No período
de março a junho de 1905, um obscuro funcionário
do Escritório Federal de Propriedade Intelectual de
Berna, na Suíça, publicou quatro artigos na
revista científica Annalen der Physik. Nascido
em Ulm, na Alemanha, o jovem em abril completaria 26
anos trabalhava no tal escritório desde 1902,
analisando pedidos de patentes, e escrevera os textos em suas
horas vagas. O último deles, junto com um complemento
sobre as relações entre massa e energia, tornou
célebre o seu nome: Albert Einstein. Não era
para menos. Os textos constituíam a certidão
de nascimento da teoria da relatividade especial, que se tornaria
famosa pela equação E = mc2 (energia
é igual a massa vezes a velocidade da luz ao quadrado).
A trajetória do gênio que virou o mundo de cabeça
para baixo ao destruir os conceitos de tempo e espaço
absolutos, pregados pela física clássica, é
percorrida com fôlego admirável pelo americano
Walter Isaacson em Einstein Sua Vida, Seu Universo
(tradução de Celso Nogueira, Denise Pessoa,
Fernanda Ravagnani e Isa Mara Lando; Companhia das Letras;
656 páginas; 64 reais).
O livro começa
com os agradecimentos do autor. Na lista aparecem quase duas
dezenas de acadêmicos convocados para orientar a redação
de certas passagens tecnicamente espinhosas. Diante disso,
o leitor pode imaginar que terá pela frente uma biografia
pautada por longos arrazoados científicos. O que se
lê, no entanto, é um esforço notável
para evitar essa armadilha. Isaacson é didático,
paciente, dono de um ótimo senso de humor, e empenhou-se
verdadeiramente para se fazer acessível a um público
leigo. Não poderia ter encontrado melhor forma de ser
fiel ao biografado.
Einstein foi o
cientista mais popular de toda a história. Com ele,
a ciência ganhou um rosto: o seu. "Se ele não
tivesse o cabelo em pé, os olhos penetrantes, ainda
assim Einstein se tornaria o garoto-propaganda da ciência?",
pergunta Isaacson. E responde: "Seria esse o caso, creio.
Sua obra tem um caráter muito pessoal, uma marca que
a torna reconhecível, como um Picasso é imediatamente
reconhecido como sendo um Picasso. Suas teorias eram assombrosas,
e mesmo assim continham noções que capturavam
a imaginação popular". Essas características
natas de Einstein e de sua ciência de vanguarda
que se baseava na criatividade e nos vôos mentais, e
não nas experiências de laboratório
tornaram o físico alemão um personagem, como
se diria hoje, midiático. "Os repórteres
adoraram o fato de que o gênio recém-descoberto
não era nem um insosso nem um acadêmico reservado",
anota Isaacson. Disposto a manter um tom de equilíbrio,
contudo, o autor sublinha que a propalada aversão de
Einstein à publicidade "existia mais na teoria
do que na realidade".
Divulgação
Albert Einstein em 1905: o ano
miraculoso em que ele descobriu
sua famosa teoria da relatividade
Einstein demorou a falar quando pequeno. Até a empregada
da família se sentiu no direito de tomá-lo como
um garoto idiota. Esse quadro logo iria mudar. A biografia
de Isaacson põe uma pá de cal na versão
de que Einstein teria sido um péssimo aluno. No primário,
ele foi sempre um dos primeiros da classe. Só deixava
a leitura na hora de tocar violino. Antes dos 15 anos Einstein
já dominava os cálculos diferencial e integral,
aos 16 redigiu seu primeiro ensaio de física e com
17 entrou na faculdade, no setor que treinava professores
especializados em matemática e física.
Foi na Politécnica
de Zurique que ele conheceu aquela que seria sua primeira
mulher e mãe de seus filhos. A sérvia Mileva
Maric era a única aluna do grupo de Einstein na faculdade.
Três anos e pouco mais velha do que ele, Mileva era
manca e considerada feia até pelas amigas. Os pais
de Einstein abominavam o namoro. "Quando você fizer
30 anos, ela será uma bruxa velha", disse a mãe
em certa ocasião. Em 1902, quando ainda não
eram casados só oficializaram a união
em 1903 , Mileva e Einstein tiveram uma filha, Lieserl,
cuja existência só foi descoberta pelos pesquisadores
em 1986. Até hoje o episódio permanece nebuloso.
Grávida e reprovada pela segunda vez nos exames finais
da Politécnica, Mileva desistiu do curso e foi para
a Sérvia, a fim de ter a criança perto de seus
pais. Não se sabe se a menina morreu ou foi entregue
para alguém criá-la. "Einstein e a filha,
ao que parece, nunca puseram os olhos um no outro", diz
Isaacson.
O casal teria ainda
dois filhos, Hans Albert (1904) e Eduard (1910), porém
jamais reencontraria a paz dos primeiros anos de relacionamento.
A fama crescente de Einstein pesou muito para isso. O casamento
entrou em fase terminal no ano de 1912, quando Einstein reencontrou
uma prima, Elsa, também mais velha do que ele. Apaixonados,
eles iniciaram um caso. Corroída pelo ciúme,
Mileva se envolveria com outra pessoa, um professor de matemática.
Em julho de 1914, Einstein apresentou à mulher uma
proposta de cessar-fogo, uma espécie de contrato no
qual, observa Isaacson, "a abordagem científica
se unia à hostilidade pessoal, num documento assustador".
Sempre que as tensões
psicológicas se tornavam graves demais, Einstein se
afundava no trabalho. Com o matrimônio em crise, ele,
mais do que nunca, se dedicaria à formulação
da teoria da relatividade geral, que veio à tona em
1915. Convencido de que cedo ou tarde ganharia o Nobel de
Física, propôs a Mileva, em 1918, que, se ela
concedesse o divórcio, ele lhe daria o dinheiro do
prêmio. Depois de muitas idas e vindas, o contrato foi
firmado. O divórcio saiu em 1919 ano em que
um eclipse solar confirmou a teoria da relatividade geral,
que postulava que a luz se curvaria ao passar por um campo
gravitacional forte e Einstein se casou com Elsa. Quando
finalmente recebeu o Nobel, em 1922, ele cumpriu o acordo
com a ex-mulher.
Divulgação
O cientista com Mileva, sua
primeira mulher, e o filho Hans Albert: sempre imerso
na especulação científica, ele foi
um marido difícil e um pai distante
Até 1925, sustenta o biógrafo, Einstein continuou
dando contribuições importantes à ciência.
Depois disso, passou a resistir aos avanços da física
quântica e mergulhou numa fracassada teoria do campo
unificado, pela qual buscava dar conta de toda a estrutura
do universo. As três últimas décadas da
vida do cientista, que morreu em 1955, seriam marcadas ainda
por um engajamento político cada vez maior particularmente
acentuado depois da chegada do nazismo ao poder, em 1933,
o que o levou a se estabelecer em definitivo nos Estados Unidos.
Trabalhando no Instituto de Estudos Avançados de Princeton,
Einstein recebeu a notícia de que a fissão nuclear
confirmara sua equação E = mc2. Mais
do que isso, que cientistas alemães estavam adiantados
na pesquisa atômica. Escreveu ao presidente Franklin
Roosevelt, chamando atenção para o perigo que
representava o domínio dessa tecnologia nas mãos
dos nazistas. "Isso exige ação", disse
Roosevelt ao terminar de ler a carta. Era o início
do processo que levaria à criação do
Projeto Manhattan, que desenvolveu a bomba atômica,
com as conhecidas conseqüências. Não por
acaso, a revista Time em sua edição de
1/7/46 sentenciou: "Albert Einstein não trabalhou
diretamente na bomba atômica. Mas foi o pai da bomba
de duas maneiras importantes: (1) foi sua iniciativa que inaugurou
a pesquisa sobre a bomba nos Estados Unidos; (2) foi sua equação
que tornou a bomba atômica teoricamente possível".
O cientista arrastaria
até seus últimos dias um desconfortável
sentimento de culpa por isso. Foi esse sentimento que o levou
a defender até a morte a criação de um
governo mundial "que tivesse o monopólio do poderio
militar". Por causa dessas idéias e de sua simpatia
pelo socialismo, Einstein foi investigado pelo FBI no início
dos anos 50. Tolice: o cientista condenava a ditadura soviética
com a mesma veemência com que fora contra o fascismo.
O mais curioso é que a investigação não
conseguiu levantar aquilo que era "o mais importante",
segundo Isaacson: a informação de que, na década
de 40, o cientista tivera um romance sem conseqüências
políticas com uma espiã da União
Soviética, Margarita Konenkova.
Quando Einstein
morreu, o responsável pela autópsia, o patologista
Thomas Harvey, do hospital de Princeton, decidiu embalsamar
o cérebro do cientista e guardá-lo consigo.
Cortou-o em pedaços, enfiou as partes dentro de dois
vidros de biscoito e rumou para a Universidade da Pensilvânia,
onde fatias microscópicas do órgão passariam
por análises minuciosas. Nunca se chegou a nada conclusivo.
"A questão relevante é como funcionava
a mente de Einstein e não o seu cérebro",
argumenta Isaacson. E completa: "O mundo já viu
muitos gênios petulantes. O que tornava Einstein especial
era que sua mente e sua alma eram temperadas pela humildade".
O físico
das multidões
Embora poucos
entendessem suas teorias, o físico alemão
Albert Einstein tornou-se um fenômeno de massas
em todo o mundo
Sua
primeira turnê pelos Estados Unidos, em 1921,
atraiu multidões. 10 000 pessoas acompanharam sua visita à
prefeitura de Nova York. Em Hartford, Connecticut, 15
000 pessoas seguiram seu desfile em um comboio de
100 carros
Em
Cingapura, mais de 600 pessoas da comunidade
judaica foram ao cais receber Einstein em sua turnê
asiática
Em
Tóquio, 2 500 pagantes compareceram a
uma palestra do físico sobre sua teoria da relatividade
e não havia tradução para
o japonês. 1 000 pessoas fizeram vigília em frente
ao quarto do hotel onde Einstein estava hospedado e
o receberam aos gritos quando ele apareceu na sacada
A
foto de Einstein com a língua de fora, tirada
no seu aniversário de
72 anos, ainda hoje é uma das dez imagens mais
utilizadas em publicidade