Está batendo
na porta errada quem pensa encontrar em A Lenda de Beowulf(Beowulf, Estados Unidos, 2007) qualquer coisa que
explique ou justifique por que esse poema épico, uma
das peças fundadoras da língua e da literatura
inglesas, resistiu aos últimos 1.500 anos. Em comum
com a saga do guerreiro que livra um reino escandinavo de
monstros como o medonho Grendel e um dragão, o filme
que estréia nesta sexta-feira no país tem os
nomes dos personagens e, vá lá, uma ou outra
situação. Umas poucas coincidências, enfim,
complementadas por quantidades imoderadas de tolice, chatice
e humor involuntário. Como já fizera em O
Expresso Polar, o diretor Robert Zemeckis se vale aqui
da performance capture, técnica que costuma
ser usada tão-somente como auxiliar na feitura de um
filme, e que só ele entende como sua principal razão
de ser.
Em linhas gerais,
o que a performance capture faz é pegar atores
como Anthony Hopkins, Robin Wright-Penn e John Malkovich,
vesti-los em macacões cheios de sensores para que as
coordenadas de seus movimentos e expressões sejam transmitidas
ao computador, e então transformá-los em desenho
animado processo ao fim do qual todos eles ficam mais
esquisitos e canastrões, com cara de algo que sobrou
de Shrek. O inglês Ray Winstone, que é
um grande ator mas tem uma bela barriga de cerveja, ilustra
o máximo de sucesso que Zemeckis conseguiu atingir:
no papel de Beowulf, ele aparece malhadésimo (o melhor
momento é a cara de ai-jesus que a rainha faz quando
ele deixa cair a túnica), mas drenado de qualquer talento
uma espécie de Patrick Swayze viking. Já
Angelina Jolie, como a bruxa que seduz os guerreiros, demonstra
o que acontece quando se tenta retocar o irretocável.
Como agravante,
A Lenda de Beowulf foi feito para ser exibido em 3D
nas salas que dispõem do sistema. Toda a energia que
poderia ter sido empregada na confecção do roteiro
algum roteiro foi despendida em bolar situações
em que objetos e pessoas são arremessados perpendicularmente
à tela. Some-se a isso a apelação que
Zemeckis confunde com sexo e violência, mais uma variedade
extensa de sotaques bizarros, pretensamente arcaicos, e o
que se tem não é mais uma epopéia. É
uma piada, ruim e interminável.