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Meu
amor por Ninoca
"Ninoca
é uma ratinha perfeitamente integrada no sistema. Estaria mais
para Davos do que para
Porto Alegre.
Apesar disso, tem consciência ecológica,
como demonstra o volume em que seu
panda desaparece"
Falar
mal das pessoas é muito mais gratificante do que falar bem. Eu,
se pudesse, só falaria mal. Ocasionalmente, porém, até
um espírito mesquinho como o meu é obrigado a se curvar
diante de um extraordinário talento, como o da escritora e ilustradora
inglesa Lucy Cousins. Ninguém, na literatura contemporânea,
é páreo para ela. Se você não a conhece, recomendo,
antes de tudo, um de seus clássicos, Ninoca Vai Dormir.
E, em seguida, O Aniversário da Ninoca. A protagonista de
ambos é uma ratinha branca com o rabo e o focinho cor-de-rosa.
Você puxa uma lingueta e, magicamente, Ninoca escova os dentes.
Você puxa outra lingueta e, surpresa!, Ninoca apaga as velinhas.
Cada livro tem dezesseis páginas e, aproximadamente, cinqüenta
palavras. Mesmo quem não tem o hábito da leitura consegue
lê-los. Embora as tramas sejam bastante elaboradas, a autora nunca
perde o fio. Tome-se outro título da série, um de meus favoritos,
Ninoca no Playground. Inicialmente, Ninoca desce pelo escorregador.
Depois, vai para o balanço. Depois, enche o caminhãozinho
de areia. Depois, chupa um pirulito. Depois, alimenta os patos. Enfim,
volta para casa em seu triciclo. O tema central, claro, é a vacuidade
da vida.
Ninoca, em inglês, é conhecida como Maisy. Em francês,
Mimi. Em italiano, Pina. É um produto globalizado. A versão
italiana é impressa na China. A versão brasileira é
impressa na Colômbia e montada no Equador. Ninoca é uma ratinha
perfeitamente integrada no sistema. Não por acaso, é branca.
Estaria mais para o Fórum Econômico de Davos que para o Fórum
Social de Porto Alegre. Apesar disso, ela tem consciência ecológica,
como demonstra o volume em que seu panda desaparece. Onde ele está?
Debaixo da pia? Dentro da privada? No cesto de roupas sujas? Não.
Está na cama com Ninoca, sob as cobertas. Meu filho de 2 anos,
com quem compartilho o amor por Ninoca, imita-a em tudo. Quando lê
Ninoca Guia o Ônibus, gira um volante imaginário.
Quando lê Doutora Ninoca, examina-me com um estetoscópio.
Não nutro o mesmo entusiasmo pelos livros em que Ninoca é
imbuída de propósitos pedagógicos, como Conte
com a Ninoca, que ensina os algarismos, e ABC de Ninoca, que
prepara para a alfabetização. Não quero que meu filho
valorize demais os conhecimentos escolásticos. Dá até
para virar presidente da República sem saber o ABC.
O efeito que a paternidade pode ter sobre o intelecto de um adulto é
absolutamente devastador. É por isso, talvez, que nenhum lançamento
literário recente desperte em mim o interesse de Feliz Natal,
Ninoca!, com aquele passarinho que sempre canta piu-piu. É
por isso, também, que não vou ao cinema há quase
dois anos, dedicando-me a rever um velho VHS de Os Amigos de Ninoca.
E é por isso que, se tivesse de comprar um quadro, eu escolheria
Ninoca na Fazenda, à venda na loja da Biblioteca Pública
de Nova York, por apenas 125 dólares. Mas Ninoca que se cuide.
Até outro dia, meu filho só comia lendo seus livros. Agora
ele prefere ver minha sobrinha cantar e dançar em cima da mesa,
imitando Wanessa Camargo (?). Estamos todos perdidos.
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