Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 787 - 29 de janeiro de 2003
Brasil Globalização

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
 

Porto Alegre versus Davos
Juros sobem e a luta continua no governo Lula
Gushiken, o curinga de Lula
A crise com o ministro dos Transportes
As provas contra Silveirinha e cia.
Sarney e ACM a toda
Os mercadores do poder

Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
VEJA on-line
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2003
Reportagens de capa
2000|01|02|03
Entrevistas
2000|01|02|03
Busca somente texto
96|97|98|99
2000
|01|02|03


Crie seu grupo




 

O elo entre dois mundos

Ao unir as mensagens de Porto
Alegre e Davos, Lula desponta como
o construtor da terceira via real

Eduardo Salgado

 
Reuters
Joedson Alves/AE
Reuters
Lula pode ser a síntese entre Davos e a Porto Alegre de João Pedro Stedile, líder do MST, e José Bové, o ativista antiglobalização francês

Veja também
Cobertura completa dos dois fóruns

Como primeiro chefe de Estado a participar dos dois fóruns rivais, o de Davos e o de Porto Alegre, Luiz Inácio Lula da Silva pode ser a ponte entre as duas correntes de pensamento antagônicas que competem pelo coração e mente da opinião pública mundial. O Fórum Econômico Mundial, em Davos, se reúne anualmente na cidade suíça e reflete as opiniões de líderes dos países ricos e de grandes empresários multinacionais. O Fórum Social Mundial, também realizado anualmente, em Porto Alegre, como uma resposta esquerdista ao encontro dos Alpes, dedica-se a encontrar alternativas ao capitalismo. Os participantes dos dois fóruns nunca conseguiram encontrar alguma coisa em comum. Agora, existe um elo. Lula participará dos dois encontros. Com essa atitude do presidente brasileiro, abre-se uma brecha no maniqueísmo. "Lula leva a mensagem de Porto Alegre a Davos, e isso é fenomenal", disse a VEJA Bernard Cassen, diretor-geral do jornal Le Monde Diplomatique, leitura obrigatória da esquerda internacionalista. Já aos alegres militantes de Porto Alegre Lula apresentou, na sexta-feira passada, um contraponto baseado em seu estilo de governo. Desde que assumiu, o presidente brasileiro tem se mostrado um adepto inflexível da estabilidade monetária, da austeridade fiscal e do respeito às leis de mercado. O fórum de Porto Alegre nunca gostou dessas bandeiras capitalistas, mas vê-se obrigado a engoli-las quando o homem que as incorpora em sua prática de governo se chama Luiz Inácio Lula da Silva.

"Ele administra muito bem as expectativas com uma abordagem responsável dos problemas", disse de Lula, em Davos, a economista Anne Krueger, a número 2 do Fundo Monetário Internacional (FMI). Lula tem a mostrar ao mundo a armação de um governo que, mesmo sem o declarar, está fazendo funcionar na prática a chamada terceira via, uma utopia criada nos anos 90 com a idéia de colocar metas sociais entre os objetivos pragmáticos do capitalismo de mercado. Com líderes como Fernando Henrique Cardoso, o inglês Tony Blair e o alemão Gerhard Schroeder, essa via alternativa, mesmo entrecortada por retrocessos e crises, deu seus primeiros passos. Pelo que mostrou nos primeiros momentos, o governo do PT tem dois braços fortes, o de condução da política monetária e o que vai se dedicar aos programas sociais. Não por acaso, Lula programou simultaneamente as visitas aos dois fóruns rivais. "A presença de Lula em Porto Alegre e Davos valoriza as duas instâncias", afirma Tarso Genro, ministro da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. "O fórum de Porto Alegre ganha porque será ouvido em todas as latitudes, e o de Davos porque terá contato com o representante de um público diferente", observa Genro.

AFP
Abertura do fórum de Porto Alegre: festa da esquerda reuniu 70 000


O fórum suíço foi aberto na semana passada sob o espectro da iminente guerra dos Estados Unidos ao Iraque. Lula estava disposto a não entrar em minúcias sobre as razões americanas, mas seu discurso deixaria clara a posição brasileira de que a guerra seja evitada a todo custo. A proximidade de um ataque americano a Saddam Hussein está servindo de munição para especuladores. Na semana passada, as bolsas americanas despencaram e o dólar no Brasil, que chegou a cair abaixo de 3,30 reais duas semanas atrás, fechou a 3,62, voltando a assustar. A moeda americana se valorizou quase 10% em seis dias de negociação. Por isso a pregação pacifista de Lula vai encontrar terreno fértil. A parte central do discurso do presidente, aquela que terá efeitos mais práticos, não condena o processo de globalização. Reconhece a inevitabilidade da interdependência das economias. O apelo do governante brasileiro para que os anseios dos países pobres sejam ouvidos terá uma boa recepção. Para surpresa de muitos participantes, o discurso inflamado e radical de Mahathir Mohamad, primeiro-ministro da Malásia, foi recebido com aplausos de pé em Davos. Mahathir acusou os Estados Unidos de querer manter a posição de líder mundial apenas à base da força. "Em diversos pontos do planeta as pessoas têm manifestado seu descontentamento com os Estados Unidos. Eu diria que em muitos lugares existe até mesmo ódio aos Estados Unidos", disse Mahathir, num discurso de contornos perfeitos para a platéia antiamericana de Porto Alegre.

Lula chegará à Suíça com a força dos seus 52 milhões de votos e o brilho de ser a nova estrela da esquerda mundial. Decepcionados com suas lideranças de esquerda, muitos europeus estão hipnotizados por Lula. Na edição de janeiro do jornal Le Monde Diplomatique, um artigo com o sugestivo título de "Viva Brasil!" (assim mesmo, em português) exaltava a chegada do PT ao Planalto. Desde então, as lideranças socialistas e da social-democracia se revezam nos jornais na missão de descobrir qualidades no presidente brasileiro. "Ao aliar uma gestão responsável da economia com o cumprimento de metas sociais ambiciosas, o Brasil pode se tornar um exemplo para o Terceiro Mundo", disse a VEJA Bill Graham, o ministro das Relações Exteriores do Canadá.

Nestas primeiras semanas de mandato, Lula tem de sobra algo escasso no mundo: a confiança da população. Para os organizadores de Davos, confiança será um dos temas mais importantes dos próximos anos. O Fórum Econômico Mundial encomendou uma pesquisa de opinião para descobrir o sentimento reinante nas ruas. Mais de 20.000 pessoas foram ouvidas em vinte países durante dois meses. Os resultados mostram insatisfação. A maioria dos pesquisados disse não concordar com o rumo para o qual os líderes políticos estão direcionando o mundo. Com poucas exceções, líderes empresariais e governantes receberam notas baixas. Não por acaso, o tema central do encontro de Davos é "A construção da confiança". Para Lula, ser considerado um dos expoentes no Fórum Econômico Mundial é uma vitória antecipada. Foi em Davos que Helmut Kohl, então chanceler da Alemanha Ocidental, e Hans Modrow, que na época ocupava o posto de primeiro-ministro da Alemanha comunista, tiveram o encontro que acelerou o processo de reunificação. Em Porto Alegre, todos conhecem as idéias de Lula, mas em Davos elas testarão seu poder de impacto.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS