Sexo no trabalho
Sexóloga americana diz que namoro
no escritório é natural e inevitável.
Pode até melhorar a produtividade
Alexandre Mansur
A americana Shere Hite é a autora feminista mais
lida do mundo. Seu livro, o Relatório Hite sobre
a Sexualidade Feminina, lançado há 24
anos, causou um espécie de revolução
cultural ao desnudar o que as mulheres pensam sobre sexo
e, sobretudo, suas queixas sobre a ignorância sexual
dos homens. Seus livros seguintes sobre sexualidade masculina,
casamento e amor venderam milhões de cópias.
Nos anos 90, bombardeada por críticas e acusada de
falta de rigor científico no uso das estatísticas,
Hite deixou os Estados Unidos e foi morar na Europa. Adotou
a nacionalidade alemã do marido, um pianista clássico,
e estabeleceu seu escritório em Paris. Agora, aos
57 anos, prepara-se para embarcar em nova controvérsia.
Ela está lançando o livro Sex and Business
(Sexo e Negócios), que sairá por aqui em novembro,
pela editora Bertrand Brasil. O assunto não poderia
ser mais pertinente. Suas pesquisas revelaram que 42% dos
empregados de grandes empresas tinham um caso com um colega,
mesmo que isso fosse contra as normas da corporação.
Na semana passada, Hite falou a VEJA.
Veja A maioria das empresas desaconselha e até
proíbe namoros entre funcionários. Isso é
bom ou ruim?
Shere Hite Proibir o namoro é uma bobagem.
Na verdade, as empresas estão apavoradas com o volume
crescente de processos por assédio sexual. Mas uma
coisa não tem nada a ver com a outra. Proibir os
relacionamentos não vai impedir que aconteçam.
Só tende a criar situações constrangedoras.
Certa empresa americana obriga os funcionários a
informar se estão saindo juntos, inclusive explicando
se a relação envolve beijo ou sexo. É
uma situação absurda. A histeria de controlar
a vida pessoal do empregado não funciona. Empresas
inteligentes estão fazendo justamente o contrário.
Veja Por que é inteligente liberar o namoro
no ambiente de trabalho?
Hite Primeiro, porque não há nada mais
natural. Segundo, porque quando um casal se forma dentro
da empresa se evita que os dois tenham de se deslocar, cada
um de um canto da cidade, para se encontrar na hora do almoço.
Isso até aumenta a produtividade. É fora da
realidade pretender que o ambiente de trabalho seja asséptico
e assexuado. Desde pequenos, meninos e meninas vão
à escola juntos e se dão bem. A performance
universitária de homens e mulheres indica que os
estudantes não tiram notas piores porque estão
flertando uns com os outros. Homens e mulheres podem trabalhar
juntos sem necessidade de alguém tomando conta. Essa
liberdade cria um ambiente profissional mais energizante.
Isso não quer dizer que a pessoa deva ir para a cama
com o primeiro colega que se aproxima.
Veja Faz-se muito sexo entre colegas de trabalho?
Hite E como! Nas dez companhias em que pesquisei,
42% das pessoas estavam tendo um caso com um colega. Mas
35% preferiam esconder dos outros. Cerca de 70% dos homens
e 60% das mulheres já tiveram alguma vez um envolvimento
amoroso no trabalho. É natural que seja assim, afinal
muitos funcionários são solteiros. Passamos
tanto tempo da vida no escritório que a maior parte
de nossas relações sociais são construídas
no ambiente de trabalho. Existe um mito de que os relacionamentos
nascidos no trabalho não são bons nem duradouros.
Mas o que descobrimos é que eles têm tanta
chance de dar certo quanto quaisquer outros.
Veja Os relacionamentos no trabalho são encarados
da mesma forma por homens e mulheres?
Hite Aí é que está. Descobrimos
que o relacionamento no trabalho foi um fato positivo para
61% dos homens, enquanto 73% das mulheres relataram como
um momento negativo. Isso é resquício de uma
mentalidade atrasada. Existe um duplo padrão moral
segundo o qual, na relação sexual, o homem
está ganhando alguma coisa e a mulher perdendo se
o relacionamento não acabar em casamento. Os homens
também encaram esses relacionamentos de maneira distorcida,
como se fossem uma competição para provar
sua masculinidade.
Veja Não há o risco de o relacionamento
amoroso no trabalho ser usado como instrumento para fazer
carreira ou obter privilégios?
Hite Bom, esse risco sempre existe. Mas se faz isso
com qualquer tipo de relacionamento, não apenas o
amoroso. As pessoas tendem a desenvolver sentimentos umas
pelas outras em decorrência da experiência de
trabalhar juntas. A fascinante energia de realizar projetos
em equipe cria vínculos que acabam se transformando
em belos laços de companheirismo. As corporações
deveriam reconhecer isso, em vez de insistir em que não
há sexo ou vida privada no trabalho.
Veja Isso não abre espaço para o assédio
sexual?
Hite O assédio é generalizado de qualquer
maneira. Das mulheres pesquisadas, 76% já sofreram
assédio no trabalho. Algumas admitiram que fizeram
sexo com um colega porque acharam que ele poderia ajudá-las
na carreira. Eu perguntei se valeu a pena. Cerca de 29%
disseram que não adiantou nada. E 31% não
tinham certeza dos resultados. O interessante é que
apenas 36% dos homens afirmaram que já assediaram
alguma colega. A explicação é que muitos
homens não têm idéia de como as mulheres
entendem suas investidas sexuais e do medo que muitas delas
têm de perder o emprego. Também há os
que fazem isso por hostilidade, para provar que são
mais poderosos.
Veja Como se pode evitar o abuso sexual no ambiente
de trabalho?
Hite A única maneira eficaz de evitar isso
é estabelecer regras claras a respeito. Homens e
mulheres podem pensar que não é possível
se divertir com colegas do sexo oposto e, ao mesmo tempo,
manter um ambiente de trabalho livre de assédio sexual.
Isso não é verdade. Você sempre pode
ser charmoso e galante sem cair no abuso. Acho que é
preciso reeducar homens e mulheres.
Veja Como evolui a relação entre homens
e mulheres no trabalho?
Hite As mulheres ganharam mais espaço no ambiente
de trabalho nos últimos anos. Hoje, há mais
mulheres nas empresas e, ao menos em teoria, elas têm
direitos iguais aos dos homens. Na prática não
é bem assim. O que se vê nos escritórios
é uma espécie de reprodução
do mesmo sistema que organiza as famílias tradicionais.
No trabalho, as mulheres tendem a ocupar cargos subordinados
aos dos homens e ficam em posição de quem
serve a eles. Elas trabalham mais como secretárias,
assistentes ou assessoras. Você não encontra
facilmente mulheres em postos de comando. Cerca de 63% das
mulheres se sentem discriminadas em relação
aos colegas homens. E o mais incrível é que
61% deles admitem que as mulheres não são
levadas tão a sério.
Veja Por que isso acontece?
Hite Não podemos dizer que as mulheres são
menos qualificadas que os homens. Hoje, elas têm a
mesma formação e, pelo menos na fase inicial
da carreira, acumulam o mesmo tipo de experiência.
Acontece que os dirigentes, quase sempre homens, não
dão espaço para que as mulheres se promovam.
Em minha pesquisa, quase todos os homens declararam que
gostam de trabalhar com mulheres. Por outro lado, 52% admitiram
que se sentem incomodados quando têm, a seu lado,
uma colega no mesmo nível hierárquico. É
incrível, mas eles preferem trabalhar em uma espécie
de clube onde as mulheres não entram.
Veja O que eles ganham com isso?
Hite Os homens parecem ficar mais à vontade
assim. Parece estranho, mas é um comportamento que
começa na infância. Quando o menino é
muito jovem, ele fica bastante ligado à mãe.
Quando chega a uma certa idade, entre 10 e 12 anos, seus
amigos começam a fazer troça dele, colocando
em xeque sua masculinidade. Para provar que é macho,
o garoto precisa largar da saia da mãe e ir jogar
bola ou participar de algumas brincadeiras violentas. Ele
precisa demonstrar que não recebe ordens da mãe,
nem de mulher alguma. Assim, desde cedo o menino vai sendo
condicionado a criar companheirismo entre pessoas do mesmo
sexo e se distanciar do sexo oposto. Por incrível
que pareça, esse tipo de comportamento persiste no
ambiente de trabalho.
Veja A senhora está dizendo que as empresas
funcionam como um Clube do Bolinha?
Hite Durante o preparo de meu livro, entrevistei
presidentes executivos de diversas multinacionais. Um deles
disse que o grupo de diretores era composto exclusivamente
de homens para não perturbar o clima de companheirismo.
Eles comentam coisas entre si que não diriam na frente
de uma mulher. É um sistema muito discreto. Noventa
por cento dos executivos que entrevistei afirmaram que o
crescimento profissional das mulheres é um processo
inevitável, mas admitiram que não ficariam
à vontade em indicar uma mulher para substituí-los.
Veja Mas por que um homem evitaria promover uma
mulher?
Hite Aconteceu um caso muito interessante com Laurenz
Fritz, então presidente da Alcatel da Áustria.
Ele indicou uma mulher para o quadro de diretores da empresa.
E a primeira reação dos outros diretores foi
insinuar que Fritz estava tendo um caso com ela. No início,
ele ficou tão chocado com a reação
dos colegas que desistiu de indicar aquela funcionária.
Mas foi persuadido por sua filha a adotar outra estratégia.
Contratou uma empresa de head-hunter para procurar uma mulher
para aquela posição e forneceu-lhe as qualificações
necessárias. Depois de pesquisas e entrevistas, a
empresa chegou ao mesmo nome da pessoa que Fritz tinha indicado.
Dessa vez, os outros diretores foram obrigados a aceitá-la.
Mas, mesmo assim, ainda hoje se comenta na empresa que os
dois estariam tendo um caso amoroso.
Veja Por que os homens reagem assim?
Hite Os homens não conseguem imaginar nenhuma
relação de proximidade com as mulheres que
não passe pelo corpo, pelo contato físico.
Eles não foram educados para ter bons colegas ou
bons amigos do sexo oposto, se não houver segundas
intenções envolvidas. Muitos homens e mulheres
acreditam realmente que é impossível haver
uma relação bastante próxima sem interesse
sexual. Acho isso uma tolice. Você não precisa
querer ir para a cama com toda mulher que se aproxime de
você. Nem no trabalho nem em lugar nenhum.
Veja O comportamento feminino é diferente?
Hite Nós crescemos na mesma sociedade. As
mulheres mudaram muito nos últimos 25 anos, mas,
ainda assim, lá no fundo, os antigos estereótipos
persistem. Nós temos preconceitos contra mulheres
e a favor dos homens. Nas famílias tradicionais,
supõe-se que os homens estejam no topo. E nós
transferimos essa lógica, inconscientemente, para
dentro da empresa. Assim, às vezes imaginamos que
as outras mulheres no trabalho não são tão
importantes quanto os homens.
Veja Será que as mulheres são tão
ambiciosas profissionalmente como os homens?
Hite Quando pergunto a mulheres jovens quais delas
se imaginam à frente de uma grande corporação,
poucas levantam o braço. Por outro lado, quase todas
afirmam que gostariam de dirigir um negócio próprio,
pequeno ou médio. Elas preferem investir sua energia
e sua criatividade em um terreno novo, no qual possam criar
outras regras. Todas sabem que ainda há muitas barreiras
para elas no mundo corporativo.
Veja Que barreiras são essas?
Hite São obstáculos não declarados,
mas facilmente visíveis. Preste bem atenção
no ambiente das grandes empresas. Há muitas garotas
recém-saídas das universidades, algumas com
ótimas qualificações. Cerca de 75%
dos executivos afirmam que as mulheres vão melhor
nos testes de admissão que seus colegas homens. Mas,
por alguma razão misteriosa, quando elas passam dos
30 anos de idade praticamente desaparecem das empresas.
É como se houvesse um teto de vidro que as impede
de subir a partir desse ponto.
Veja Como se percebe a existência desse teto
de vidro?
Hite Imagine uma garota com excelente formação
acadêmica que, aos 20 anos, acabou de entrar em uma
grande empresa. Ela faz um ótimo trabalho, recebe
freqüentes elogios. Mas o tempo vai passando e ela
não sai do lugar. Enquanto isso, vê seus colegas
homens subirem na empresa. Se fosse um homem, começaria
a sair com o chefe para tomar uma cerveja depois do expediente.
Seus colegas, no máximo, iriam criticar o puxa-saquismo.
Porém, sendo uma garota, qualquer movimento para
criar mais intimidade com o chefe vai ser entendido de maneira
maldosa. É nesse momento que a mulher repensa sua
vida e decide que talvez valha mais a pena sair da empresa
para ter filhos e depois investir em um negócio próprio.
Veja A senhora se considera vaidosa?
Hite Claro. Como toda mulher, adoro comprar roupas
bonitas e vistosas. Tomo muito cuidado com meus cabelos.
Só porque trabalho com movimento feminista não
quer dizer que eu deva ficar feia.
Veja Qual é seu segredo para continuar
bonita e atraente aos 57 anos de idade?
Hite Eu me cuido. Procuro fazer exercícios
moderadamente, dez minutos por dia. E sempre durmo pelo
menos oito horas por noite. Além disso, acho que
minha herança genética ajudou.
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