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Eduardo
Giannetti da Fonseca
O fim do ciclo
das ilusões
"Com o apagão político
do governo Lula, cai
por terra a crença de que a solução efetiva
dos enormes desafios do país depende
apenas de vontade política ou do
voluntarismo dos 'justos e bons'"
Paixões partidárias
à parte, é possível discernir uma lógica
na trajetória da política brasileira desde o fim do
regime militar. Dois pontos merecem destaque. O primeiro é
o fato de que o grande teste de qualquer democracia, que é
a alternância de poder, foi cumprido de maneira exemplar com
a vitória nas urnas e a posse do governo Lula. A campanha
de 2002 e a transição política transcorreram
dentro da mais perfeita e serena normalidade. Isso permitiu refutar
em definitivo não só o temor de que uma vitória
do PT levaria o país ao caos como também a crença
de que nossa democracia seria apenas de fachada, ou seja, um jogo
de cartas marcadas no qual uma genuína alternância
de poder jamais teria lugar.
O segundo ponto é que
as revelações e o descrédito que atingiram
o governo Lula em 2005 fecham um ciclo na política brasileira.
Três grandes forças de oposição foram
gestadas durante a vigência do regime militar. O surpreendente
é constatar que, ao longo de duas décadas de exercício
democrático, cada uma delas recebeu do nosso eleitorado a
oportunidade de governar o país e mostrar a que veio. A seqüência
poderia ter saído da prancheta de um cientista político.
Primeiro tivemos o PMDB de Sarney e Ulysses; depois o PSDB de Fernando
Henrique e, por fim, o PT de Lula. A única peça que
não se encaixa nesse enredo o meteoro chamado Collor
foi rapidamente expelida da cena política. A novidade
é que não resta mais nenhuma força política
de peso que tenha sido forjada na oposição ao regime
militar e que não tenha sido testada pelo eleitor brasileiro.
Todas elas perderam as fantasias da virgindade e tiveram a sua chance.
Ilustração Atômica
Studio
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O balanço dessa experiência é um misto de conquistas
e desapontamentos. Cada uma das três forças de oposição
à ditadura mostrou seus méritos, mas também
seus limites. O "apagão político" do governo Lula
fecha um ciclo porque com ele estamos enterrando as últimas
ilusões herdadas do período autoritário quanto
à facilidade de resolver problemas estruturais da vida brasileira,
como a desigualdade de oportunidades, o desemprego e o baixo crescimento.
Com a falência das ilusões políticas do petismo,
cai por terra a crença de que a solução efetiva
desses enormes desafios depende apenas de "vontade política"
ou do voluntarismo dos "justos e bons".
Embora doloroso, esse processo
de amadurecimento pela via do desencanto poderá render bons
frutos. Pois ele nos coloca diante da oportunidade concreta de alcançar
um grau maior de realismo e objetividade no diagnóstico de
nossos problemas e no debate eleitoral que se avizinha. Livre de
fantasias, cacoetes e auto-enganos herdados da longa convivência
com o autoritarismo os regimes de força deformam não
só a situação, mas também as crenças
e ideologias daqueles que fazem oposição a eles ,
a política brasileira está pronta para avançar
no caminho da democracia.
A página da alternância
de poder foi virada e as ilusões voluntaristas ruíram
sob o peso da realidade. Se esse raciocínio estiver correto,
é razoável esperar que o nosso sistema político
passe agora por uma profunda reorganização e depuração
de forças e lideranças um processo que pode
ser reforçado pela adoção de medidas saneadoras
como a "cláusula de barreira" (diminuição do
número de partidos no Congresso) e regras mais exigentes
de fidelidade partidária. O erro fatal seria permitir que
o desencanto com os políticos da hora vire descrença
na política como forma de atuação. A democracia
tem o dom de promover a correção de erros e desvios
por meio da renovação periódica dos governantes.
O grande desafio é saber tirar das ilusões perdidas
não o veneno do desalento, mas o ânimo de novos e corajosos
avanços.
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