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Gustavo
Franco Os enigmas da economia em 2005
"O
BC foi conservador até não poder mais, porque é uma ilha
de racionalidade dentro de um governo desmantelado. Nada de buscar a colaboração
de outras áreas de governo, pois só há inimigos à
sua volta" O
barulho das CPIs poderia dar ao leitor a impressão não inteiramente
falsa de que na economia não aconteceu muita coisa em 2005. Mas o ano que
passou está repleto de enigmas interessantes, como os seguintes: como conseguimos
ter tanto crescimento com os juros do tamanho em que estão e com
o desmonte do governo provocado pelo mensalão? Como conseguimos tanto superávit
comercial com uma taxa de câmbio pior (para o exportador) que a do pior
momento dos tempos da "âncora cambial"? Como é que tivemos tanta
inflação apesar de o câmbio ter caído como caiu e dos
maiores juros do mundo? E, por fim, e a propósito, por que mesmo somos
os campeões mundiais de juros?
Montagem
sobre fotos de Jonne Roriz/Dida Sampaio/Lula Marques/AE
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A
chave para o primeiro enigma é simples: a economia brasileira, mercê
das reformas feitas antes de 2003, é muito mais independente do governo
do que jamais foi. E, onde as coisas dependem de Brasília (por exemplo,
na infra-estrutura), não aconteceu muita coisa; 2005 foi uma monotonia
entrecortada por hesitações. Exceção feita para o
crédito consignado, uma inovação importante, mas que tudo
leva a crer que foi apenas uma emenda nas medidas do microcrédito.
E assim, graças ao fato de o crescimento mundial ter sido brilhante, o
nosso, que será, ao fim das contas, bastante modesto, foi produzido pela
globalização e pelos bancos, e não foi muito atrapalhado
por Marcos Valério. Também
o superávit comercial deve um bom pedaço de sua pujança à
globalização. Primeiro, porque os preços das commodities
foram espetaculares, e segundo, e mais importante, pelo fato de que foi fenomenal,
nos últimos anos, o crescimento das exportações "intra-firma",
ou seja, aquelas em que uma filial brasileira de multinacional exporta para sua
matriz e outras filiais num contexto de otimização das atividades
globais do grupo. As multinacionais respondem hoje por 60% ou mais das exportações
brasileiras, e cerca de dois terços desse comércio se tornaram "intra-firma".
Esse tipo de comércio, ou o fenômeno da produção global,
é pouco ou nada afetado pela taxa de câmbio. Na verdade, nada é
mais característico da globalização.
E a inflação? Tendo em vista a influência do câmbio
em trazer para baixo a inflação, somada às doses cavalares
de juros, fica difícil explicar a resistência da inflação
a cair abaixo de zero, exceto se entrarmos em considerações sobre
a política de fixação dos preços que o próprio
governo administra. Sim, o BC foi conservador até não poder mais,
porque é uma ilha de racionalidade dentro de um governo desmantelado, e
precisa jogar na retranca. Nada de futebol-arte e estratégias inovadoras,
e, sobretudo, nada de buscar a colaboração de outras áreas
de governo, pois só há inimigos à sua volta.
Sim, existe algo errado com o fato de sermos os campeões mundiais de juros
reais, mas o perigo em dizer essas coisas é dar pilha a quem acha que o
problema é de vontade política, e não se trata disso. O BC
não pode botar o juro onde bem entender, o mesmo valendo para o câmbio.
Os juros são muito altos no
Brasil porque o "crédito público" (a combinação déficit/dívida,
sem os truques contábeis habituais) é uma tragédia. Essa
é a explicação "fundamentalista" para os juros altos, que
muitos procuram encobrir, tal como se fazia no tempo da hiperinflação,
que era tudo menos o que devia ser, ou seja, produto da irresponsabilidade fiscal.
Em tempo, apenas quando nos convencemos de que a inflação não
era "inercial" ou "neutra" é que conseguimos vencê-la. Com os juros
é a mesma coisa: o superávit primário tinha de ser muito
maior, pois aí está a raiz do problema. É claro que o ministro
Antonio Palocci estava com a razão na querela com a ministra Dilma Rousseff,
mas ele perdeu a parada. Pior para nós. |