
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
A
carta de Meirelles
O
presidente do BC explica por
que a inflação explodiu em 2002
e como vai combatê-la
Adriana Carvalho
|
Helvio Romero/AE

|
Meirelles
culpa o dólar, os reajustes de tarifas e o "efeito Lula"
pela inflação alta de 2002...
"Caso
a taxa de câmbio tivesse permanecido
no patamar de 2,55 reais (...) se a inflação dos preços
administrados pelo governo tivesse sido igual à dos preços
livres, a variação do IPCA em 2002 teria sido de 5,98%
(...) se além disso as expectativas de mercado para a inflação
tivessem permanecido no centro da meta, a inflação
alcançaria 4,3%."
...diz
que a situação vai melhorar...
"Com
a dissipação dos efeitos (...) a inflação
acumulada em doze meses deverá cair rapidamente no último
trimestre de 2003."
...e
que a política econômica não muda.
"Em
suma, o regime macroeconômico de metas para inflação,
câmbio flutuante e responsabilidade fiscal tem demonstrado
ser capaz de absorver fortes choques sobre a economia."
|

Veja também |
|
|
|
A
carta aberta que Henrique Meirelles, presidente do Banco Central (BC),
escreveu ao ministro da Fazenda, Antônio Palocci, na semana passada,
é uma mostra do grau de maturidade que o trato das finanças
públicas atingiu no Brasil. A carta é uma obrigação
legal, uma medida de transparência auto-imposta ao BC por um decreto
de 1999. Ela deve ser escrita sempre que a inflação escapa
das metas previstas pelo Ministério da Fazenda. A primeira dessas
cartas foi escrita em 2002, quando Armínio Fraga informou ao ministro
Pedro Malan as razões de não ter conseguido conter a inflação
dentro do figurino combinado em 2001. A carta de Meirelles é maior
e mais interessante que a de Fraga porque trata de um governo anterior
e de um ano eleitoral cheio de sobressaltos. A carta reconhece que o "efeito
Lula", a desconfiança dos mercados em relação ao
compromisso do PT de manter a estabilidade, teve enorme peso no fato de
a inflação ter batido em 12,5%. O impacto das expectativas
negativas no ano eleitoral, da depreciação cambial e do
aumento de tarifas contribuiu com 8,2 pontos porcentuais no aumento da
inflação, segundo o cálculo do BC. Ou seja, sem a
especulação de origem eleitoral, a inflação
no ano passado poderia ter sido de apenas 4,3 % dentro das metas,
portanto, o que teria poupado Meirelles de escrever a carta da semana
passada.
A carta de Meirelles é interessante também pelas projeções
a respeito da economia brasileira neste ano e em 2004. E também
pelo que revela sobre as armas do BC para conter a inflação,
cujas metas para 2003 foram alargadas para 8,5%. Meirelles informa ao
ministro da Fazenda que em sua avaliação, sem os efeitos
perturbadores de um ano eleitoral, a inflação deve cair
"rapidamente no último trimestre de 2003". Mais adiante o presidente
do BC reafirma a manutenção do arsenal econômico ortodoxo
colocado de pé no governo de Fernando Henrique Cardoso. "O regime
macroeconômico de metas para inflação, câmbio
flutuante e responsabilidade fiscal tem demonstrado ser capaz de absorver
fortes choques sobre a economia." Meirelles informa também que
o aumento dos juros continua sendo sua arma principal para brigar contra
a inflação. Foi o que fez na semana passada, horas depois
de assinar a carta a Palocci.
Para um país que precisa crescer e gerar empregos, juros altos
são uma condenação, um peso do qual os governos precisam
se livrar o quanto antes. Mas, para baixar juros sem riscos, a economia
precisa estar mais sadia do que a brasileira atualmente. Isso ficou claro
na semana passada. Com toda sua significação histórica
e projeções de esperança, a troca de governo não
tornou a economia brasileira menos vulnerável. O presidente Luiz
Inácio Lula da Silva reconheceu isso na quinta-feira passada, ao
analisar o aumento dos juros feito pelo Banco Central. Em resumo, Lula
comparou a economia a um "filho doente" e ele próprio a um "novo
médico" e admitiu que por enquanto o remédio tem de ser
o mesmo que vinha sendo receitado, juros altos. Na quarta-feira, o BC
aumentou de 25% para 25,5% o juro básico da economia. Como foi
a primeira mexida no juro do governo petista, esse 0,5 ponto porcentual
causou comoção nas expectativas dos agentes econômicos
bem mais elevada do que seus efeitos positivos ou negativos sobre a economia
brasileira. Como ato inaugural de um governo de esquerda, o BC queria
mostrar que não será leniente no combate à inflação
com as armas tradicionalmente aceitas nas economias modernas.
O ministro Palocci considerou a mexida na taxa de juros uma questão
"técnica" e adiantou que mais remédios antigos e amargos
estão saindo da botica. O principal deles é o aumento do
chamado superávit primário, aqueles recursos que sobram
no caixa do governo depois de feitas todas as despesas, com exceção
do pagamento dos juros da dívida. Aumentar o superávit primário
significa gastar menos, apertar ainda mais o cinto. O objetivo é
mostrar aos credores do governo que o Brasil tem condições
de pagar seus débitos.
|
|
 |