Ponto
de vista:Stephen
Kanitz Como combater
a arrogância
"Precisamos de
pessoas que usem sua
privilegiada inteligência para ouvir aqueles
que as cercam, e não para enunciar as teorias
que aprenderam na Sorbonne, Harvard ou Yale"
Ilustração
Atômica Studio
Muitos leitores perguntaram ao longo deste mês qual
era a minha agenda oculta. Meus textos são normalmente
transparentes, sou pró-família, pró-futura
geração, pró-eficiência, pró-solidariedade
humana e responsabilidade social. Mas, como todo escritor,
tenho também uma agenda mais ou menos oculta. Sempre
que posso dou uma alfinetada nas pessoas e nos profissionais
arrogantes e prepotentes. É a reclamação
mais freqüente de quem já discutiu com esses tecnocratas.
Uma vez no governo, parece que ninguém mais ouve. Eles
confundem ser donos do poder com ser donos da verdade. Fora
do governo, continuam não ouvindo e, quando escrevem
em revistas e jornais, é sempre o mesmo artigo: "Juro
que eu nunca errei". Toda nossa educação
"superior" é voltada para falar coisas "certas".
Você só entra na faculdade se tiver as respostas
"certas". Você só passa de ano se estiver
"certo".
Aqueles com mestrado
e Ph.D. acham equivocadamente que foram ungidos pela certeza
infalível. Nosso sistema de ensino valoriza mais a
certeza do que a dúvida. Valoriza mais os arrogantes
do que os cientificamente humildes. É fácil
identificar essas pessoas, elas jamais colocam seus e-mails
ou endereços nos artigos e livros que escrevem. Para
quê, se vocês, leitores, nada têm a contribuir?
Elas nunca leram Karl Popper a mostrar que não existem
verdades absolutas, somente hipóteses ainda não
refutadas por alguém. Pessoalmente, não leio
artigos de quem omite seu endereço ou e-mail. É
perda de tempo. Se elas não ouvem ninguém, por
que eu deveria ouvi-las ou lê-las? Todos nós
deveríamos solenemente ignorá-las, até
elas se tornarem mais humildes e menos arrogantes. Como não
divulgam seus e-mails, ninguém contesta a prepotência
de certas coisas que escrevem, o que aumenta ainda mais a
arrogância dessas pessoas.
O ensino inglês
e o americano privilegiam o feedback, termo que ainda
não criamos em nossa língua a obrigação
de reagir à arrogância e à prepotência
dos outros. Alguém precisa traduzir bullshit,
que é dito na lata, sempre que alguém fala uma
grande asneira. Recentemente, cinco famosos economistas brasileiros
escreveram artigos diferentes, repetindo uma insolente frase
de Keynes, afirmando que todos os empresários são
"imbuídos de espírito animal". Se
esse insulto fosse usado para caracterizar mulheres, todos
estariam hoje execrados ou banidos. "A proverbial arrogância
de Larry Summers", escreveu na semana passada Claudio
de Moura e Castro, "lhe custou a presidência de
Harvard." Lá, os arrogantes são banidos,
mas aqui ninguém nem sequer os contesta. Especialmente
quando atacam o inimigo público número 1 deste
país, o empreendedor e o pequeno empresário.
Minha mãe
era inglesa, e dela aprendi a sempre dizer o que penso das
pessoas com quem convivo, o que me causa enormes problemas
sociais. Quantas vezes já fui repreendido por falar
o que penso delas? "Não se faz isso no Brasil,
você magoa as pessoas." Existe uma cordialidade
brasileira que supõe que preferimos nunca ser corrigidos
de nossa ignorância por amigos e parentes, e continuar
ignorantes para sempre. Constantemente recebo e-mails elogiando
minha "coragem", quando, para mim, dizer a verdade
era uma obrigação de cidadania, um ato de amor,
e não de discórdia.
O que me convenceu
a mudar e até a mentir polidamente foi uma frase que
espelha bem nossa cultura: "Você prefere ter sempre
a razão ou prefere ter sempre amigos?". Nem passa
pela nossa cabeça que é possível criar
uma sociedade em que se possa ter ambos. Meu único
consolo é que os arrogantes e prepotentes deste país,
pelo jeito, não têm amigos. Amigos que tenham
a coragem de dizer a verdade, em vez dos puxa-sacos e acólitos
que os rodeiam. Para melhorar este país, precisamos
de pessoas que usem sua privilegiada inteligência para
ouvir aqueles que as cercam, e não para enunciar as
teorias que aprenderam na Sorbonne, Harvard ou Yale. Se você
conhece um arrogante e prepotente, volte a ser seu amigo.
Diga simplesmente o que você pensa, sem medo da inevitável
retaliação. Um dia ele vai lhe agradecer.