Escrito e reescrito
pelo inglês D.H. Lawrence (1885-1930) nos últimos
anos de vida, numa espécie de febre contra os males
de seu tempo, o romance O Amante de Lady Chatterley
foi um dos maiores escândalos da história da
literatura, comparável ao criado por Gustave Flaubert
no século XIX com Madame Bovary. Apenas em 1960,
mais de três décadas após sua publicação,
ganhou uma versão sem cortes na Inglaterra onde
continuou a ser tachado de pornográfico, doentio ou
imoral. A protagonista, a jovem Constance Chatterley, mora
com o marido, Clifford, numa propriedade cuja riqueza é
mantida pelas minas de carvão adjacentes. Clifford
voltou paraplégico da I Guerra, e o contato físico
entre ele e a mulher se resume aos cuidados que ela lhe dispensa
(e há indícios de que mesmo antes esse contato
não era lá grande coisa). Constance está
fenecendo, assim como esse mundo de distinções
sociais e riqueza ociosa à volta dela. A certa altura,
porém, ela começa um caso com Oliver Parkin,
o guarda-caça da propriedade, e desabrocha. Lawrence
confronta um punhado de tabus: o veterano de guerra impotente,
a insatisfação sexual feminina, o adultério
e entre classes sociais diferentes , as muitas
cenas explícitas de sexo e a linguagem franca. Nada
disso, porém, poderia ser considerado subversivo nos
dias de hoje, e a inteligência com que a diretora Pascale
Ferran encontra outro cerne no romance é o trunfo de
Lady Chatterley (França/Inglaterra, 2006),
que estréia nesta sexta-feira no país.
O centro do filme,
baseado em John Thomas and Lady Jane, a segunda e menos
verbosa versão escrita por Law-rence, é o erotismo.
Não apenas o do despertar sexual de Constance e Oliver
(Marina Hands e Jean-Louis Coul-loch), que criam na
floresta onde se encontram um éden sem classes: quanto
mais a protagonista estreita sua relação com
a natureza e com seu próprio desejo, mais essa sensualidade
adquire um efeito contagiante. A diretora fotografa de forma
inspirada esse lento florescimento, sublinhando os sons da
natureza, a mudança das estações e fazendo
com que até a fisionomia de Constance pareça
cada vez mais limpa e aberta. Ler Lawrence hoje pode ser mais
uma tarefa do que um prazer. Mas Lady Chatterley recupera
o achado verdadeiramente inovador e transgressivo do autor
a heroína que, em vez de ser punida pelo adultério,
como a pobre Emma Bovary, dá as costas a toda convenção
e insiste no júbilo que sua paixão lhe proporciona.