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Edição 1 787 - 29 de janeiro de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

É mesmo, tinha o Sylvio Mazzucca!

E ninguém, como ele, do posto
privilegiado do pódio
de maestro,
contemplou tanto smoking e tanto laquê

O smoking era obrigatório. O smoking é cheio de esquisitices, a começar do nome. Vem de "smoking jacket", literalmente "paletó de fumar", em inglês – uma peça, informam os dicionários, que se usava em casa, para relaxar, enquanto se saboreava um cigarro ou um charuto. Nada mais esquisito, entre todas as invenções humanas no campo do vestuário – e eis um campo em que não faltam esquisitices –, do que existir, ou ter existido, uma peça para acompanhar o ato de fumar. Ou melhor: mais esquisito ainda é que esse nome tenha, num acrobático salto semântico, vindo a designar também o traje escuro, algo sorumbático, exigido dos homens em certos eventos noturnos, e ninguém achar estranho que esse traje tenha esse nome, smoking, evocativo de cigarro, fumo e fumaça, de bárbaras orgias de nicotina e de memoráveis cachimbadas.

O smoking era obrigatório, para retomar o fio da meada – e smoking sabe-se como é. Vem com gravata-borboleta preta, camisa branca à qual se cola uma espécie de babador e, para coroar, uma faixa, também preta, que se enrola entre o estômago e a barriga, algo que lembra arreio de cavalo – o que, combinado com a origem da palavra smoking, leva a esquisitice às culminâncias absurdas de sugerir a um tempo cavalo e cigarro, montaria e fumaça, jumento e fogaréu. As meninas apresentavam-se com vestidos brancos, longos, e luvas, longas luvas que chegavam aos cotovelos. Eram todas muito comportadinhas e ingenuazinhas, pelo menos na aparência, mas que festim para o depravado, que potencial de fetiche, podia-se ler naquelas luvas! Nos cabelos, esculpiam penteados fixados com laquê (laquê: sim, isso existiu, caro(a) leitor(a) de menos de 40 anos) – uma substância que, se fosse encontrada pelos inspetores da ONU entre os arsenais de Saddam Hussein, justificaria a guerra que W. Bush tanto quer fazer.

Estamos nos reportando aos bailes de formatura dos anos 60. Bailes de formatura ainda existem, talvez agora raramente com smoking e luvas brancas, mas, apresentem-se como se apresentarem, não serão como os de outrora. No fim do ano, quando os cursos terminavam, reinava entre a moçada um frenesi de bailes de formatura. Ia-se a muitos. Arrumava-se convite, ou arriscava-se entrar sem convite, mesmo sem conhecer formando algum. Ainda não se tinha inventado a rave, que fazer? E em todos os bailes, ou pelo menos nos melhores, nos bailes de formatura dignos desse nome, lá estava, soberana, a velar sobre a leveza dos espíritos e o balanço dos corpos, a orquestra do maestro Sylvio Mazzucca.

Sylvio Mazzucca! É mesmo, tinha o Sylvio Mazzucca! O maestro Sylvio Mazzucca morreu na semana passada, aos 82 anos. É dessas pessoas das quais fazia muito tempo não se ouvia falar. Quando reaparecem, e é comum que só reapareçam na forma de uma notícia de jornal dando conta de sua morte, provocam um sobressalto na memória: "É mesmo, o Sylvio Mazzucca!". Fazia tanto tempo que não se pensava nele, fazia tanto que andava sumido... E no entanto foi tão presente, em certa época... É o que acontece, em regra, com os craques do passado. A carreira termina cedo, eles somem de vista. De repente, irrompem de volta num anúncio fúnebre: morreu o Joel, ponta-direita do Flamengo; morreu o Julinho Botelho, outro ponta-direita, da Portuguesa, do Palmeiras e da Fiorentina.

Quem é de outras partes não o conheceu, mas em São Paulo Sylvio Mazzucca foi famoso. Ninguém como ele, do posto privilegiado que é o pódio do maestro, contemplou tanto smoking e tanto laquê. Era o rei dos bailes de formatura. No entanto, era um famoso que não provocava arrebatamento, como os ídolos pop. Fazia figura, por assim dizer, de um burocrata do entretenimento, inevitável no baile como o salão, as bebidas e as mesas, e não despertava curiosidade sobre sua vida. Foi preciso que morresse para que se soubesse, em necrológios como o do jornal O Estado de S. Paulo, que seu pai era pianista na igreja de Nossa Senhora de Achiropita, no bairro do Bixiga, e que ele próprio começou, aos 12 anos, na orquestra da – repare-se o nome – Sociedade Recreativa Esportiva Gabriele d'Annunzio. Grande Mazzucca, filho modelar da áspera pátria ítalo-paulistana!

Sylvio Mazzucca passava longe da exuberância que se costuma associar aos maestros. Não tinha nada da bravura de um Karajan, um Bernstein, um John Neschling. Maestro? Mais se apresentava como um mestre-de-obras da música dançante. O cabelo era curto como o de um chefe de repartição, os gestos ostentavam tão pouco brio como os de um caixa de banco. De vez em quando, abandonava o centro do palco e ia solar no vibrafone. Numa época de crise de sua orquestra, segundo informa o necrológio, comprou um órgão e, distante da antiga glória dos bailes de formatura, foi ganhar a vida animando casamentos e batizados. É mesmo, tinha o Sylvio Mazzucca! E tinha o smoking, e tinha o laquê, e tinha o baile de formatura... Ao morrer, Mazzucca fez saber a muita gente que estava lá, ocupando um lugar obscurecido da memória, modesto como ele, mas um lugar.

   
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