Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 787 - 29 de janeiro de 2003
Em foco

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
VEJA on-line
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2003
Reportagens de capa
2000|01|02|03
Entrevistas
2000|01|02|03
Busca somente texto
96|97|98|99
2000
|01|02|03


Crie seu grupo




 

Sérgio Abranches

Guerra iminente

"Bush tinha a idéia fixa de ir à guerra desde que tomou posse. É difícil
imaginar que possa
abandoná-la"


Ilustração Ale Setti


A guerra com o Iraque já começou. Essa é a abertura de uma análise recente sobre o envolvimento militar dos Estados Unidos naquele país. Nenhum especialista é capaz de dizer, porém, quando se dará a invasão. O dia D permanece incerto. São muito poucos, entretanto, os que consideram a guerra evitável, mesmo com a oposição da França e da Alemanha. O presidente Jacques Chirac preferiu dizer que "nunca se deve considerar a guerra inevitável". Junto com o primeiro-ministro Gerhard Schroeder, defende a posição minoritária de que há espaço para uma saída diplomática. Os dois ganharam o apoio da China e da Rússia. Esse último lance, embora tenha levado o jornal Washington Post a afirmar que Bush está cada vez mais isolado, não convenceu ninguém de que se terá força para interromper a marcha, já iniciada, para tomar Bagdá.

A questão crítica diz respeito às conseqüências da guerra. Jacques Attali, antigo colaborador de François Mitterrand, acha com razão que dependerá da duração da guerra. Se for curta, suas conseqüências econômicas serão de pouca envergadura. Se for longa, poderá levar a Europa e o mundo à deflação. Os mercados financeiros trabalham com a hipótese de uma guerra curta e por isso estão relativamente mais otimistas. Vários especialistas em estratégia militar dão base à expectativa de uma guerra rápida, porém não sem uma ponta de sobriedade. É o caso de Michael O'Hanlon, do Brookings Institution, que escreveu recentemente um longo trabalho estimando as perdas prováveis na guerra. Ele conclui que entrar em uma guerra contra Saddam Hussein com a expectativa de que a vitória será fácil seria irresponsável. Entretanto, não vê muita razão para duvidar que os EUA e seus aliados possam vencer rapidamente e com perdas relativamente modestas: é "virtualmente certo" que Saddam será deposto e seu regime, destruído, conclui.

Mas são essas incertezas que tiram a previsibilidade do momento do ataque. O'Hanlon adota um número de consenso para as tropas necessárias para um ataque bem-sucedido: 250.000 soldados. Em meados de fevereiro, estima-se que as tropas estacionadas nas proximidades do Iraque somem 150.000 homens. Seriam necessários cinco porta-aviões de apoio. Hoje, dois já se encontram na região e dois estão se deslocando para lá. Com a chegada do Ark Royal, britânico, entre o meio e o fim de fevereiro haverá cinco ou seis prontos a entrar em ação.

Foi o vazamento de um relatório da inteligência russa, dizendo que Bush estaria se preparando para atacar em meados de fevereiro, que precipitou a ação contrária da França e da Alemanha, que presidirão a Otan nos próximos dois meses. O governo Bush ficou irritado com a ação diplomática dos dois, "a velha Europa", segundo o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. Mas é um problema real: sem o apoio da Otan, Bush terá de manter dezenas de milhares de soldados em território iraquiano, depois da vitória, com custos financeiros e políticos enormes. Esse papel estaria reservado às tropas aliadas com apoio da Otan. Bush precisa dos aliados para defender a Turquia de um eventual contra-ataque iraquiano.

Na região, não é só a Turquia que se mostra preocupada com os efeitos colaterais da guerra. Irã, Síria e Arábia Saudita temem ser os próximos alvos da belicosidade de Bush e que se instale o caos na região. Não são desprezíveis as conseqüências políticas e geopolíticas da queda de Bagdá para as monarquias mercantis da região.

Politicamente, a hegemonia dos EUA, único pólo mundial de poder, está em jogo. França e Alemanha estão colocando todas as fichas na possibilidade de um mundo multipolar.

Bush tem, ainda, de se preocupar com a cena doméstica. Sua popularidade ficou abaixo de 60% pela primeira vez desde o 11 de setembro: caiu 7 pontos entre dezembro e janeiro, para 59%, segundo a pesquisa Washington Post/ABC News. A maioria rejeita sua condução da economia, 53% contra 43% em dezembro. A política com relação ao Iraque tem a aprovação de 50%, 8 pontos menos, e a desaprovação, de 46%, 9 pontos acima da pesquisa anterior. O engajamento militar ainda tem a aprovação de 57%, mas eram 62% no fim do ano passado.

As apostas para o dia D estão entre o meio para o fim de fevereiro e o início de março. Bush vem sendo pressionado pela meteorologia: seria um erro ainda estar em plena guerra depois de meados de abril, quando o tempo se viraria contra os invasores. É uma guerra que não tem lado bom, mas pode trazer péssimas conseqüências. Bush tinha a idéia fixa de ir à guerra desde que tomou posse. É difícil imaginar que possa abandoná-la.


Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)


 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS