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Retrospectiva 2005
 | À
vontade no submundo da corrupção, Marinho conta como o butim era
dividido! E que já se colocaram detalhes escusos em papel timbrado da estatal,
levado para uma discussão em mesa de bar! |  Alexandre
Oltramari
Maurício Marinho é
um exemplo lapidar da principal força que move a engrenagem da corrupção,
segundo todos os especialistas ouvidos por VEJA: a impunidade. No vídeo
em que foi filmado pegando 3.000 reais de propina, Marinho deixa transparecer
que se sentia atuando num ambiente em que jamais seria denunciado. Na filmagem,
ele conta que pegava dinheiro de clientes no próprio local de trabalho!
Narra como variavam os porcentuais do achaque conforme o negócio a ser
feito! Relata como era dividido o butim entre os corruptos, com a parcela mais
gorda subindo para os diretores! Graceja ao relembrar que chegaram a apresentar
detalhes escusos em papel timbrado dos Correios e numa conversa de bar! Como se
sabe, Marinho foi pego, mas seu vôo não foi abatido por nenhum dos
instrumentos do Estado próprios para tal ao contrário: foi
filmado por desafetos, que aparentemente estavam tendo interesses contrariados,
e foi denunciado na imprensa. Num sinal evidente da leniência com que se
trata a corrupção no país, os Correios ainda levaram quatro
meses para demiti-lo de seus quadros. Foi exonerado em 9 de setembro.
Dida
Sampaio/AE
 | PIADA
DE SALÃO Delúbio Soares, o ex-tesoureiro
do PT, ao esguichar água nos convivas de sua festa de aniversário
de 50 anos: "Denúncias serão esclarecidas, esquecidas e acabarão
virando piada de salão", debochou o rapaz |
Marinho
converteu-se à religião evangélica e planeja passar o Natal
com a família numa igreja, em Brasília. "Ele está feliz,
viu? Ele botou os Correios no passado dele e vai recomeçar a vida", diz
seu advogado, Sebastião Coelho da Silva, também evangélico.
Com o longo histórico nacional de impunidade, é difícil arriscar
um palpite sobre o futuro de Maurício Marinho. O Brasil, como está
fartamente demonstrado, pune tremendamente pouco. Há proporcionalmente
quatro vezes mais gente presa nos Estados Unidos do que no Brasil, e não
existe nenhuma evidência de que a criminalidade seja quatro vezes maior
por lá do que por aqui. Mesmo com os esforços do Ministério
Público e da Polícia Federal, cujas operações são
cada vez mais freqüentes e mais barulhentas, ainda é possível
contar nos dedos os corruptos graúdos efetivamente punidos. Uma das razões
que mais contribuem para esse cenário desolador aparece num diagnóstico
já antigo: é a barafunda de um ordenamento jurídico que consegue
ser, por seus formalismos inócuos e seus excessos de recursos, célere
para punir os pobres e paquidérmico quando o réu usa gravata e tem
a conta bancária recheada.
Até hoje, não houve força capaz de levar o Congresso Nacional
a mudar esse quadro sobejamente conhecido. Há cinco anos, por exemplo,
o Ministério da Justiça enviou ao Congresso um projeto de lei que
amplia o número de medidas cautelares, um instrumento usado para garantir
o andamento do processo e a aplicação da pena uma espécie
de antídoto contra a morosidade e a leniência. O mesmo projeto prevê
a criação da prisão domiciliar do acusado e a apreensão
de seu passaporte, outra medida destinada a engaiolar corruptos e impedir que
deixem o país. Até o momento, no entanto, já passados cinco
anos, o Congresso não conseguiu levar o projeto a voto. Em 2004, o Ministério
da Justiça mandou doze projetos de lei restringindo os recursos meramente
protelatórios, que advogados costumam acionar apenas para empurrar um processo
com a barriga. Até agora, a Câmara e o Senado não conseguiram
votar nenhum dos doze projetos. "Quem está no topo da pirâmide tem
uma proteção especial. Quem está abaixo não pode nem
reclamar do que sofre", analisa Oscar Vilhena, diretor da faculdade de direito
da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Outro fator que contribui decisivamente para a impunidade é a debilidade
da legislação eleitoral. Tome-se como exemplo o caso do mensalão.
Num escândalo em que pelo menos dez crimes já foram cometidos
de corrupção a lavagem de dinheiro, de superfaturamento a formação
de quadrilha , os envolvidos estão empenhados em convencer a platéia
de que tudo não passa de uma inofensiva trapalhada eleitoral. Isso porque,
apesar de o Código Eleitoral prever pena de até três anos
de prisão para o caixa dois, não se tem notícia de político
brasileiro que tenha ido parar na cadeia por usar dinheiro clandestino em campanha
eleitoral. Eles costumam ficar impunes porque o crime prescreve antes do julgamento.
Nos raros casos em que há condenação, a prisão acaba
substituída por multa ou prestação de serviço à
comunidade. "As pessoas acham que jamais serão punidas pela lei eleitoral
da forma como podem ser punidas pela lei penal. Quem rouba dinheiro público
merece ir para a cadeia, e não ficar rindo e tomando banho de esguicho",
diz o filósofo Denis Rosenfield, professor da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, referindo-se ao ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, que
há dois meses foi flagrado naquele que é um retrato da folia da
impunidade mensaleira. Numa festa de aniversário na roça, na qual
comemorou seus 50 anos, Delúbio aparece dando banho de mangueira nos convivas.
Na ocasião, ele disse: "As denúncias serão esclarecidas,
esquecidas e acabarão virando piada de salão".
A impunidade ganhou destaque em tempos de mensalão, mas sua origem é
antiga entre nós. No estudo Impunidade no Brasil Colônia
e Império, o advogado Luís Francisco Carvalho Filho mostra que
a impunidade é uma constante na história do país. "A transformação
do território brasileiro em local de couto e homizio talvez seja o mais
remoto reflexo da questão da impunidade entre nós", escreveu Carvalho
Filho. Já na época colonial havia desde "conflitos de competência",
que prolongavam infinitamente os processos, até questões de natureza
prática, como a incapacidade de controlar o cumprimento da pena de degredo
no ultramar. Apesar de a severidade ser a regra, inclusive com mutilação
física e pena de morte para a maioria das infrações, Carvalho
Filho destaca o caráter massivo da política de perdão, usada
sobretudo para a legitimação ideológica do poder real. Tanto
na colônia como no Império o poder de punir e sobretudo de
absolver foi exercido de acordo com as conveniências do momento.
Dom Pedro I, por exemplo, revogou a pena de morte de réus presos apenas
para que eles participassem da "alegria geral" de sua coroação.
Quase dois séculos depois,
contudo, punir ou não um criminoso não pode continuar sendo uma
questão de conveniência política embora haja sinais
fortes de que ainda se promovem momentos de alegria monárquica entre os
deputados da República. O ano de 2005 termina, por exemplo, com uma mostra
cabal de impunidade patrocinada pela própria Câmara, quando 250 deputados
entenderam que deveriam absolver o deputado Romeu Queiroz, do PTB mineiro, um
mensaleiro confesso. É pena, pois a história mostra que a impunidade
é inimiga da democracia e irmã siamesa da corrupção.
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