geoffroy Guédelon.
"Quem chega aqui tem de acreditar que está na Idade
Média", diz Michel Guyot, um dos donos do castelo
e da idéia de sua construção medieval.
No local não existe eletricidade, e todo o material
usado é recolhido nas imediações. Na
era dos pré-fabricados, as muralhas do castelo são
erguidas como se fazia há 800 anos: duas paredes
de pedra uma ao lado da outra com o vão entre elas
preenchido de entulho e terra compactada. Na verdade, Guédelon
nunca teve um castelo como o que está sendo construído.
O senhor daquelas terras não possuía recursos
para erguer uma fortaleza de 4.200
metros quadrados de área e um torreão de 30
metros de altura. Os responsáveis pela obra falam
em reconstrução porque se trata de uma reconstituição
de técnicas, processos e materiais do passado. A
idéia do retorno à Idade Média surgiu
na cabeça do empresário Michel Guyot, um especialista
em restaurar castelos decadentes, ao ouvir uma palestra
dos historiadores Nicolas Fauchères e Christian Corvisier
sobre fortificações medievais. Os três
juntaram seus interesses e conhecimentos e, com o apoio
financeiro de empresas e órgãos públicos,
iniciaram as obras há dois anos. Guyot espera que
o próprio turismo se encarregue de financiar o empreendimento
daqui para a frente. Só no ano passado, 90.000
pessoas visitaram o canteiro de obras de Guédelon.
A França tem no acervo histórico e cultural
sua maior fonte de riqueza. Os 1.000
anos de História, centenas de castelos, milhares
de obras de arte são o principal responsável
pela afluência de 70 milhões de turistas ao
país a cada ano. A novidade é que, além
de preservar seu patrimônio, os franceses tratam agora
de ampliá-lo. Além do castelo, está
sendo reconstruída também a Hermione, uma
fragata francesa do século XVIII que lutou ao lado
dos americanos na guerra da independência dos Estados
Unidos. Com 1.200 toneladas e
65 metros de comprimento, a fragata histórica está
sendo armada nos mesmos estaleiros de Rochefort, onde foi
construída a Hermione original mais de 200
anos atrás. A armação de uma embarcação
como essa demorava um ano e empregava centenas de operários
de duas dezenas de profissões. A preocupação
em repetir os mesmos processos de fabricação
deve garantir pelo menos dez anos de trabalho antes que
a obra esteja concluída. O que é providencial.
Como no caso do castelo, a feitura do navio é também
uma atração turística.