Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo A palavra como
reforço à doença
O prejuízo que pode causar
o recurso
ao vocabulário médico em áreas que
não lhe são próprias
O senador Renan Calheiros disse
na semana passada que é vítima de um processo
"esquizofrênico". Não foi a primeira
vez. Ele tem mostrado, ao longo desses meses todos em que
figura como pivô num leque de escândalos, especial
queda pelo adjetivo "esquizofrênico". Nem
é o único: "esquizofrênico",
em sentido figurado, é usado por muitas pessoas, em
muitas situações, mesmo que nem sempre, como
é o caso de Renan Calheiros, seja fácil perceber
o que querem exatamente dizer com isso. Não importa.
Entenda-se a palavra como se entender, o caso é que
seu uso e abuso, em sentido metafórico, faz mal aos
portadores da disfunção chamada "esquizofrenia",
a seus familiares e aos profissionais de saúde que
lutam contra os preconceitos que envolvem os transtornos mentais.
Ao lançarem mão do termo para demonizar uma
ação ou um fato político ou social, demonizam,
de quebra, aqueles aos quais o termo se refere em sentido
próprio.
"Esquizofrênico",
muito usada quando se quer ofender ou xingar, é apenas
uma das muitas palavras que saíram do vocabulário
da medicina para ganhar circulação livre e desimpedida
em outras áreas. Num livro famoso da década
de 70, A Doença como Metáfora, a escritora
americana Susan Sontag chamou atenção para o
uso indevido da palavra "câncer". Citou exemplos
então ainda frescos na memória, como a frase
com que o assessor John Dean alertou o presidente Richard
Nixon do que ocorria no governo, à época do
escândalo de Watergate: "Temos um câncer
que cresce muito próximo da Presidência".
O que Dean queria dizer é que havia algo de moralmente
podre a corroer o governo. O câncer propriamente dito,
por conseguinte, teria a ver com algo moralmente podre.
Susan Sontag focava seu livro
no câncer e na tuberculose. A tuberculose exerceu no
século XIX inclusive no reino das metáforas
papel semelhante ao do câncer no século
XX. Na década de 80 veio a aids, e a autora escreveu
outro livro, como adendo ao anterior. Se já no caso
do câncer não era difícil pespegar algum
componente "moral" à doença (corria,
na época da publicação de A Doença
como Metáfora, a crendice de que havia pessoas
"psicologicamente" propensas ao câncer, como
aquelas que reprimem os sentimentos), mais razão ainda
havia para fazê-lo no caso da aids. Num caso como no
outro, muito mais ainda no da aids do que no do câncer,
ao sofrimento físico do paciente acrescentava-se a
culpa. O uso das palavras "câncer", ou "canceroso",
e "aids", ou "aidético", em terrenos
que não lhes são próprios, vinha se somar
à carga de preconceitos cercando essas doenças,
potencializando seus efeitos.
Se isso é verdade com
relação ao câncer e, mais ainda, à
aids, mais verdade ainda é com relação
aos transtornos mentais, marcados por estigmas que não
contam com patrulhas tão aguerridas e com o mesmo acesso
à mídia quanto as que lutam contra o estigma
da aids. Imagine-se se Renan Calheiros tivesse dito que os
processos contra ele são "aidéticos".
Ele sabe que não pode dizer isso. Mas não lhe
ocorre, nem a ele nem a muitos outros, que o mesmo cuidado
merecia ser estendido à palavra "esquizofrênico".
Ou à palavra "bipolar", nome de outra disfunção
mental que começa a cair no gosto de quem costuma lançar
mão do vocabulário médico para outros
fins.
"Transtornos mentais já
em si são algo com que é difícil lidar,
tanto para os pacientes como para os familiares", diz
o psiquiatra Marco Antonio Marcolin, pesquisador da Universidade
de São Paulo. "Qualquer mensagem que se refira
a eles em sentido negativo vem aumentar o estigma. Ao aumentar
o estigma, cai a adesão dos pacientes ao tratamento,
um dos maiores problemas nos tratamentos psiquiátricos,
compromete-se a compreensão dos parentes, multiplicam-se
os custos para o sistema de saúde e reduz-se a empregabilidade
dos portadores." Marcolin é presidente de honra
da Fênix, ONG com sede em São Paulo e atuação
em cinco estados, voltada para a organização
de grupos de auto-ajuda de portadores de transtornos psiquiátricos
e seus familiares. Um dos objetivos centrais da Fênix
é o combate ao estigma que cerca tais pacientes.
Na maravilha da literatura universal
que é o conto A Terceira Margem do Rio, de Guimarães
Rosa, um homem um dia se despede da família, embarca
numa canoa e nunca mais volta, decidido a passar o resto da
vida a subir e descer o rio, subir e descer. A família
se despedaça de tristeza e de vergonha. Por que o pai
fez isso? A mais forte hipótese era: "doideira".
O filho que narra a história, abalado como ninguém
com uma situação que sofre sem compreender,
nos dá conta de uma transformação que
se operou na família: "Na nossa casa, a palavra
doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos,
não se condenava ninguém de doido". Doido,
para nós das cidades, é uma palavra inocente,
até meio engraçada, como "aloprado".
Não nos sertões de Guimarães Rosa. Aquela
gente do conto sabia, a seu modo, o poder destrutivo de uma
palavra dessas, quando usada fora de lugar.