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Edição 1 787 - 29 de janeiro de 2003
Diogo Mainardi

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Meu amor por Ninoca

"Ninoca é uma ratinha perfeitamente integrada no sistema. Estaria mais
para Davos do que
para Porto Alegre.
Apesar disso, tem consciência ecológica,
como demonstra o volume em que seu
panda desaparece"

Falar mal das pessoas é muito mais gratificante do que falar bem. Eu, se pudesse, só falaria mal. Ocasionalmente, porém, até um espírito mesquinho como o meu é obrigado a se curvar diante de um extraordinário talento, como o da escritora e ilustradora inglesa Lucy Cousins. Ninguém, na literatura contemporânea, é páreo para ela. Se você não a conhece, recomendo, antes de tudo, um de seus clássicos, Ninoca Vai Dormir. E, em seguida, O Aniversário da Ninoca. A protagonista de ambos é uma ratinha branca com o rabo e o focinho cor-de-rosa. Você puxa uma lingueta e, magicamente, Ninoca escova os dentes. Você puxa outra lingueta e, surpresa!, Ninoca apaga as velinhas. Cada livro tem dezesseis páginas e, aproximadamente, cinqüenta palavras. Mesmo quem não tem o hábito da leitura consegue lê-los. Embora as tramas sejam bastante elaboradas, a autora nunca perde o fio. Tome-se outro título da série, um de meus favoritos, Ninoca no Playground. Inicialmente, Ninoca desce pelo escorregador. Depois, vai para o balanço. Depois, enche o caminhãozinho de areia. Depois, chupa um pirulito. Depois, alimenta os patos. Enfim, volta para casa em seu triciclo. O tema central, claro, é a vacuidade da vida.

Ninoca, em inglês, é conhecida como Maisy. Em francês, Mimi. Em italiano, Pina. É um produto globalizado. A versão italiana é impressa na China. A versão brasileira é impressa na Colômbia e montada no Equador. Ninoca é uma ratinha perfeitamente integrada no sistema. Não por acaso, é branca. Estaria mais para o Fórum Econômico de Davos que para o Fórum Social de Porto Alegre. Apesar disso, ela tem consciência ecológica, como demonstra o volume em que seu panda desaparece. Onde ele está? Debaixo da pia? Dentro da privada? No cesto de roupas sujas? Não. Está na cama com Ninoca, sob as cobertas. Meu filho de 2 anos, com quem compartilho o amor por Ninoca, imita-a em tudo. Quando lê Ninoca Guia o Ônibus, gira um volante imaginário. Quando lê Doutora Ninoca, examina-me com um estetoscópio. Não nutro o mesmo entusiasmo pelos livros em que Ninoca é imbuída de propósitos pedagógicos, como Conte com a Ninoca, que ensina os algarismos, e ABC de Ninoca, que prepara para a alfabetização. Não quero que meu filho valorize demais os conhecimentos escolásticos. Dá até para virar presidente da República sem saber o ABC.

O efeito que a paternidade pode ter sobre o intelecto de um adulto é absolutamente devastador. É por isso, talvez, que nenhum lançamento literário recente desperte em mim o interesse de Feliz Natal, Ninoca!, com aquele passarinho que sempre canta piu-piu. É por isso, também, que não vou ao cinema há quase dois anos, dedicando-me a rever um velho VHS de Os Amigos de Ninoca. E é por isso que, se tivesse de comprar um quadro, eu escolheria Ninoca na Fazenda, à venda na loja da Biblioteca Pública de Nova York, por apenas 125 dólares. Mas Ninoca que se cuide. Até outro dia, meu filho só comia lendo seus livros. Agora ele prefere ver minha sobrinha cantar e dançar em cima da mesa, imitando Wanessa Camargo (?). Estamos todos perdidos.

 
 
   
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