Edição 1937 . 28 de dezembro de 2005

Índice
Millôr
Gustavo Franco
Tales Alvarenga
Diogo Mainardi
Eduardo Giannetti da Fonseca
Carta do Editor
Cartas
Radar
Contexto
Sobe e desce
Veja essa
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

VEJA Recomenda 2005

DVDs

O Expresso Polar (The Polar Express, Estados Unidos, 2004. Warner) – Na noite em que um garoto começa a ficar descrente de Papai Noel, um trem mágico pára à porta de sua casa a fim de levá-lo para o Pólo Norte, juntamente com outras crianças acometidas do mesmo ceticismo – e as visões que os esperam são, claro, capazes de colocar qualquer um no espírito do Natal. Baseado no best-seller infantil do americano Chris Van Allsburg e dirigido pelo Robert Zemeckis de De Volta para o Futuro, esse filme-experimento, misto de animação com ação real, traz Tom Hanks em cinco papéis, do menino e do condutor do trem ao próprio Papai Noel. As coisas esquentam mesmo, porém, com a entrada em cena dos delirantes elfos encarregados de fabricar os brinquedos.

Photo12/AFP
O Sol por Testemunha: melhor papel de Delon


O Sol por Testemunha
(Plein Soleil, França/Itália, 1960. Versátil) – Alain Delon teve seu melhor papel nessa primeira adaptação do romance O Talentoso Ripley, de Patricia Highsmith. Delon é Tom Ripley, um rapaz sem perspectivas e fácil de esquecer, que bola um esquema para se misturar à vida do milionário Philippe Greenleaf (Maurice Ronet) e sua namorada, Marge (Marie Laforêt). Ligado a Philippe por partes iguais de inveja, ressentimento e desejo, Ripley decide assassiná-lo para se apossar não apenas de sua identidade, mas de sua personalidade. O diretor René Clément, um dos grandes da era de ouro do cinema francês, foi obrigado a amenizar o desfecho escrito por Highsmith. Mas, ao contrário da refilmagem protagonizada por Matt Damon, seu filme preserva a amoralidade de Ripley e resulta um sensacional noir a sol pleno.

Coleção Astaire & Rogers – Volume 1 (Warner) – Achar o parceiro de dança ideal é tão difícil quanto encontrar o verdadeiro amor – e igualmente sublime, como se pode comprovar nesses cinco filmes estrelados pela dupla Fred Astaire e Ginger Rogers. O Picolino (1935) e Ritmo Louco (1936) são, de longe, os melhores da coleção, mas vêm seguidos de perto por Nas Águas da Esquadra (1936) e Vamos Dançar? (1937). Em todos eles, a fluidez do casal de dançarinos (que, na vida civil, não se davam lá muito bem) e sua sintonia são contagiantes. É fácil esquecer quanto de esforço esses números tão alegres demandavam – Ginger não raro terminava o dia de filmagem com os pés sangrando. O mais fraco da seleção é Ciúme, Sinal de Amor (1949), filmado quando a magia já se havia ido.

The Movie, ABBA (Universal) – O quarteto sueco ABBA teve presença marcante nas paradas nos anos 70, graças a sucessos como Dancing Queen. Rodado em 1977, The Movie é um registro de apresentações do conjunto na Austrália. A direção coube ao cineasta Lasse Hallström, que mais tarde ficaria famoso com as produções Minha Vida de Cachorro e Chocolate. A trama criada por Hallström é só um pretexto para mostrar o ABBA em ação: as imagens do grupo no palco são entremeadas com cenas em que um radialista fictício tenta entrevistar seus integrantes. Lançada em cinema na época, a fita chega ao DVD no Brasil num momento em que o pop inofensivo do conjunto voltou à cena com tudo – entre os que se rendem a ele está a cantora Madonna, que sampleou o hit Gimme Gimme Gimme em seu novo CD.

 

DISCOS


Dave Hogan/Getty Images
Prodigy: batidas que mudaram a música eletrônica

Their Law: the Singles 1995-2005, The Prodigy (Sum Records) – Ao lado de seus conterrâneos do Chemical Brothers, os ingleses do Prodigy foram os responsáveis pela popularização da música eletrônica na segunda metade dos anos 90. O grupo ajudou o gênero a cair no gosto dos roqueiros, ao adicionar guitarras a ritmos como a dance music. Nessa coletânea não faltam suas músicas mais conhecidas, como Firestarter e Smack My Bitch Up – ambas do disco The Fat of the Land, de 1997. Mas o mérito do lançamento é recuperar também o que o Prodigy fez de bom em seus primeiros trabalhos, menos divulgados por aqui. Incluem-se aí a ultradançante No Good e Out of Space, um dos primeiros sucessos da banda nas pistas.

Para Inglês Ver... e Ouvir, Zizi Possi (Universal) – A paulistana Zizi Possi é uma grande intérprete da MPB, mas não raro desperdiçou seu talento em trabalhos de gosto duvidoso – vide seu flerte com o brega nos anos 80 ou os fracos discos de música italiana que gravou na década de 90. Para Inglês Ver... mostra do que Zizi é capaz quando aposta num bom repertório. Nascido de uma série de shows que a cantora fez numa casa de jazz em São Paulo, o CD traz interpretações suas para canções em inglês. O cardápio é variado: Zizi vai de um clássico como Love for Sale, de Cole Porter, até um hit do jamaicano Bob Marley, Redemption Song. Ela acerta, sobretudo, em Moon River (tema do filme Bonequinha de Luxo) e na bela versão de Do You Wanna Dance, de Johnny Rivers.


AFP
Nina Simone: um disco só de blues  

High Priestess of Soul, Nina Simone (Universal) – Em quarenta anos de carreira, Nina Simone (1933-2003) redefiniu a maneira de interpretar jazz. Era uma pianista de mão-cheia, que ia da música clássica (ela estudou na prestigiada Juilliard School, de Nova York) ao cabaré. A roufenha Nina também fez do jazz um campo de militância política – na emblemática Mississippi Goddam, denunciou a segregação dos negros americanos. Em High Priestess of Soul, de 1966, a cantora investe num repertório menos politizado. O forte do disco – no qual ela tem apoio de uma big band e uma orquestra – é o rhythm'n'blues. Um dos pontos altos é sua versão de Brown Eyed Handsome Man, do roqueiro Chuck Berry. Em Come Ye, o vocal trovejante de Nina é acompanhado apenas por percussão.

 

CINEMA

A Passagem (Stay, Estados Unidos, 2005. Estréia no país na sexta-feira 30) – Um rapaz (Ryan Gosling) diz para seu psiquiatra (Ewan McGregor) que pretende se suicidar dali a três dias, e o analista, a fim de impedi-lo, corre para deslindar os motivos que estariam por trás da decisão – ou pelo menos essa é a situação que parece estar se desenrolando no início. A partir dela, o diretor alemão Marc Forster (de A Última Ceia) vai criar outras, cada vez mais intrincadas, até que nem os personagens nem a platéia saibam mais discernir o que é real. Com sua estrutura de quebra-cabeça, A Passagem é um programa absorvente – embora de ligeiro não tenha nada. Pontos extras ainda para a concepção visual de Forster e para o ótimo elenco, completado por Naomi Watts, em cartaz também com King Kong.

2046 – Segredos do Amor (2046, Hong Kong/China/França, 2004. Estréia no país na sexta-feira 6) – Essa continuação do cult Amor à Flor da Pele não deixa dúvida: o diretor Wong Kar Wai está enfeitiçado pelo ator Tony Leung – e é fácil entender por quê. Leung retoma o personagem do jornalista Chow, que terminou o filme original arrasado pelo fim de seu romance com uma mulher casada. Em Hong Kong, ele leva uma vida dissoluta e se envolve com várias outras mulheres (entre elas Zhang Ziyi, a musa chinesa do momento), que sucumbem ao seu charme. Nas horas vagas, Chow escreve um conto sobre 2046, um tempo/lugar em que as pessoas vão encontrar suas lembranças. Detalhe: 2046 é também quando acaba o compromisso da China de manter o status quo de Hong Kong.

 

LIVROS

Machado: nova biografia

Machado de Assis – Um Gênio Brasileiro, de Daniel Piza (Imprensa Oficial; 416 páginas; 60 reais) – Na apresentação dessa biografia, o jornalista Daniel Piza observa que Machado de Assis (1839-1908) foi ao mesmo tempo uma expressão de sua época e uma exceção a ela. Em seus contos e romances, ele deixou um retrato acurado do Rio de Janeiro do século XIX, mas sua crítica ácida à sociedade brasileira nem sempre foi percebida por seus contemporâneos. Piza busca demonstrar que Machado era muito diferente do protagonista de seu último romance, Memorial de Aires: o escritor não tinha "tédio a controvérsias", pois na verdade participou dos grandes debates públicos de sua época. A ascensão social do mulato no Brasil escravista e a epilepsia estão entre os aspectos de sua vida examinados no livro.

A Promessa do Livreiro, de John Dunning (tradução de Alvaro Hattnher; Companhia das Letras; 440 páginas; 43 reais) – O escritor americano John Dunnning é um livreiro especializado no comércio de obras raras pela internet. Sua experiência de bibliófilo foi essencial para a composição dos policiais Edições Perigosas e Impressões e Provas, estrelados por Cliff Janeway, um curioso dublê de livreiro e detetive. No novo livro, ele retorna à ação para investigar um mistério relacionado à figura do explorador inglês Richard Burton. O caso envolve uma coleção de obras raras roubada, uma mulher assassinada – e até o próprio Burton, cuja rápida passagem pelos Estados Unidos, pouco antes da Guerra Civil, será um enigma para Janeway investigar.


Dave Caulkin/AP
Bryson: ciência em resumo

Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson (tradução de Ivo Korytowski; Companhia das Letras; 542 páginas; 54 reais) – O jornalista americano Bill Bryson estava cruzando um oceano de avião quando se deu conta de que não sabia explicar por que as águas do mar abaixo dele eram salgadas. Para resolver essa e outras dúvidas, ele decidiu ler uma batelada de livros científicos e entrevistar vários especialistas. O resultado de suas pesquisas é esse livro, um bem-humorado resumão do conhecimento que a ciência acumulou ao longo de séculos. Sucesso na Inglaterra, onde vendeu mais de 2 milhões de exemplares, Breve História explica de forma saborosa temas que vão da função da atmosfera da Terra à evolução da espécie humana.


Adolfo Gerchmann
O poeta Quintana: lírico e cético

Poesia Completa, de Mario Quintana (Nova Aguilar; 1.024 páginas, 170 reais) – O gaúcho Mario Quintana (1906-1994) foi um dos nomes mais representativos da poesia moderna brasileira. Ele praticou as mais diversas formas poéticas, dos sonetos de A Rua dos Cataventos, seu livro de estréia, em 1940, aos sintéticos aforismos de Caderno H. Sua voz, porém, é inconfundível: a conjugação de um lirismo às vezes francamente sentimental, sem pudor de assumir imagens que outro poeta talvez considerasse desgastadas (Lua, grilos, anjos), com uma sutil nota de ceticismo. Esse livro reúne, num único volume, todas as quinze coletâneas que o poeta gaúcho lançou em vida, além do póstumo Água e cinco livros de versos dedicados ao público infantil.


Will Mcintyre/Time Life/Getty Images
Larson: história em tom de thriller

O Demônio na Cidade Branca, de Erik Larson (tradução de Luana Ferreira de Freitas; Record; 560 páginas; 62,90 reais) – No século XIX e no início do XX, as feiras internacionais estavam na moda. O jornalista Erik Larson conta a história da Feira Internacional de Chicago, em 1893 – e seu relato, embora não seja ficcional, pode ser lido como um thriller. Pois Larson reconstitui não só as atividades de Daniel Hudson Burnham, o arquiteto encarregado de montar a gigantesca exposição – ele também narra a história de Henry H. Holmes, um serial killer que abriu um hotel em Chicago na época da feira. Ele aproveitava o grande afluxo de mulheres à cidade para fazer suas vítimas. Seu hotel era equipado com itens sinistros: câmara de tortura à prova de som e incinerador.

Ensaios Reunidos, 1946-1971 – Volume II, de Otto Maria Carpeaux (Topbooks/UniverCidade; 942 páginas; 93,90 reais) – Ao lado do húngaro Paulo Rónai e do alemão Anatol Rosenfeld, o crítico literário austríaco Carpeaux (1900-1978) faz parte de uma brilhante leva de intelectuais judeus que se exilaram no Brasil quando o nazismo começava sua expansão pela Europa. E o Brasil ganhou muito com Carpeaux, autor de uma portentosa História da Literatura Ocidental. Esse segundo volume de seus ensaios completos – resultado de um grande trabalho de pesquisa – dá testemunho da abrangência de seu conhecimento: Carpeaux fala com a mesma argúcia da ópera de Richard Wagner, dos romances de James Joyce e da poesia de Manuel Bandeira.

 



 
 
 
topovoltar