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Edição
1 642 - 29/3/2000
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A vida de Celso Pitta já estava ruim após as denúncias da ex-mulher Nicéa. Ficou pior na semana passada, quando o prefeito de São Paulo recebeu a notícia de que um juiz decidiu afastá-lo do cargo, pelo menos temporariamente. A decisão tem caráter liminar, pode ser revista a qualquer momento e foi motivada pelo empréstimo de 800.000 reais que Pitta recebeu do empresário Jorge Yunes, um multimilionário com fortuna estimada em 500 milhões de reais, incluindo-se aí 350 imóveis alugados, duas editoras, uma transportadora e uma mineradora, sem contar um prédio de quatro andares em zona nobre de Paris, onde passa as férias com a família e uma caravana de amigos, contados às dezenas. O Ministério Público entendeu que Pitta não tem patrimônio nem renda para pagar o que deve e redigiu o pedido de afastamento, devidamente autorizado pelo juiz. Entende a promotoria que o ressarcimento da transação entre o prefeito e o milionário teria ocorrido de forma irregular – e inconfessável. Na petição, os promotores sugerem que Yunes pode ter sido beneficiado por alterações feitas pela prefeitura na legislação municipal que acabaram valorizando terrenos e imóveis de sua propriedade. O juiz acatou o argumento. Advogados renomados garantem que a decisão é arbitrária e que Pitta deve ser reconduzido ao cargo. De qualquer forma, o vice-prefeito, Regis de Oliveira, inimigo figadal de Pitta, já mandava passar o terno com que planeja assumir o cargo nesta semana. Para efeito de comparação, a relação entre os dois, Celso Pitta e Regis de Oliveira, lembra a que havia entre o presidente Fernando Collor e seu vice, Itamar Franco. Ódio puro.
Mesmo com toda a confusão envolvendo seu nome há quase um mês, Pitta voltou a socorrer-se junto a Yunes na semana passada. O prefeito ligou para o empresário na segunda-feira para pedir que lhe arrumasse um apartamento para morar. Pitta explicou que pretende deixar o flat onde vive, cuja mensalidade padrão sai por 5.000 reais. "Ninguém acredita que eles me deram desconto. Tenho de sair daqui", disse o prefeito. E pediu: "Você não tem nenhum apartamentinho sobrando para eu me instalar?" Yunes informou que só tinha um "dois-quartos no centro". Pitta ficou de pensar. E Yunes, de tentar arrumar algo melhor. A conversa foi testemunhada por VEJA. Para tornar as coisas ainda mais complicadas, como se fosse possível, o filho do prefeito, Victor Pitta, 25 anos, afirmou aos promotores paulistas que o tal empréstimo de 800.000 reais pode ser uma fraude. Seria forjado apenas para justificar os gastos da família. No depoimento, Victor disse mais. Contou que sua mãe nunca recebeu os 150.000 reais que Yunes – e ela própria – afirmava corresponder a um serviço de corretagem de obras de arte executado por ela. Yunes, calmo como um guardador de livros, reafirma tudo o que deu para os Pitta. "Bom, da minha conta saiu. Agora, se não entrou na deles, isso não é meu problema", diz o empresário. Segundo Yunes, esse caso já está virando uma piada. "Eu tenho dinheiro e tenho como justificar meus gastos. Não me preocupo com nada", garante. Nessa última declaração se pode confiar cegamente. Yunes é um ricaço daqueles que, pelo menos em matéria de dinheiro, não têm motivo algum para temer que falte o leitinho das crianças. No caso da família Pitta, ele está fornecendo o leitinho há dois anos, mensalmente, em boladas de 20 000 ou 25.000 reais. Pelo menos é o que diz e o que Pitta também confirma, mesmo que o filho, Victor, ache que tudo não passa de deslavada mentira.
Entre os bens que cercam Yunes há sinais de que o valor de 500 milhões de reais calculado informalmente como o total de sua fortuna faz sentido. Ele é dono da Companhia Editora Nacional e do Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas, Ibep, que juntos faturam 150 milhões de reais por ano com livros didáticos. Além das outras duas empresas e dos 350 imóveis que aluga, o ricaço mora na área mais cara da capital paulista, um terreno monstruoso situado na região dos Jardins sobre o qual se projeta uma mansão pomposa, com pretensões de estilo europeu, de 4.000 metros quadrados de área construída – tudo no valor aproximado de 50 milhões de reais. A mansão, conhecida como Casa da Manchete, foi feita em 1932 pelo ministro Horácio Láfer, época em que recebeu hóspedes como o presidente dos Estados Unidos Dwight Eisenhower e o maestro Zubin Mehta. Yunes comprou a casa há catorze anos.
Yunes já recebeu inúmeras propostas para vender sua mansão. Nunca aceitou. Em uma delas, ficou com medo de perder a casa para o italiano Umberto Ortolani, acusado nos anos 80 de pertencer a grupos terroristas de extrema direita. "Eu chutei um preço alto: 45 milhões de dólares. Ele falou que comprava na hora. Fiquei sem ação", lembra ele. Para sua sorte, Ortolani foi condenado a dezoito anos de cadeia na Itália. "Não é por nada, mas com isso me livrei de vender a casa", diz o empresário. Em Paris, onde passa longas temporadas duas vezes por ano, comprou um espetacular "hôtel particulier", uma propriedade tão suntuosa que, na França, nem é chamada de apartamento. Situada bem próxima à Avenida Champs-Elysées, a construção tem quatro andares, 600 metros quadrados de área, elevador interno e está avaliada em quase 5 milhões de reais.
Tão impressionante quanto o tamanho de sua fortuna é a forma com que Yunes lida com o dinheiro. Ele adora gastar. Tem prazer em comprar o que gosta. "Aprecio o conforto, sempre dei para mim tudo de melhor. Se ganho 10, poupo 5 e gasto os outros 5", resume. É difícil para um assalariado imaginar como o empresário leva sua vida. Alguns exemplos relatados por ele: quando vai a Paris, chega a levar uma comitiva de quarenta pessoas, incluídas as três babás dos netos, amigos dos filhos, pelo menos cinco empregadas, além de duas cozinheiras. Em sua mansão paulista, há um exército de 22 empregados para servir a três pessoas. Ele, a mulher e um de seus filhos. Só a equipe de seguranças é formada por dez pessoas. A sua secretária, Therezinha, ele paga 14.000 reais de salário por mês. Quase todos os empregados de Yunes moram em casas do patrão e não pagam aluguel. Outra mania de Yunes é oferecer festas e recepções para os amigos. E que recepções. Há cinco anos, o radialista Paulo Lopes, que tem um programa matutino na rádio Globo, vem sendo brindado com festas de aniversário patrocinadas pelo empresário. São reuniões regadas a champanhe e alegradas com caviar e faisão. "Uma festa dessas não sai por menos de 50.000 reais", arrisca o amigo e convidado freqüente, o médico e ex-deputado José Aristodemo Pinotti. Não é raro Yunes abrir sua casa para personalidades e autoridades estrangeiras de passagem pelo Brasil, como foi o caso do príncipe Rainier, de Mônaco. A relação de Yunes com o dinheiro é tão descompromissada que ele dá risadas quando comenta que teve um prejuízo de 300.000 dólares quando os filhos, há alguns anos, "brincaram de ter restaurante". Quando o neto lhe quebrou um vaso Emille Gallet, de sua coleção, no valor de 60.000 dólares, o empresário simulou simpatia diante dos amigos. "Tadinho, esbarrou a mãozinha e deixou cair." Jorge Yunes não abre a mão só para o prefeito de São Paulo. É de espantar como há gente devendo a esse homem! De donos de restaurante a políticos, a lista é extensa. "Ele me perdoou uma dívida de 20.000 reais, que na época eu não podia pagar", conta José Alencar de Souza, sócio do restaurante Santo Colomba, em São Paulo. O ex-governador do Maranhão e atual deputado federal João Castelo tem uma dívida de 250.000 reais com Yunes. Por causa de uma briga pessoal, a cobrança foi parar na Justiça. Para o amigo Paulo Lopes, o da rádio Globo, Yunes já emprestou 110.000 reais. "Ele me ajudou numa hora em que eu precisava muito", conta Lopes. Outro político que aceitou uma mãozinha de Yunes foi o médico e político José Pinotti. Como não tinha os 200.000 reais para comprar uma casa dos sonhos na praia, ele recorreu ao milionário. Até hoje a dívida está pendente. Pinotti já quis entregar o imóvel como pagamento, mas Yunes não aceitou. O italiano Sebastian De Luca, que se apresenta como conde e ajuda Yunes a escolher suas obras de arte, também pediu 100.000 reais. "Eu gosto de ajudar e nunca vou cobrar nada de ninguém. Se puderem me pagar, me pagam. Se não pagarem, vou cortar meus pulsos?", diz o obsequioso. A romaria de pedidos inclui pessoas com quem a família mantém relações apenas cordiais. Há três semanas, a mãe de um amigo de seu filho lhe telefonou do Rio de Janeiro para uma emergência: precisava de 5.000 reais, mas não queria contar ao marido. À tarde, o dinheiro já estava na conta da mulher. "Meu irmão dizia que eu era comunista porque vivia dando coisas para os outros. Mas eu sou é um capitalista cristão", afirma Yunes. Por ser rico e generoso, é sempre chamado para ser padrinho de casamento. "Mas eu dou geladeira, não apartamentos."
Jorge Yunes sempre sentiu atração pela política. Adora participar de conversas em que se selam acordos de bastidores, indicam-se titulares para cargos públicos e montam-se chapas às prévias partidárias. O primeiro político com quem teve contato mais intenso foi Jânio Quadros, a quem conheceu na década de 70. Um amigo de Yunes comandava reuniões políticas até altas horas da noite, às quais ele comparecia. De vez em quando, Jânio Quadros dava o ar de sua graça. Yunes ficava olhando, pouco palpitava, mas começou a tomar gosto pela coisa. Convidava políticos e empresários para jantares e festas em sua casa. Ampliou de tal forma seu leque de amizades que passou a ser conhecido por alguns poderosos de Brasília, até mesmo pelo maior deles: o presidente da República. Em 1982, o então presidente João Figueiredo o convocou para uma reunião na Granja do Torto, em Brasília. O motivo: Figueiredo queria que Yunes organizasse em sua casa encontros de políticos paulistas com o então ministro das Minas e Energia, César Cals, numa tentativa de convencer os paulistas a trabalhar a favor de uma proposta de mais três anos de mandato para o general. Mas a história não foi adiante. O único cargo público que ocupou foi de secretário da Cultura na gestão de Jânio Quadros na prefeitura de São Paulo, em 1986. Com o tempo, Yunes aproximou-se da turma do PDS, de Paulo Maluf, que é contraparente seu. Uma prima de Yunes é casada com um tio de Maluf. A relação dos dois sempre foi de amizade e confiança. Nas campanhas eleitorais de que Maluf participou na última década, Yunes estava lá para auxiliá-lo. "Ajudei a levantar fundos para a campanha porque conheço as pessoas certas, mas nunca dei um tostão e nunca fui tesoureiro de Maluf", afirma o empresário. A aproximação com Celso Pitta ocorreu às vésperas da campanha para a prefeitura. A pedido de Paulo Maluf, Yunes montou o comitê e ajudou a levantar recursos. "Não era o tesoureiro de Pitta, mas me dediquei com toda a garra a elegê-lo", diz Yunes. A dedicação, leia-se mais uma vez, era pedir alguma ajuda aos velhos amigos. Como o empresário mexeu com dinheiro e a campanha de Pitta movimentou milhões e milhões de reais, surgiu a suspeita levantada pelos promotores e reforçada pelo depoimento de Victor Pitta de que o empréstimo seria apenas uma operação de fachada – uma forma de justificar o padrão de vida do prefeito, incompatível com seu salário. Calcula-se que Pitta tenha vivido esses meses todos com uma renda mensal por volta de 40.000 reais, sendo que como prefeito ganha 6.500 reais. Na semana passada, mais um depoimento corroborou a tese do Ministério Público. O decorador brasileiro Gabriel de Souza, que mora em Nova York, diz ter gasto 60.000 dólares na reforma do apartamento da filha do prefeito, Roberta Pitta, em Manhattan. A decoração incluiu a compra de uma cama Ralph Lauren, de 4 200 dólares, e uma poltrona de 1 600 dólares. Nicéa participou pessoalmente das compras e assinava os cheques polpudos sem reclamar. Até o decorador abrir seu livrinho contábil, Nicéa dizia que as contas da filha em Nova York eram pagas por sua irmã.
Quanto mais o Ministério Público mexe nessa história, mais enrolada ela fica. Em seu depoimento aos promotores na semana passada, Victor Pitta falou de uma prima sua, Raquel Borges, que chegou a dividir um apartamento com Roberta, antes de a filha do prefeito montar a própria moradia em Nova York. Segundo suspeita de Victor, a prima Raquel pode estar lavando dinheiro do prefeito no exterior. Como se isso ainda fosse pouco, Victor acrescentou mais essa: segundo ele, Raquel é sócia de Zélia Cardoso de Mello, a ex-ministra de Fernando Collor. Zélia e Raquel desmentiram a informação. O episódio se tornou rocambolesco com a aparição do humorista Chico Anysio na história. Chico Anysio, como se recorda, foi marido de Zélia Cardoso de Mello depois que ela deixou o governo. Pois bem. Numa entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, na semana passada, Chico desmentiu a ex-mulher, confirmando que Zélia era mesmo sócia de Raquel em uma empresa especializada em consultoria financeira. É curioso que, com tantos tentáculos no escândalo da prefeitura, os promotores tenham atingido o cargo de Pitta justamente pelo elo de aparência mais simples e ingênua – se é que se pode usar essa palavra no caso –, o empréstimo do amigo milionário. Nem Pitta nem Yunes jamais fizeram qualquer segredo do suposto empréstimo. E, num caso em que há denúncias de compra de vereadores, favorecimento de prestadoras de serviços à prefeitura e nomeação de fantasmas para cargos públicos, foi logo o empréstimo de Yunes a Pitta que puxou a cadeira do prefeito. É preciso reconhecer que a história estava muito mal contada. Segundo Yunes, ele dava o dinheiro a Pitta em bolos de 20 000, 25 000 reais, e não por meio de depósito bancário ou cheque. Imagine o prefeito da maior cidade do país indo todo mês à casa de um empresário receber sua mesada em notas de 50.
A origem da fortuna de Yunes está na venda de livros didáticos. Ele desembarcou no mercado editorial no final da década de 60. Nessa época, tinha um escritório de advocacia e já ganhava dinheiro com imóveis alugados. Criou o Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas, o Ibep. Como o mercado estava engatinhando e a concorrência era pequena, a taxa de retorno era muito alta. Chegava a 40%. Hoje, os lucros não passam de 10%. Para fazer seus livros ficarem conhecidos, Yunes espalhava os títulos de graça por escolas de todo o país e depois os professores acabavam recomendando a aquisição dos livros aos pais dos alunos e ao governo. Quando adquiriu a Companhia Editora Nacional, Yunes tornou-se o maior editor de livros didáticos do Brasil. Durante anos, ele deteve 36% desse mercado. Hoje, estima-se que detenha 20%. Em 1997, os 39 livros que Yunes tentou vender para o governo foram considerados "não recomendados" ou acabaram excluídos da lista do Ministério da Educação.
Filho mais novo de onze irmãos, Yunes nasceu em São João del Rei, no interior de Minas Gerais, neto de sírio-libaneses. A mãe era surda e muda e o pai, dono de um armarinho de secos e molhados. Aos 9 anos, Yunes já trabalhava. Já morando em São Paulo, para onde a família se transferiu, o menino vendia livros de porta em porta. Foi contínuo, trabalhou num laboratório de análises clínicas e como fiscal do Ministério do Trabalho e nunca deixou de comprar e vender tudo em que punha a mão. "Coisa de árabe", afirma. Pouco a pouco, chegou aos negócios grandes. Hoje, gosta de mostrar os símbolos físicos de sua ascensão. Em sua mansão, há 1.400 quadros e cerca de 7.000 objetos de arte expostos aos visitantes. Numa reforma da casa, contratou o arquiteto Ugo di Pace, uma estrela na alta-roda paulistana, que tirou de circulação as peças de arte sem valor que se espalhavam pela mansão. Ugo di Pace mandou empilhar tudo aquilo no porão – 22.000 objetos considerados pouco relevantes. É que Yunes compra tudo e, fofocam as línguas malvadas do mercado, muitas vezes não sabe o que está adquirindo. Por isso, é o queridinho dos donos de galeria. Mas tem algumas peças consideradas especiais, como um Frans Post, de meados de 1600, comprado por 200.000 dólares, um Goya, dois Toulouse-Lautrec, Picassos, telas e desenhos de Jean Cocteau, sem contar os brasileiros Guignard, Volpi, Di Cavalcanti e Portinari. Ele pode até ter inventado esse empréstimo a Pitta, conforme suspeita do filho do prefeito. Para um homem com a fortuna que Yunes tem, 800 000 reais não é nada. Para os promotores, é não apenas muito dinheiro como também pode ser uma base sólida, tangível e muito vistosa para pegar o prefeito paulistano no pulo. Com reportagem de Rodrigo Vergara
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