Com o enfraquecimento
do dólar, a moeda européia emergiu como o novo
símbolo monetário da estabilidade. Depois que
VEJA revelou há dois meses que a modelo mais bem paga
do mundo, Gisele Bündchen, exigiu que um contrato com
uma empresa cosmética fosse denominado em euros, a
moeda européia entrou na moda. A notícia de
VEJA foi reproduzida em jornais, revistas e televisões
de todo o mundo. Logo se seguiram outras. O cantor de rap
americano Jay-Z lançou um clipe em que mostra notas
de euro como status de riqueza. O investidor Warren Buffett
também disse não querer saber do dólar.
Até os fanfarrões Hugo Chávez e Mahmoud
Ahmadinejad, presidentes da Venezuela e do Irã, cutucaram
o símbolo do poderio econômico americano durante
uma reunião da Organização dos Países
Exportadores de Petróleo (Opep). "A queda do dólar
não é apenas a queda do dólar. É
a queda do império americano", animou-se Chávez.
Por que a moeda da maior potência do planeta, responsável
por um quinto de toda a economia mundial, virou alvo de tamanho
desdém?
A queda do dólar
reflete, em essência, o desequilíbrio das contas
públicas e externas dos Estados Unidos, os chamados
déficits gêmeos. Trata-se de um problema sério,
mas não permanente. Quando assumiu a Presidência,
em 2001, George W. Bush encontrou mais de 200 bilhões
de dólares em caixa. Com a gastança das guerras
deflagradas depois do 11 de Setembro, esse saldo positivo
virou um déficit superior a 500 bilhões de dólares.
O efeito disso sobre o câmbio é devastador. Para
financiar esse rombo, os Estados Unidos dependem de recursos
estrangeiros, o que aumenta sua dívida externa e enfraquece
a moeda. Além disso, para cobrir o saldo negativo de
sua balança comercial, precisam receber do exterior
2 bilhões de dólares em investimentos por dia.
Enquanto o país crescia rapidamente, conseguia atrair
esse dinheiro. Mas agora o ritmo caiu, e o dinheiro externo
deixou de entrar na velocidade necessária.
E por que, então,
o dólar não pode ser descartado? Porque, paradoxalmente,
a saída para a armadilha econômica dos Estados
Unidos está justamente na queda do dólar. Quanto
mais baixa a cotação da moeda americana, mais
estrangeiros vão querer comprar ativos em dólares,
ao mesmo tempo que se incentiva a exportação
de produtos americanos. Segundo o economista Kenneth Rogoff,
professor de Harvard, o dólar terá de cair ainda
em torno de 18% para restabelecer o equilíbrio das
contas do país. "Esse ajuste terá de ser
suave, envolvendo várias moedas. Se todo mundo migrar
muito rápido para o euro, vai ser um tiro no pé",
afirma Nathan Blanche, da Tendências Consultoria.
É difícil
imaginar que os americanos entrem em ocaso tão cedo.
O capital humano é uma das principais maneiras de avaliar
a riqueza de um país. Nisso os Estados Unidos são
líderes indiscutíveis. No ranking das dez melhores
universidades do mundo, oito são americanas. O país
é responsável por um em cada três artigos
publicados em revistas especializadas.
Já não
é a primeira vez que se anuncia o declínio do
dólar. No início da década passada, quando
George Bush pai estava no comando, os Estados Unidos também
arcaram com o ônus de consertar problemas anteriores.
Mas logo em seguida, com a revolução da nova
economia, o país voltou a assumir um papel de liderança.
Ao contrário do que imagina o ideário antiamericano,
portanto, a atual crise do dólar não simboliza
a decadência do império americano assim
como a alta do petróleo não sinaliza virtudes
da ditadura do venezuelano Hugo Chávez. O dólar
cai porque nem a maior potência do mundo está
imune à mais comezinha regra de finanças públicas:
não se deve gastar mais do que se arrecada.