Edição 1 642 - 29/3/2000

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Sexo no trabalho

Sexóloga americana diz que namoro no escritório é natural e inevitável. Pode até melhorar a produtividade

Alexandre Mansur

A americana Shere Hite é a autora feminista mais lida do mundo. Seu livro, o Relatório Hite sobre a Sexualidade Feminina, lançado há 24 anos, causou um espécie de revolução cultural ao desnudar o que as mulheres pensam sobre sexo e, sobretudo, suas queixas sobre a ignorância sexual dos homens. Seus livros seguintes – sobre sexualidade masculina, casamento e amor – venderam milhões de cópias. Nos anos 90, bombardeada por críticas e acusada de falta de rigor científico no uso das estatísticas, Hite deixou os Estados Unidos e foi morar na Europa. Adotou a nacionalidade alemã do marido, um pianista clássico, e estabeleceu seu escritório em Paris. Agora, aos 57 anos, prepara-se para embarcar em nova controvérsia. Ela está lançando o livro Sex and Business (Sexo e Negócios), que sairá por aqui em novembro, pela editora Bertrand Brasil. O assunto não poderia ser mais pertinente. Suas pesquisas revelaram que 42% dos empregados de grandes empresas tinham um caso com um colega, mesmo que isso fosse contra as normas da corporação. Na semana passada, Hite falou a VEJA.

 

Veja – A maioria das empresas desaconselha e até proíbe namoros entre funcionários. Isso é bom ou ruim?
Shere Hite –
Proibir o namoro é uma bobagem. Na verdade, as empresas estão apavoradas com o volume crescente de processos por assédio sexual. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Proibir os relacionamentos não vai impedir que aconteçam. Só tende a criar situações constrangedoras. Certa empresa americana obriga os funcionários a informar se estão saindo juntos, inclusive explicando se a relação envolve beijo ou sexo. É uma situação absurda. A histeria de controlar a vida pessoal do empregado não funciona. Empresas inteligentes estão fazendo justamente o contrário.

Veja – Por que é inteligente liberar o namoro no ambiente de trabalho?
Hite –
Primeiro, porque não há nada mais natural. Segundo, porque quando um casal se forma dentro da empresa se evita que os dois tenham de se deslocar, cada um de um canto da cidade, para se encontrar na hora do almoço. Isso até aumenta a produtividade. É fora da realidade pretender que o ambiente de trabalho seja asséptico e assexuado. Desde pequenos, meninos e meninas vão à escola juntos e se dão bem. A performance universitária de homens e mulheres indica que os estudantes não tiram notas piores porque estão flertando uns com os outros. Homens e mulheres podem trabalhar juntos sem necessidade de alguém tomando conta. Essa liberdade cria um ambiente profissional mais energizante. Isso não quer dizer que a pessoa deva ir para a cama com o primeiro colega que se aproxima.

Veja – Faz-se muito sexo entre colegas de trabalho?
Hite –
E como! Nas dez companhias em que pesquisei, 42% das pessoas estavam tendo um caso com um colega. Mas 35% preferiam esconder dos outros. Cerca de 70% dos homens e 60% das mulheres já tiveram alguma vez um envolvimento amoroso no trabalho. É natural que seja assim, afinal muitos funcionários são solteiros. Passamos tanto tempo da vida no escritório que a maior parte de nossas relações sociais são construídas no ambiente de trabalho. Existe um mito de que os relacionamentos nascidos no trabalho não são bons nem duradouros. Mas o que descobrimos é que eles têm tanta chance de dar certo quanto quaisquer outros.

Veja – Os relacionamentos no trabalho são encarados da mesma forma por homens e mulheres?
Hite –
Aí é que está. Descobrimos que o relacionamento no trabalho foi um fato positivo para 61% dos homens, enquanto 73% das mulheres relataram como um momento negativo. Isso é resquício de uma mentalidade atrasada. Existe um duplo padrão moral segundo o qual, na relação sexual, o homem está ganhando alguma coisa e a mulher perdendo se o relacionamento não acabar em casamento. Os homens também encaram esses relacionamentos de maneira distorcida, como se fossem uma competição para provar sua masculinidade.

Veja – Não há o risco de o relacionamento amoroso no trabalho ser usado como instrumento para fazer carreira ou obter privilégios?
Hite –
Bom, esse risco sempre existe. Mas se faz isso com qualquer tipo de relacionamento, não apenas o amoroso. As pessoas tendem a desenvolver sentimentos umas pelas outras em decorrência da experiência de trabalhar juntas. A fascinante energia de realizar projetos em equipe cria vínculos que acabam se transformando em belos laços de companheirismo. As corporações deveriam reconhecer isso, em vez de insistir em que não há sexo ou vida privada no trabalho.

Veja – Isso não abre espaço para o assédio sexual?
Hite –
O assédio é generalizado de qualquer maneira. Das mulheres pesquisadas, 76% já sofreram assédio no trabalho. Algumas admitiram que fizeram sexo com um colega porque acharam que ele poderia ajudá-las na carreira. Eu perguntei se valeu a pena. Cerca de 29% disseram que não adiantou nada. E 31% não tinham certeza dos resultados. O interessante é que apenas 36% dos homens afirmaram que já assediaram alguma colega. A explicação é que muitos homens não têm idéia de como as mulheres entendem suas investidas sexuais e do medo que muitas delas têm de perder o emprego. Também há os que fazem isso por hostilidade, para provar que são mais poderosos.  

Veja – Como se pode evitar o abuso sexual no ambiente de trabalho?
Hite –
A única maneira eficaz de evitar isso é estabelecer regras claras a respeito. Homens e mulheres podem pensar que não é possível se divertir com colegas do sexo oposto e, ao mesmo tempo, manter um ambiente de trabalho livre de assédio sexual. Isso não é verdade. Você sempre pode ser charmoso e galante sem cair no abuso. Acho que é preciso reeducar homens e mulheres.  

Veja – Como evolui a relação entre homens e mulheres no trabalho?
Hite –
As mulheres ganharam mais espaço no ambiente de trabalho nos últimos anos. Hoje, há mais mulheres nas empresas e, ao menos em teoria, elas têm direitos iguais aos dos homens. Na prática não é bem assim. O que se vê nos escritórios é uma espécie de reprodução do mesmo sistema que organiza as famílias tradicionais. No trabalho, as mulheres tendem a ocupar cargos subordinados aos dos homens e ficam em posição de quem serve a eles. Elas trabalham mais como secretárias, assistentes ou assessoras. Você não encontra facilmente mulheres em postos de comando. Cerca de 63% das mulheres se sentem discriminadas em relação aos colegas homens. E o mais incrível é que 61% deles admitem que as mulheres não são levadas tão a sério.  

Veja – Por que isso acontece?
Hite –
Não podemos dizer que as mulheres são menos qualificadas que os homens. Hoje, elas têm a mesma formação e, pelo menos na fase inicial da carreira, acumulam o mesmo tipo de experiência. Acontece que os dirigentes, quase sempre homens, não dão espaço para que as mulheres se promovam. Em minha pesquisa, quase todos os homens declararam que gostam de trabalhar com mulheres. Por outro lado, 52% admitiram que se sentem incomodados quando têm, a seu lado, uma colega no mesmo nível hierárquico. É incrível, mas eles preferem trabalhar em uma espécie de clube onde as mulheres não entram.  

Veja – O que eles ganham com isso?
Hite –
Os homens parecem ficar mais à vontade assim. Parece estranho, mas é um comportamento que começa na infância. Quando o menino é muito jovem, ele fica bastante ligado à mãe. Quando chega a uma certa idade, entre 10 e 12 anos, seus amigos começam a fazer troça dele, colocando em xeque sua masculinidade. Para provar que é macho, o garoto precisa largar da saia da mãe e ir jogar bola ou participar de algumas brincadeiras violentas. Ele precisa demonstrar que não recebe ordens da mãe, nem de mulher alguma. Assim, desde cedo o menino vai sendo condicionado a criar companheirismo entre pessoas do mesmo sexo e se distanciar do sexo oposto. Por incrível que pareça, esse tipo de comportamento persiste no ambiente de trabalho.  

Veja – A senhora está dizendo que as empresas funcionam como um Clube do Bolinha?
Hite –
Durante o preparo de meu livro, entrevistei presidentes executivos de diversas multinacionais. Um deles disse que o grupo de diretores era composto exclusivamente de homens para não perturbar o clima de companheirismo. Eles comentam coisas entre si que não diriam na frente de uma mulher. É um sistema muito discreto. Noventa por cento dos executivos que entrevistei afirmaram que o crescimento profissional das mulheres é um processo inevitável, mas admitiram que não ficariam à vontade em indicar uma mulher para substituí-los.  

Veja – Mas por que um homem evitaria promover uma mulher?
Hite –
Aconteceu um caso muito interessante com Laurenz Fritz, então presidente da Alcatel da Áustria. Ele indicou uma mulher para o quadro de diretores da empresa. E a primeira reação dos outros diretores foi insinuar que Fritz estava tendo um caso com ela. No início, ele ficou tão chocado com a reação dos colegas que desistiu de indicar aquela funcionária. Mas foi persuadido por sua filha a adotar outra estratégia. Contratou uma empresa de head-hunter para procurar uma mulher para aquela posição e forneceu-lhe as qualificações necessárias. Depois de pesquisas e entrevistas, a empresa chegou ao mesmo nome da pessoa que Fritz tinha indicado. Dessa vez, os outros diretores foram obrigados a aceitá-la. Mas, mesmo assim, ainda hoje se comenta na empresa que os dois estariam tendo um caso amoroso.

Veja – Por que os homens reagem assim?
Hite –
Os homens não conseguem imaginar nenhuma relação de proximidade com as mulheres que não passe pelo corpo, pelo contato físico. Eles não foram educados para ter bons colegas ou bons amigos do sexo oposto, se não houver segundas intenções envolvidas. Muitos homens e mulheres acreditam realmente que é impossível haver uma relação bastante próxima sem interesse sexual. Acho isso uma tolice. Você não precisa querer ir para a cama com toda mulher que se aproxime de você. Nem no trabalho nem em lugar nenhum.  

Veja – O comportamento feminino é diferente?
Hite –
Nós crescemos na mesma sociedade. As mulheres mudaram muito nos últimos 25 anos, mas, ainda assim, lá no fundo, os antigos estereótipos persistem. Nós temos preconceitos contra mulheres e a favor dos homens. Nas famílias tradicionais, supõe-se que os homens estejam no topo. E nós transferimos essa lógica, inconscientemente, para dentro da empresa. Assim, às vezes imaginamos que as outras mulheres no trabalho não são tão importantes quanto os homens.  

Veja – Será que as mulheres são tão ambiciosas profissionalmente como os homens?
Hite –
Quando pergunto a mulheres jovens quais delas se imaginam à frente de uma grande corporação, poucas levantam o braço. Por outro lado, quase todas afirmam que gostariam de dirigir um negócio próprio, pequeno ou médio. Elas preferem investir sua energia e sua criatividade em um terreno novo, no qual possam criar outras regras. Todas sabem que ainda há muitas barreiras para elas no mundo corporativo.  

Veja – Que barreiras são essas?
Hite –
São obstáculos não declarados, mas facilmente visíveis. Preste bem atenção no ambiente das grandes empresas. Há muitas garotas recém-saídas das universidades, algumas com ótimas qualificações. Cerca de 75% dos executivos afirmam que as mulheres vão melhor nos testes de admissão que seus colegas homens. Mas, por alguma razão misteriosa, quando elas passam dos 30 anos de idade praticamente desaparecem das empresas. É como se houvesse um teto de vidro que as impede de subir a partir desse ponto.  

Veja – Como se percebe a existência desse teto de vidro?
Hite –
Imagine uma garota com excelente formação acadêmica que, aos 20 anos, acabou de entrar em uma grande empresa. Ela faz um ótimo trabalho, recebe freqüentes elogios. Mas o tempo vai passando e ela não sai do lugar. Enquanto isso, vê seus colegas homens subirem na empresa. Se fosse um homem, começaria a sair com o chefe para tomar uma cerveja depois do expediente. Seus colegas, no máximo, iriam criticar o puxa-saquismo. Porém, sendo uma garota, qualquer movimento para criar mais intimidade com o chefe vai ser entendido de maneira maldosa. É nesse momento que a mulher repensa sua vida e decide que talvez valha mais a pena sair da empresa para ter filhos e depois investir em um negócio próprio.

Veja – A senhora se considera vaidosa?
Hite –
Claro. Como toda mulher, adoro comprar roupas bonitas e vistosas. Tomo muito cuidado com meus cabelos. Só porque trabalho com movimento feminista não quer dizer que eu deva ficar feia.  

Veja – Qual é seu segredo para continuar bonita e atraente aos 57 anos de idade?
Hite –
Eu me cuido. Procuro fazer exercícios moderadamente, dez minutos por dia. E sempre durmo pelo menos oito horas por noite. Além disso, acho que minha herança genética ajudou.

 
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