Uma pesquisa
da Organização Mundial de Saúde (OMS)
mostra que um quarto dos brasileiros não tem a vista
perfeita, mas 98% deles não consideram sequer a hipótese
de submeter-se a uma cirurgia para corrigir uma miopia ou
um astigmatismo.
Monica Weinberg
A primeira razão,
segundo aponta o estudo da OMS, é o preço dessas
operações, de 3 000 reais em diante. Outra tem
relação com um assumido desconhecimento sobre
a tecnologia e os resultados obtidos com a cirurgia. De acordo
com os especialistas, há, sim, casos em que o resultado
não é tão bom quanto o esperado, mas
eles se restringem a 5% do total. No geral, miopia, astigmatismo
e hipermetropia três dos problemas ópticos
mais freqüentes no Brasil são eliminados
por meio de laser, e não de bisturi, em minicirurgias
realizadas em minutos. Ao lado, os especialistas chamam atenção
para o bê-á-bá dos dois tipos mais comuns
(e eficazes) de intervenção, traçam um
panorama do que esperar no pós-operatório e
dizem por que, afinal, essa é uma hipótese que
deve, ao menos, ser considerada.
Tipo de cirurgia:
PRK (Photo-Refractive Keratectomy)
Como é:
com os olhos sob efeito de um colírio anestésico,
aplica-se um jato de laser sobre a córnea. Ao longo
de um minuto, o laser remove justamente as partículas
de tecido que determinam a falha de curvatura na córnea.
Se alguém acumula miopia e astigmatismo, por exemplo,
pode submeter-se a duas (ou até três) dessas
minicirurgias, uma após a outra Pós-operatório: as pessoas costumam se
queixar de dor e de uma sensação de areia nos
olhos na semana seguinte à cirurgia. É preciso
ainda usar lentes de contato protetoras, aplicar colírio
para manter a umidade dos olhos e tomar antiinflamatórios Indicação: para os casos mais leves de
astigmatismo e hipermetropia (até 2 graus) e de miopia
(4 graus) Nível de acerto: 95% das pessoas têm o
problema eliminado. As restantes em geral quem possui
córneas finas demais permanecem com graus residuais Comentário dos especialistas: a técnica
a laser é um avanço em relação
à velha operação com bisturi, praticada
até a década de 90. Costumava não funcionar
por uma razão: de fato eliminava a miopia, mas freqüentemente
causava hipermetropia. Isso porque, sem o grau de precisão
do laser, os médicos retiravam tecido em excesso da
córnea Preço: 3 000 reais
Tipo de cirurgia:
Lasik (Laser in-Situ Keratomileusis)
Como é:
à anestesia com colírio segue-se um jato
de laser com o objetivo de deslocar da parte externa da córnea
uma lasca finíssima, do tamanho da pupila. Com isso,
tem-se acesso à porção interna da córnea,
onde estão as falhas mais acentuadas de curvatura.
É lá que incidirão novos feixes de laser,
dessa vez para corrigir os eventuais desvios. Se a pessoa
sofrer de miopia e astigmatismo, por exemplo, poderá
resolver os dois problemas na mesma operação.
Isso feito, encaixa-se novamente a "tampa" que havia
sido deslocada da córnea. Ela voltará a aderir
aos olhos Pós-operatório: não é dolorido;
exige, no entanto, certos cuidados básicos até
que a córnea descolada durante a cirurgia se fixe novamente.
São cerca de quinze dias sem coçar os olhos,
evitando ainda lugares empoeirados. O pó em excesso
pode causar infecções Indicação: quando os problemas são
mais acentuados. Leia-se: a partir de 2 graus de astigmatismo
ou hipermetropia e de 4 graus de miopia Nível de acerto: 95% das pessoas saem totalmente
curadas. As outras (de novo, aquelas que têm a córnea
mais fina) continuam com cerca de 1 grau do problema que motivou
a operação Comentário dos especialistas: é uma operação
menos dolorosa, porém de recuperação
mais penosa do que a da PRK. Muita gente sai da cirurgia sem
saber que pode enxergar embaçado durante um mês,
caso a córnea removida demore a aderir aos olhos Preço: 6 000 reais
Digital Vision/Royalty
Free
O empresário Marco Antônio Araújo,
45 anos, submeteu-se a uma cirurgia da qual saiu sem
8 graus de miopia e 2 de astigmatismo. "Era escravo dos óculos. É uma alegria
ver o mundo sem eles"
A hora do diagnóstico
Antes da cirurgia,
é necessário submeter-se a exames que ajudam
no diagnóstico do problema e fornecem dados valiosos
à operação. Para que serve cada um:
Paquimetria Por meio de um feixe de
luz, mede-se a espessura da córnea para saber exatamente
quanto retirar dela. Para as pessoas com córneas finas
demais menos de 0,40 milímetro de espessura
, a cirurgia é contra-indicada. Também
está cientificamente provado que, para quem tem córneas
entre 0,40 e 0,52 milímetro de espessura, é
mais difícil sair da operação tendo eliminado
100% do problema. Isso porque há escassez de tecido
a ser removido
Topografia Produz um mapa da superfície
da córnea. Por suas irregularidades, ela costuma ser
comparada ao chão da Lua. É justamente das regiões
mais salientes, devidamente apontadas pelo exame, que o médico
poderá retirar mais tecido intervenção
necessária para a correção da curvatura.
Esse exame é feito em conjunto com a paquimetria
Análise
de frente de ondas (ou
wavefront) Um aparelho envia aos olhos
mais de 1 000 pontos luminosos, capazes de flagrar qualquer
minúsculo desvio da luz. Com isso, além de tudo
o que os demais exames informam, este ainda consegue revelar
pequenas imperfeições nas regiões mais
internas dos olhos. Dessa forma, o médico pode corrigi-las
no momento da operação, o que evita a necessidade
de nova intervenção no futuro. Acontece em 10%
dos casos
Comentário
dos especialistas: o wavefront custa três
vezes mais do que os outros dois exames juntos, mas é
um investimento de bom custo-benefício, por reduzir
o risco de nova operação a médio prazo
Uma questão
de curvatura
Os problemas
de visão e como a operação ajuda a eliminá-los
Astigmatismo O que é: a curvatura da córnea é
irregular. Por isso, a luz que incide sobre ela chega
à retina em ângulos alterados o que
produz a imagem embaçada Efeito da cirurgia: ao retirar o excesso de tecido
da região mais protuberante da córnea, cria
uma superfície uniforme e elimina, assim, o astigmatismo
Hipermetropia O que é: a córnea praticamente prescinde
de curvatura, o que atrasa o encontro dos feixes de luz.
Isso só vai ocorrer depois da retina. Pessoas com
esse problema não conseguem ver de perto com a
devida nitidez Efeito da cirurgia: remove os tecidos periféricos
da córnea com o objetivo de lhe conferir uma curvatura
Miopia O que é: a curvatura da córnea
é acentuada demais. Ao contrário da hipermetropia,
o problema aí é que a imagem se forma
antes da retina. Tira o foco das imagens vistas de longe Efeito da cirurgia: deixa a córnea mais
plana ao retirar tecido da parte central dela
Fontes: Andrea Kara José (da
Universidade Federal de São Paulo); César
Lipener (da Universidade Federal de São Paulo);
Francisco Ventura (designer de óculos); Miguel
Ângelo Padilha (da Sociedade Brasileira de Oftalmologia);
Newton Kara José (da Universidade de São
Paulo); Renato Ambrósio (da Universidade Federal
Fluminense); Wallace Chamon (do Conselho Brasileiro
de Oftalmologia)