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O
elo entre dois mundos
Ao unir as mensagens de Porto
Alegre
e Davos, Lula desponta como
o construtor da terceira via real
Eduardo
Salgado
Reuters
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Joedson Alves/AE
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Reuters
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| Lula
pode ser a síntese entre Davos e a Porto Alegre de João Pedro Stedile,
líder do MST, e José Bové, o ativista antiglobalização francês |

Veja também |
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Como
primeiro chefe de Estado a participar dos dois fóruns rivais, o
de Davos e o de Porto Alegre, Luiz Inácio Lula da Silva pode ser
a ponte entre as duas correntes de pensamento antagônicas que competem
pelo coração e mente da opinião pública mundial.
O Fórum Econômico Mundial, em Davos, se reúne anualmente
na cidade suíça e reflete as opiniões de líderes
dos países ricos e de grandes empresários multinacionais.
O Fórum Social Mundial, também realizado anualmente, em
Porto Alegre, como uma resposta esquerdista ao encontro dos Alpes, dedica-se
a encontrar alternativas ao capitalismo. Os participantes dos dois fóruns
nunca conseguiram encontrar alguma coisa em comum. Agora, existe um elo.
Lula participará dos dois encontros. Com essa atitude do presidente
brasileiro, abre-se uma brecha no maniqueísmo. "Lula leva a mensagem
de Porto Alegre a Davos, e isso é fenomenal", disse a VEJA Bernard
Cassen, diretor-geral do jornal Le Monde Diplomatique, leitura
obrigatória da esquerda internacionalista. Já aos alegres
militantes de Porto Alegre Lula apresentou, na sexta-feira passada, um
contraponto baseado em seu estilo de governo. Desde que assumiu, o presidente
brasileiro tem se mostrado um adepto inflexível da estabilidade
monetária, da austeridade fiscal e do respeito às leis de
mercado. O fórum de Porto Alegre nunca gostou dessas bandeiras
capitalistas, mas vê-se obrigado a engoli-las quando o homem que
as incorpora em sua prática de governo se chama Luiz Inácio
Lula da Silva.
"Ele
administra muito bem as expectativas com uma abordagem responsável
dos problemas", disse de Lula, em Davos, a economista Anne Krueger, a
número 2 do Fundo Monetário Internacional (FMI). Lula tem
a mostrar ao mundo a armação de um governo que, mesmo sem
o declarar, está fazendo funcionar na prática a chamada
terceira via, uma utopia criada nos anos 90 com a idéia de colocar
metas sociais entre os objetivos pragmáticos do capitalismo de
mercado. Com líderes como Fernando Henrique Cardoso, o inglês
Tony Blair e o alemão Gerhard Schroeder, essa via alternativa,
mesmo entrecortada por retrocessos e crises, deu seus primeiros passos.
Pelo que mostrou nos primeiros momentos, o governo do PT tem dois braços
fortes, o de condução da política monetária
e o que vai se dedicar aos programas sociais. Não por acaso, Lula
programou simultaneamente as visitas aos dois fóruns rivais. "A
presença de Lula em Porto Alegre e Davos valoriza as duas instâncias",
afirma Tarso Genro, ministro da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social. "O fórum de Porto Alegre ganha porque
será ouvido em todas as latitudes, e o de Davos porque terá
contato com o representante de um público diferente", observa Genro.
AFP
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| Abertura
do fórum de Porto Alegre: festa da esquerda reuniu 70 000 |
O fórum suíço foi aberto na semana passada sob o
espectro da iminente guerra dos Estados Unidos ao Iraque. Lula estava
disposto a não entrar em minúcias sobre as razões
americanas, mas seu discurso deixaria clara a posição brasileira
de que a guerra seja evitada a todo custo. A proximidade de um ataque
americano a Saddam Hussein está servindo de munição
para especuladores. Na semana passada, as bolsas americanas despencaram
e o dólar no Brasil, que chegou a cair abaixo de 3,30 reais duas
semanas atrás, fechou a 3,62, voltando a assustar. A moeda americana
se valorizou quase 10% em seis dias de negociação. Por isso
a pregação pacifista de Lula vai encontrar terreno fértil.
A parte central do discurso do presidente, aquela que terá efeitos
mais práticos, não condena o processo de globalização.
Reconhece a inevitabilidade da interdependência das economias. O
apelo do governante brasileiro para que os anseios dos países pobres
sejam ouvidos terá uma boa recepção. Para surpresa
de muitos participantes, o discurso inflamado e radical de Mahathir Mohamad,
primeiro-ministro da Malásia, foi recebido com aplausos de pé
em Davos. Mahathir acusou os Estados Unidos de querer manter a posição
de líder mundial apenas à base da força. "Em diversos
pontos do planeta as pessoas têm manifestado seu descontentamento
com os Estados Unidos. Eu diria que em muitos lugares existe até
mesmo ódio aos Estados Unidos", disse Mahathir, num discurso de
contornos perfeitos para a platéia antiamericana de Porto Alegre.
Lula chegará à Suíça com a força dos
seus 52 milhões de votos e o brilho de ser a nova estrela da esquerda
mundial. Decepcionados com suas lideranças de esquerda, muitos
europeus estão hipnotizados por Lula. Na edição de
janeiro do jornal Le Monde Diplomatique, um artigo com o sugestivo
título de "Viva Brasil!" (assim mesmo, em português) exaltava
a chegada do PT ao Planalto. Desde então, as lideranças
socialistas e da social-democracia se revezam nos jornais na missão
de descobrir qualidades no presidente brasileiro. "Ao aliar uma gestão
responsável da economia com o cumprimento de metas sociais ambiciosas,
o Brasil pode se tornar um exemplo para o Terceiro Mundo", disse a VEJA
Bill Graham, o ministro das Relações Exteriores do Canadá.
Nestas primeiras semanas de mandato, Lula tem de sobra algo escasso no
mundo: a confiança da população. Para os organizadores
de Davos, confiança será um dos temas mais importantes dos
próximos anos. O Fórum Econômico Mundial encomendou
uma pesquisa de opinião para descobrir o sentimento reinante nas
ruas. Mais de 20.000 pessoas foram ouvidas em vinte países durante
dois meses. Os resultados mostram insatisfação. A maioria
dos pesquisados disse não concordar com o rumo para o qual os líderes
políticos estão direcionando o mundo. Com poucas exceções,
líderes empresariais e governantes receberam notas baixas. Não
por acaso, o tema central do encontro de Davos é "A construção
da confiança". Para Lula, ser considerado um dos expoentes no Fórum
Econômico Mundial é uma vitória antecipada. Foi em
Davos que Helmut Kohl, então chanceler da Alemanha Ocidental, e
Hans Modrow, que na época ocupava o posto de primeiro-ministro
da Alemanha comunista, tiveram o encontro que acelerou o processo de reunificação.
Em Porto Alegre, todos conhecem as idéias de Lula, mas em Davos
elas testarão seu poder de impacto.
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