Homenagem a Francis
Ilustração Paulo Gil
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Como acontece todos os anos, os cariocas debocharam do
Carnaval paulistano. O prefeito do Rio de Janeiro saiu na
frente. Depois, veio o governador. Trata-se de disputa eleitoreira,
claro. Esse bairrismo de botequim lhes rende votos. O problema
é que os carnavalescos paulistanos caíram
na armadilha e se sentiram no dever de responder. Mas responder
o quê? Uma das poucas vantagens de São Paulo
em relação ao Rio é, justamente, não
ter Carnaval.
Eu nasci e cresci em São Paulo. Se me obrigassem
a morar em alguma cidade brasileira, no entanto, acho que
escolheria o Rio. Eu gosto de praia. E gosto, particularmente,
das praias cariocas, com picolé, tapioca, coco verde,
frescobol, esgoto a céu aberto e aquelas ondas fortes
que vivem dando caldo na gente. Mas, já que ninguém
me obriga a morar no Brasil, decidi morar na Itália,
em Veneza. É a cidade perfeita para mim. Porque é
o exato contrário de São Paulo. Em São
Paulo, eu sentia que tudo era familiar demais, que minhas
escolhas eram automáticas, mecânicas. Vindo
para um lugar como Veneza, tive de repensar toda a minha
vida, adaptando-me conscientemente a essa nova realidade,
refletindo a respeito de cada ação.
A maioria das pessoas que eu conheço jamais trocaria
São Paulo ou Rio por Veneza. Elas amam sua cidade.
Esse amor é perfeitamente legítimo. Não
tenho nada contra. Acontece que eu cresci num período
em que amar a própria pátria se tornou uma
espécie de imposição. Todas as manhãs,
em minha escola, cantava-se o Hino Nacional e hasteava-se
a bandeira. A seguir, assistíamos às aulas
de educação moral e cívica. Esse ufanismo
forçado acabou produzindo o efeito inverso na minha
cabeça, assim como na de muita gente da minha geração.
Nós percebíamos que amar a pátria,
naquele momento, significava aprovar o regime militar. Como
éramos pequenos demais para atirar coquetéis
molotov na polícia, a única subversão
que nos restava era falar mal do país, cantar uma
versão chula do hino e torcer contra a seleção
de futebol.
Três anos depois de sua morte, ninguém mais
se lembra de Paulo Francis. Mas ele representou uma verdadeira
liberação para garotos como eu. Ele demonstrava,
por meio de seus artigos de Nova York, que havia dignidade
intelectual no repúdio ao Brasil, que não
se tratava apenas de xenofilia caipira. Ir embora do país
voluntariamente era ainda mais heróico que ser exilado
pela ditadura, porque não implicava sujeição,
e sim vitória individual. Essas considerações
talvez já não façam sentido nos dias
de hoje, porém eu tenho um débito com Paulo
Francis. E, desde fevereiro, aniversário de sua morte,
venho tentando arrumar uma maneira de homenageá-lo
num dos meus artigos. Infelizmente, tudo o que escrevo sobre
o assunto fica retórico, pomposo. Como esse papo
furadíssimo a respeito da ditadura. A minha homenagem
a Paulo Francis, portanto, será muito mais direta.
Logo depois de terminar esse artigo, pegarei minha lanchinha,
que ficou no estaleiro durante todo o inverno, e darei uma
longa volta pelos canais de Veneza, do Arsenal até
Rialto, passando pela ponta da Alfândega.