Sentado à
frente da máquina de escrever, com fones de ouvido
que filtram a conversa vinda do andar de baixo, Gerd Wiesler,
cinqüentão, espião zeloso da Stasi, a horrenda
polícia secreta da Alemanha Oriental, é o rosto
de um estado que se transformou inteiro numa máquina
de vigiar e corromper. Um rosto cinzento que, muito apropriadamente,
não tem expressão nem inflexão
de um homem cuja existência ninguém registra,
mas que vive de registrar a existência alheia. No início
do magnífico A Vida dos Outros(Das
Leben der Anderen, Alemanha, 2006), que estréia
nesta sexta-feira no país, Wiesler dá a um grupo
de futuros espiões aulas sobre técnicas científicas
de interrogatório; na cena seguinte, na platéia
de um teatro, reage não com a objetividade que prega,
mas por instinto. A questão é que espécie
de instinto, se profissional ou pessoal. Wiesler olha a figura
de Georg Dreyman (Sebastian Koch), bonito, autoconfiante e
o único dramaturgo leal ao Partido que também
é lido no Ocidente, e se convence de que ninguém
pode ser tão perfeito assim. Ou talvez Wiesler tenha
se perturbado com o beijo que flagrou, nos bastidores, entre
Georg e sua atriz, a bela Christa-Maria (Martina Gedeck).
Sejam quais forem seus motivos, no dia seguinte Georg terá
deixado de ser o único artista do país livre
da vigilância estatal. Wiesler entra em seu apartamento
durante sua ausência, esconde microfones por toda parte
e, do andar de cima, se transformará no vírus
que vai infectar a intimidade de Georg e Christa. No meio
do caminho, porém, algo acontece: o espião ouve,
em vez de uma conspiração, uma música
que o emociona; e, principalmente, escuta nas pequenas interações
do casal algo que não conhece, mas que reconhece de
imediato como precioso amor, alegria, atração,
beleza, calor. Para sua surpresa e também para seu
imenso risco pessoal, ele se reconfigura então de delator
em protetor.
Ganhador do Oscar
de produção estrangeira deste ano, A Vida
dos Outros se passa em 1984, cinco anos antes da queda
do Muro de Berlim, quando a Stasi tinha algo como 100.000
agentes a seu serviço, além de uns 170.000 informantes.
Mais metódica e paranóica ainda que a KGB russa,
a organização mantinha registros de cada uma
das máquinas de escrever do país o que
tornava impossível escrever um texto anônimo
e preservava até amostras do cheiro de seus
suspeitos, caso fosse necessário procurá-los
com cães. A australiana Anna Funder, autora do premiado
livro Stasiland, objetou com veemência ao filme:
segundo ela, não há, em todos os registros da
Stasi, um único indício de que alguma vez um
espião tenha protegido seus vigiados. Essa licença
poética, porém, é a única que
o diretor estreante Florian Henckel von Donnersmarck toma
com a história. Em um roteiro primoroso, ele combina
os fatos da vida na Alemanha comunista à trajetória
de seus personagens de forma indivisível. Cada detalhe
factual corresponde a um ponto dramático do enredo.
No cinema recente, de qualquer nacionalidade, é difícil
pensar num outro filme que atinja essa fusão entre
o ficcional e o histórico de forma tão completa;
e, no cinema alemão em particular, esse é um
exemplar único na sua recusa em romantizar ou relativizar
a crueldade que prevalecia do lado de lá do Muro, como
o fazia Adeus, Lênin!. Aqui, a supressão
do íntimo e do pessoal é absoluta um
pesadelo orwelliano dentro do qual gerações
tiveram de viver, dia após dia.
Se A Vida dos
Outros é verdadeiramente superlativo, porém,
a razão está em Ulrich Mühe, que foi um
dos grandes nomes do teatro alemão-oriental, esteve
ele próprio sob vigilância da Stasi e submeteu
o diretor a duas sabatinas antes de se confiar a ele. Mühe
constrói o impassível Wiesler sem nenhum dos
recursos práticos de um ator olhares, gestos,
tons de voz. Mais do que encarnar o personagem e sua metamorfose,
ele os irradia para a platéia. E, com sua frase final
um simples "É para mim" , ele
demole até a última justificativa possível
para a existência de algo como a Alemanha Oriental.
Mühe morreu em julho passado, aos 54 anos, de câncer
do estômago. Deixou uma carreira não mais do
que breve no cinema. Mas, nem que fosse feita unicamente deste
filme, ela já seria colossal.