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"O medo
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"Partidos nascem e morrem. Podem ficar vivos do ponto de vista legal, mas estar sepultados na sua razão de existir" |
A senadora Heloísa Helena já comprou briga com o colega Antonio Carlos Magalhães, chamou o ex-senador Luiz Estevão de "riquinho ordinário" e foi vista emboscando o ex-ministro José Serra em um corredor do Congresso. Agora, a mais radical das vozes petistas no Senado está pronta para enfrentar o seu próprio partido. Menina pobre nascida no interior de Alagoas (perdeu o pai quando ainda era bebê e foi criada pela mãe, costureira), 40 anos, dois filhos, dois casamentos, Heloísa Helena é uma incendiária na tribuna. Fora dela, fala manso, cultiva cactos e chama suas interlocutoras de "flor". Nesta entrevista, ela critica os rumos do governo, espicaça o ministro José Dirceu e, fiel a seu estilo, responde aos que consideram intransigência o que ela qualifica de defesa de princípios: "Comigo, é quente ou frio. Morno, eu vomito". Por duas vezes, ao falar sobre sua eventual saída do PT, a senadora chorou.
Veja A senhora tem criticado muitas das decisões do
PT no governo. Como está a sua relação com o partido?
Heloísa Helena
Eu fiz uma promessa de Ano-Novo que vou revelar aqui. Um amigo meu me
disse: Ló, essa onda está muito grande para você,
a popularidade do presidente é enorme, a mídia toda está
favorável, você não pode pegar essa onda. Mergulhe
e fique quieta. Eu disse: está certo, mergulho. Mas e se, nesse
mergulho, eu der de cara com o tubarão branco, que é a minha
consciência? Então, a minha promessa de Ano-Novo é
esta: não vou mergulhar.
Veja Qual é a sensação de ter seu próprio
partido como adversário político?
Heloísa Helena
É muito triste, muito angustiante. Eu sei de toda a dedicação
que eu tive pelo PT. Hoje é fácil andar com uma estrelinha
no peito, ser neolulista e neopetista por causa da condição
de popstar do presidente e do amplo apoio que a mídia está
dando ao governo. Mas eu que apanhei, tive minha casa metralhada, meus
dentes quebrados... Esse partido não pertence a alguns poucos que
acham que podem fazer com o PT o que quiserem porque ocupam espaços
importantes nas instâncias de poder.
Veja
A senhora discutiu com o ministro José Dirceu por ocasião
da aprovação da indicação do presidente do
Banco Central, Henrique Meirelles. Continua rompida com ele?
Heloísa Helena
Muitas pessoas disseram que ficaram magoadas quando ele se referiu
a mim na TV como "essa moça". Então, sobre esse rapaz, que
é muito qualificado, eu digo apenas que espero que ele consiga
honrar a sua trajetória de vida. Agora, todo mundo no PT sabe:
eu sou absolutamente fácil de ser convencida pelo argumento. Mas,
no cabresto, na força, é a pior tática para tentar
me convencer. E, quando a força vem sem o respaldo da estrutura
partidária ou, pior, quando a instância partidária
é chamada só para legitimar ação de governo,
fica mais difícil ainda.
Veja A senhora pensa em sair do PT?
Heloísa Helena Vou
usar toda a minha capacidade de luta e de trabalho para, entre outras
coisas, ajudar o PT a recordar os nossos entusiasmados discursos de oposição
ao governo Fernando Henrique. Mas eu não sou masoquista e sempre
soube que ser senadora é uma condição passageira.
No dia em que, para estar na política, eu precisar me sentar à
mesa com ladrões tolerados, daqueles que praticam tudo o que está
no Código Penal e, mesmo assim, são recebidos com sorrisos
e fanfarra nos salões da high society, vou comer giz na sala de
aula. Volto, feliz, a lecionar na Universidade Federal de Alagoas. Para
mim, é quente ou frio. Morno, eu vomito. Além disso, a minha
relação de amor e de identidade não é com
a sigla. É com um projeto que, ao longo da história, foi
representado por essa sigla. Quando ela não mais representar isso,
por mais que eu chore abraçada com a estrela do PT, com aquilo
que para mim vai ser memória, eu saio.
Veja
Muita gente vai comemorar.
Heloísa Helena
Eu sei disso. Até porque, do jeito que as coisas caminham, talvez
eu acabe sendo para essas pessoas uma lembrança amarga. Mas partidos
nascem e morrem. Às vezes, permanecem vivos do ponto de vista da
legislação eleitoral, mas podem estar sepultados na sua
razão de existir. Eu espero que o PT não seja em breve simplesmente
uma memória histórica. Neste ano saberemos. É o ano
mais importante da história do Partido dos Trabalhadores.
Veja Por quê?
Heloísa Helena É
um ano em que nós vamos discutir contingenciamento, verba para
política social, se vamos ou não vamos fazer o superávit
que os parasitas do FMI querem. E é também o ano em que
acontecerão as três principais contendas: a flexibilização
da legislação trabalhista, a alteração da
legislação previdenciária e a autonomia do Banco
Central. E, no que diz respeito a esses três assuntos, não
há concessão. De minha parte ao menos, não haverá
nenhuma.
Veja A senhora é contra o projeto de unificação
dos regimes de aposentadoria proposto pelo governo. Como, na sua opinião,
se pode resolver o rombo da Previdência?
Heloísa Helena
Eu tenho muita raiva quando começam com essa conversa de rombo
da Previdência, porque ela esconde uma sonegação do
próprio governo, que não repassa para o sistema a sua contrapartida.
E ainda desvia de forma ilegal, imoral e oficial recursos
que deveriam ir para lá. Essa história de rombo é
uma cantilena enfadonha e mentirosa.
Veja
A senhora se considera intransigente, como a classificam colegas
do próprio PT?
Heloísa Helena
Não é uma questão de intransigência nem de
idéia fixa. Idéia fixa a gente só respeita em quem
tem problemas de saúde mental. A questão é outra.
Olhe: participamos de um plebiscito contra o pagamento da dívida
externa. Aprovamos uma resolução que condena veementemente
o acordo com o FMI e suas conseqüências e isso no Encontro
Nacional, que é a instância máxima da democracia partidária.
Exigimos uma CPI para identificar os banqueiros que tiveram lucros de
1 000% por causa de informações privilegiadas. Agora, como
podemos deixar que pessoas que participaram desse processo dentro da estrutura
do Banco Central permaneçam na direção do Banco Central?
Ou nós temos a obrigação de humildemente nos desculpar
perante essas pessoas que acusamos, suas famílias e a sociedade,
ou nós temos a obrigação de abrir procedimentos investigatórios
dentro da estrutura do governo.
Veja
A senhora se refere a Tereza Grossi (diretora de fiscalização
do Banco Central na gestão Armínio Fraga, que chegou a ser
afastada do cargo por suspeita de envolvimento no escândalo do Banco
Marka)?
Heloísa Helena
Tem justificativa preservar a doutora Tereza Grossi? A dualidade inocente
é uma condição da vida. Agora, a farsa a gente não
pode aceitar. Ou nós estávamos fazendo vigarice política,
ludibriando as pessoas quando ocupávamos a tribuna do Congresso
para dizer essas coisas, e também quando pedíamos votos
durante a campanha, ou nós temos de nos explicar agora. Porque
o que não pode é se apropriar dos movimentos sociais para
conseguir voto e depois fazer o discurso conforme o ouvinte. Isso eu não
aceito e não aceitarei jamais.
Veja A senhora acha que Lula traiu o programa de governo?
Heloísa Helena
Eu prefiro não responder a essa questão. Não acho
justo centralizar tudo nele.
Veja A senhora conversou com o presidente depois da posse?
Heloísa Helena
Não. Até entendo que, como presidente, ele esteja muito
atarefado para isso. Mas não acredito que o que está acontecendo
seja culpa de Lula, não é uma questão de malevolência
individual. O que está havendo é uma inaceitável
demonstração de fraqueza do partido, de não se apropriar
de um momento tão belo para viabilizar as mudanças profundas
de que o Brasil precisa e que o PT prometeu em seu programa. É
muito triste dizer isso, mas eu acho que o medo venceu a esperança.
Veja
Que tipo de reação essas críticas estão
provocando?
Heloísa Helena Tem
gente que diz que estou pregando sozinha no deserto. Eu sei que não
estou. Mas, mesmo que estivesse acompanhada de mim mesma, eu estaria em
boa companhia. Muita gente que gosta de mim me aconselhou a não
dar esta entrevista, a parar de falar e de questionar o meu partido. Para
mim, seria muito fácil ficar calminha, escondendo o que eu penso.
Estaria partilhando das benesses do poder no meu Estado, indicando diretor
do instituto não sei de quê.... Não só não
estou como soube que andam dizendo por aí que estar numa lista
de indicação da Heloísa Helena é garantia
de ficar fora do governo. Eleitoralmente, isso é péssimo
para mim. Porque pose e essas coisas simbólicas contam muito na
política.
Veja E no PT também?
Heloísa Helena
Claro. Eu falei do cinismo e da dissimulação desses que
chamei de neopetistas, mas isso não é justo. Como eu poderia
criticar pessoas que de forma oportunista se declaram petistas de carteirinha
se, muitas vezes, você vê o poder seduzir pessoas dentro do
seu próprio partido?
Veja
Como é essa sedução?
Heloísa Helena
O poder é terrível. A gente precisa fazer um exercício
diário para não se deixar seduzir por ele. Você está
no aeroporto e vai para a sala vip, é convidada para viagens internacionais,
tem as estruturas de bajulação que se montam em torno de
você, todas as possibilidades que se abrem por causa do seu cargo.
É por isso que lá em casa eu digo para os meus filhos: não
tem essa história de sala vip nem de filho de senadora. Eu moro
em apartamento funcional e o sofá que está lá é
público. Portanto, meus meninos não podem sapatear no sofá.
Veja Por que a senhora se veste sempre da mesma maneira,
de calça jeans e blusa branca?
Heloísa Helena
Não tenho nenhum preconceito contra quem anda superarrumada, com
10 quilos de maquiagem no rosto ou 3 quilos daquela toxina... Como é
o nome? Botox. Acho que as pessoas devem fazer as coisas que as deixam
um pouco mais felizes, assim como devem respeitar as formas de os outros
se sentirem bem e felizes. No meu caso, eu me visto assim por uma questão
de praticidade.
Veja
O fato de a senhora ter ido de vestido à cerimônia
de posse do presidente chamou muita atenção. Isso a incomodou?
Heloísa Helena
Eu nem vi nada, estava viajando. Mas minha mãe comprou as revistas
e me contou.
Veja Suas pernas foram elogiadas.
Heloísa Helena
Então está todo mundo doido, mesmo. Tenho dunas de celulite,
trilhas de estrias. Mas sei que, entre os senadores, eles dizem esse tipo
de coisa para me irritar. Como eu os irrito muito, eles também
gostam de me provocar: "Ah, a senadora hoje está risonha" ou "Ah,
senadora, mudou a cor da roupa?". Fazem isso porque sabem que conseguem
me irritar.
Veja
E por que esse tipo de coisa a irrita?
Heloísa Helena
Porque é tudo uma besteirada. Quando cheguei à posse de
vestido, vi de longe os senadores falando. Então, cheguei logo
dizendo: "Acabou a brincadeira. Não quero comentário, viu?".
Aí, eles ficaram quietos.
Veja
É verdade que a senhora ameaçou o senador José
Serra com uma espátula de abrir cartas?
Heloísa Helena
Ele falou coisas de que eu não gostei e fui conversar com ele.
Veja
Com uma espátula na mão, senadora?
Heloísa Helena
Se tem uma coisa que eu não suporto é gente que fica com
futrica, que vem falar da minha vida pessoal. Eu não falo de ninguém
e não admito que falem de mim. Ainda mais quando se trata de mentiras
abjetas.
Veja
A senhora acha que foi vítima de machismo no episódio
em que foi acusada de ter votado contra a cassação do senador
Luiz Estevão em razão de uma suposta relação
amorosa que teria tido com ele?
Heloísa Helena
Aquilo me deixou profundas cicatrizes na alma. O argumento utilizado ali
não era só machista era vil, desqualificado. Quando
eu leio o que tive de dizer na tribuna do plenário naquele episódio...
(em discurso na tribuna, a senadora disse, entre outras coisas, que
vomitava em homens como Luiz Estevão, "riquinhos e ordinários").
Mas não me arrependo. Talvez eu me arrependa é de não
ter dado uns tabefes em certas pessoas.
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