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Roberto
Pompeu de Toledo
É
mesmo, tinha o Sylvio Mazzucca!
E
ninguém, como ele, do
posto
privilegiado do pódio de
maestro,
contemplou tanto smoking e tanto laquê
O smoking era obrigatório. O smoking é cheio de esquisitices,
a começar do nome. Vem de "smoking jacket", literalmente "paletó
de fumar", em inglês uma peça, informam os dicionários,
que se usava em casa, para relaxar, enquanto se saboreava um cigarro ou
um charuto. Nada mais esquisito, entre todas as invenções
humanas no campo do vestuário e eis um campo em que não
faltam esquisitices , do que existir, ou ter existido, uma peça
para acompanhar o ato de fumar. Ou melhor: mais esquisito ainda é
que esse nome tenha, num acrobático salto semântico, vindo
a designar também o traje escuro, algo sorumbático, exigido
dos homens em certos eventos noturnos, e ninguém achar estranho
que esse traje tenha esse nome, smoking, evocativo de cigarro, fumo e
fumaça, de bárbaras orgias de nicotina e de memoráveis
cachimbadas.
O smoking era obrigatório, para retomar o fio da meada e
smoking sabe-se como é. Vem com gravata-borboleta preta, camisa
branca à qual se cola uma espécie de babador e, para coroar,
uma faixa, também preta, que se enrola entre o estômago e
a barriga, algo que lembra arreio de cavalo o que, combinado com
a origem da palavra smoking, leva a esquisitice às culminâncias
absurdas de sugerir a um tempo cavalo e cigarro, montaria e fumaça,
jumento e fogaréu. As meninas apresentavam-se com vestidos brancos,
longos, e luvas, longas luvas que chegavam aos cotovelos. Eram todas muito
comportadinhas e ingenuazinhas, pelo menos na aparência, mas que
festim para o depravado, que potencial de fetiche, podia-se ler naquelas
luvas! Nos cabelos, esculpiam penteados fixados com laquê (laquê:
sim, isso existiu, caro(a) leitor(a) de menos de 40 anos) uma substância
que, se fosse encontrada pelos inspetores da ONU entre os arsenais de
Saddam Hussein, justificaria a guerra que W. Bush tanto quer fazer.
Estamos nos reportando aos bailes de formatura dos anos 60. Bailes de
formatura ainda existem, talvez agora raramente com smoking e luvas brancas,
mas, apresentem-se como se apresentarem, não serão como
os de outrora. No fim do ano, quando os cursos terminavam, reinava entre
a moçada um frenesi de bailes de formatura. Ia-se a muitos. Arrumava-se
convite, ou arriscava-se entrar sem convite, mesmo sem conhecer formando
algum. Ainda não se tinha inventado a rave, que fazer? E em todos
os bailes, ou pelo menos nos melhores, nos bailes de formatura dignos
desse nome, lá estava, soberana, a velar sobre a leveza dos espíritos
e o balanço dos corpos, a orquestra do maestro Sylvio Mazzucca.
Sylvio Mazzucca! É mesmo, tinha o Sylvio Mazzucca! O maestro Sylvio
Mazzucca morreu na semana passada, aos 82 anos. É dessas pessoas
das quais fazia muito tempo não se ouvia falar. Quando reaparecem,
e é comum que só reapareçam na forma de uma notícia
de jornal dando conta de sua morte, provocam um sobressalto na memória:
"É mesmo, o Sylvio Mazzucca!". Fazia tanto tempo que não
se pensava nele, fazia tanto que andava sumido... E no entanto foi tão
presente, em certa época... É o que acontece, em regra,
com os craques do passado. A carreira termina cedo, eles somem de vista.
De repente, irrompem de volta num anúncio fúnebre: morreu
o Joel, ponta-direita do Flamengo; morreu o Julinho Botelho, outro ponta-direita,
da Portuguesa, do Palmeiras e da Fiorentina.
Quem é de outras partes não o conheceu, mas em São
Paulo Sylvio Mazzucca foi famoso. Ninguém como ele, do posto privilegiado
que é o pódio do maestro, contemplou tanto smoking e tanto
laquê. Era o rei dos bailes de formatura. No entanto, era um famoso
que não provocava arrebatamento, como os ídolos pop. Fazia
figura, por assim dizer, de um burocrata do entretenimento, inevitável
no baile como o salão, as bebidas e as mesas, e não despertava
curiosidade sobre sua vida. Foi preciso que morresse para que se soubesse,
em necrológios como o do jornal O Estado de S. Paulo, que
seu pai era pianista na igreja de Nossa Senhora de Achiropita, no bairro
do Bixiga, e que ele próprio começou, aos 12 anos, na orquestra
da repare-se o nome Sociedade Recreativa Esportiva Gabriele
d'Annunzio. Grande Mazzucca, filho modelar da áspera pátria
ítalo-paulistana!
Sylvio Mazzucca passava longe da exuberância que se costuma associar
aos maestros. Não tinha nada da bravura de um Karajan, um Bernstein,
um John Neschling. Maestro? Mais se apresentava como um mestre-de-obras
da música dançante. O cabelo era curto como o de um chefe
de repartição, os gestos ostentavam tão pouco brio
como os de um caixa de banco. De vez em quando, abandonava o centro do
palco e ia solar no vibrafone. Numa época de crise de sua orquestra,
segundo informa o necrológio, comprou um órgão e,
distante da antiga glória dos bailes de formatura, foi ganhar a
vida animando casamentos e batizados. É mesmo, tinha o Sylvio Mazzucca!
E tinha o smoking, e tinha o laquê, e tinha o baile de formatura...
Ao morrer, Mazzucca fez saber a muita gente que estava lá, ocupando
um lugar obscurecido da memória, modesto como ele, mas um lugar.
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