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Tales
Alvarenga
O nosso Muro de Berlim
"O pensamento da esquerda juvenil é
nebuloso porque seus defensores não se
atrevem a explicar claramente o que
querem. A idéia é voltar ao século XVIII,
para fazer ressurgir seus tipos mitológicos
como o homem puro, solidário, fraterno, o
homem que, no imaginário esquerdista,
foi trucidado pelo capitalismo"
Este foi o ano em que o Muro de
Berlim desabou no Brasil, com dezesseis anos de atraso. Devemos
ao PT a produção do feliz acontecimento. Frei Betto,
um esquerdista religioso pré-moderno, diagnosticou o fenômeno
em uma frase. "O PT desmoralizou a esquerda", disse ele. Foi mais
do que isso. O PT desmoralizou as esquerdas, no plural, todas elas.
A esquerda tradicional, marxista,
racional, foi derrotada na Europa, a partir de meados do século
passado. Rastejou sobre os próprios escombros até
1989, quando a derrubada do Muro de Berlim significou a retirada
dos tubos que a mantinham vegetando na UTI. Essa esquerda advogava
a centralização do planejamento econômico em
benefício de uma sociedade mais eficiente. Perdeu a disputa.
A velha esquerda racional teve
seus defensores tardios no Brasil. O candidato a presidente Lula,
nas suas primeiras tentativas eleitorais, pregava a estatização
do sistema financeiro e reprovava as privatizações.
Montagem com fotos AP, Valdemir Cunha
e John Gaps III/AP
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Essa esquerda que venera Marx, admira o gênio de Lenin e chamava
Stálin de papai até a década de 50 foi desidratada
no Brasil quando o candidato Lula, para não perder a quarta
eleição, em 2002, renunciou à visão
bolchevique de seu partido e se comprometeu a seguir as regras das
economias de mercado.
As esquerdas que sobreviveram
à queda do Muro de Berlim foram outras. São aquelas
que se reúnem anualmente no Fórum Social de Porto
Alegre, que querem apedrejar a globalização onde quer
que representantes do grande capital se reúnam, que atacam
a soja transgênica e rezam com fanatismo no missal ambientalista.
Essas esquerdas também foram baleadas pelo PT quando o único
grande partido de esquerda do país as decepcionou deixando
claro que sua pregação ética não passava
de hipocrisia.
Ao contrário da vertente
marxista, esse tipo de esquerda juvenil não apenas combate
a economia de mercado como também refuta a própria
idéia do raciocínio econômico, como mostra o
ensaísta americano Irving Kristol, num ensaio premonitório
de 1973. É a essa esquerda que podemos atribuir a guerra
a moinhos de vento como o neoliberalismo ou a globalização.
Essas expressões traem um ódio difuso à racionalidade
econômica que passou a vigorar como uma das estacas filosóficas
das sociedades burguesas a partir da Revolução Industrial.
O pensamento dessas esquerdas
é nebuloso porque seus defensores não se atrevem a
explicar claramente o que são e o que querem. E o que defendem
e não podem confessar é o impulso de volta à
simplicidade da era pré-capitalista, ao mundo sem a teia
global das finanças, da produção industrial
e do comércio. A idéia subjacente é voltar
ao século XVIII, para fazer ressurgir do pó seus tipos
mitológicos como o homem puro, solidário, fraterno,
sem ganância, sem egoísmo, o homem que foi trucidado
pela malícia capitalista.
Essa esquerda juvenil também
foi decepcionada pelo PT, quando o maior partido de esquerda no
Brasil saiu da oposição, da cátedra e da imprensa
para tomar um lugar no centro do poder.
O PT se comportou como uma turma
de arrivistas vulgares quando tentou fundir corpo e alma do partido
com o Estado. Não por uma questão de eficiência,
que fique claro. O aparelhamento do Estado foi feito para saciar
a sede mesquinha de arranjar uma vaga em repartição
pública e exibir poder para os compadres embasbacados. O
PT espalhou seus militantes, muitos deles de desumana incompetência,
por milhares de cargos de confiança.
A coroação da obra
petista veio na forma da maior roubalheira sistemática a
que o país já assistiu. O Brasil saiu diferente desse
encontro com o PT em 2005. Nunca mais será tão ingênuo.
O nosso Muro de Berlim finalmente ruiu.
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