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Sérgio
Abranches
Guerra
iminente
"Bush
tinha a idéia fixa de ir à guerra desde que tomou
posse. É difícil
imaginar que possa abandoná-la"
Ilustração Ale Setti
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A guerra com o Iraque já começou. Essa é a abertura
de uma análise recente sobre o envolvimento militar dos Estados
Unidos naquele país. Nenhum especialista é capaz de dizer,
porém, quando se dará a invasão. O dia D permanece
incerto. São muito poucos, entretanto, os que consideram a guerra
evitável, mesmo com a oposição da França e
da Alemanha. O presidente Jacques Chirac preferiu dizer que "nunca se
deve considerar a guerra inevitável". Junto com o primeiro-ministro
Gerhard Schroeder, defende a posição minoritária
de que há espaço para uma saída diplomática.
Os dois ganharam o apoio da China e da Rússia. Esse último
lance, embora tenha levado o jornal Washington Post a afirmar que
Bush está cada vez mais isolado, não convenceu ninguém
de que se terá força para interromper a marcha, já
iniciada, para tomar Bagdá.
A questão crítica diz respeito às conseqüências
da guerra. Jacques Attali, antigo colaborador de François Mitterrand,
acha com razão que dependerá da duração da
guerra. Se for curta, suas conseqüências econômicas serão
de pouca envergadura. Se for longa, poderá levar a Europa e o mundo
à deflação. Os mercados financeiros trabalham com
a hipótese de uma guerra curta e por isso estão relativamente
mais otimistas. Vários especialistas em estratégia militar
dão base à expectativa de uma guerra rápida, porém
não sem uma ponta de sobriedade. É o caso de Michael O'Hanlon,
do Brookings Institution, que escreveu recentemente um longo trabalho
estimando as perdas prováveis na guerra. Ele conclui que entrar
em uma guerra contra Saddam Hussein com a expectativa de que a vitória
será fácil seria irresponsável. Entretanto, não
vê muita razão para duvidar que os EUA e seus aliados possam
vencer rapidamente e com perdas relativamente modestas: é "virtualmente
certo" que Saddam será deposto e seu regime, destruído,
conclui.
Mas são essas incertezas que tiram a previsibilidade do momento
do ataque. O'Hanlon adota um número de consenso para as tropas
necessárias para um ataque bem-sucedido: 250.000 soldados. Em meados
de fevereiro, estima-se que as tropas estacionadas nas proximidades do
Iraque somem 150.000 homens. Seriam necessários cinco porta-aviões
de apoio. Hoje, dois já se encontram na região e dois estão
se deslocando para lá. Com a chegada do Ark Royal, britânico,
entre o meio e o fim de fevereiro haverá cinco ou seis prontos
a entrar em ação.
Foi o vazamento de um relatório da inteligência russa, dizendo
que Bush estaria se preparando para atacar em meados de fevereiro, que
precipitou a ação contrária da França e da
Alemanha, que presidirão a Otan nos próximos dois meses.
O governo Bush ficou irritado com a ação diplomática
dos dois, "a velha Europa", segundo o secretário de Defesa, Donald
Rumsfeld. Mas é um problema real: sem o apoio da Otan, Bush terá
de manter dezenas de milhares de soldados em território iraquiano,
depois da vitória, com custos financeiros e políticos enormes.
Esse papel estaria reservado às tropas aliadas com apoio da Otan.
Bush precisa dos aliados para defender a Turquia de um eventual contra-ataque
iraquiano.
Na região, não é só a Turquia que se mostra
preocupada com os efeitos colaterais da guerra. Irã, Síria
e Arábia Saudita temem ser os próximos alvos da belicosidade
de Bush e que se instale o caos na região. Não são
desprezíveis as conseqüências políticas e geopolíticas
da queda de Bagdá para as monarquias mercantis da região.
Politicamente, a hegemonia dos EUA, único pólo mundial de
poder, está em jogo. França e Alemanha estão colocando
todas as fichas na possibilidade de um mundo multipolar.
Bush tem, ainda, de se preocupar com a cena doméstica. Sua popularidade
ficou abaixo de 60% pela primeira vez desde o 11 de setembro: caiu 7 pontos
entre dezembro e janeiro, para 59%, segundo a pesquisa Washington Post/ABC
News. A maioria rejeita sua condução da economia, 53%
contra 43% em dezembro. A política com relação ao
Iraque tem a aprovação de 50%, 8 pontos menos, e a desaprovação,
de 46%, 9 pontos acima da pesquisa anterior. O engajamento militar ainda
tem a aprovação de 57%, mas eram 62% no fim do ano passado.
As apostas para o dia D estão entre o meio para o fim de fevereiro
e o início de março. Bush vem sendo pressionado pela meteorologia:
seria um erro ainda estar em plena guerra depois de meados de abril, quando
o tempo se viraria contra os invasores. É uma guerra que não
tem lado bom, mas pode trazer péssimas conseqüências.
Bush tinha a idéia fixa de ir à guerra desde que tomou posse.
É difícil imaginar que possa abandoná-la.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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