Um dos mais destacados
juristas brasileiros critica
a confusão legal do país e alerta contra a possibilidade
de os acusados do mensalão saírem impunes
Jerônimo Teixeira
Roberto Setton
"A legislação
brasileira parece feita só para inocentes. Os constituintes
olharam para o passado. Fizeram vários artigos
para proteger os presos das masmorras da ditadura"
"A
minha vida é a advocacia", diz Saulo Ramos. Aos
78 anos, esse paulista de Brodowski cidade do pintor
Candido Portinari, seu amigo participou de momentos
cruciais da vida pública brasileira. Foi oficial-de-gabinete
do governo de Jânio Quadros e defendeu políticos
e intelectuais de esquerda nos processos abertos pela ditadura
militar. No governo Sarney, serviu como consultor-geral da
República e ministro da Justiça. Também
foi advogado vitorioso do Senado no processo
que garantiu a cassação dos direitos políticos
de Fernando Collor de Mello, que renunciara antes do impeachment
na esperança de conservar a elegibilidade. As saborosas
histórias dessa longa carreira jurídica estão
reunidas em Código da Vida (Planeta), livro
de memórias que já teve 50 000 exemplares comercializados
e está há 23 semanas na lista de mais vendidos
de VEJA. Recentemente recuperado de um câncer, Ramos
segue ativo, mas afastado dos tribunais e fóruns
chega a cobrar 200 000 reais por um parecer jurídico.
Na entrevista a seguir, concedida em sua casa de campo em
Serra Negra, São Paulo, Ramos mostra por que é
uma das mentes jurídicas mais aguçadas do país.
Veja A Constituição brasileira está para
fazer vinte anos. Ela serviu bem ao Brasil neste tempo? Ramos Na essência, sim. Ela assegurou
o estado de direito, com forte concreção dos
direitos fundamentais, das liberdades individuais e públicas.
Foi mais abrangente do que as constituições
anteriores em muitos aspectos importantes, no processo legislativo,
na criação da Advocacia-Geral da União,
nas cláusulas pétreas. Mas não deixou
de ser um desastre no sistema tributário. Criou condições
para os entes federativos instituírem tributos de todos
os tipos. Provocou outro desastre, e maior, no sistema financeiro,
que acabou sendo revogado, inclusive naquela teratológica
fixação de juros reais em texto constitucional.
Exigiu um número excessivo de leis ordinárias
285 e complementares 41 para dar
eficácia aos seus comandos e até hoje ainda
depende de interpretações do Supremo Tribunal
Federal.
Veja A
sociedade não acaba prejudicada por esses excessos
legislativos? Ramos
Nosso país sofre contradições enormes
em matéria de leis. Há algumas excelentes, outras
medíocres, discriminatórias e mal redigidas.
Somente em matéria de leis tributárias tivemos,
a partir de 1988, a edição de 225.600 normas
federais, estaduais e municipais, isto é, 36 normas
tributárias por dia, o que enlouquece contribuintes
e advogados. No processo legislativo, passamos ao abuso deslavado
de legislar por medidas provisórias em quase todas
as matérias, sem urgência e sem relevância,
como exige a Constituição. O processo legislativo
tem sido violentamente deturpado, e isso desfigura a democracia,
pois o Congresso não legisla corretamente, o Judiciário
não tem instrumentos científicos para aplicar
o direito, o povo não sente legitimidade nem segurança
na ordem jurídica.
Veja Julgamentos
recentes do Supremo Tribunal Federal, como o da fidelidade
partidária, levantaram críticas de que o Poder
Judiciário estaria interferindo indevidamente no legislativo.
Isso procede? Ramos
Não é verdade. O Congresso Nacional parou de
trabalhar. O que o Supremo tem feito é suprir as falhas
do Congresso, interpretando o conjunto das normas constitucionais.
Se o Supremo deduziu que o mandato do político eleito
pertence ao partido, é porque esse é o sistema
previsto na Constituição. O Supremo também
chegou à conclusão de que o funcionário
público, para fazer greve, precisa de uma lei que a
regule. Como o Congresso nunca editou essa lei, aplicou-se
supletivamente a lei que rege o direito de greve dos trabalhadores
privados. Outro exemplo possível: a Constituição,
nos direitos individuais, diz que ninguém pode ser
compelido a fazer parte de uma associação. Nos
direitos sociais, diz que ninguém pode ser obrigado
a filiar-se a sindicato. Se esses dois comandos constitucionais
não obrigam ninguém a se filiar a sindicato,
então não pode haver cobrança obrigatória
de contribuição sindical. Se amanhã alguém
chegar ao Supremo, pelas vias processuais que a nossa lei
admite, e argüir essa matéria, ele acaba com a
contribuição, sem necessidade de lei.
Veja A denúncia do mensalão foi quase integralmente
aceita pelo STF. Mas Fernando Collor de Mello, mesmo cassado
no Congresso, acabou inocentado por razões técnicas
no Supremo. Não há o risco de que o mesmo se
repita agora? Ramos A denúncia contra Collor era
inepta. Atribuía a PC Farias o crime de concussão,
do qual Collor seria co-autor. PC Farias jamais poderia ser
denunciado por concussão porque não era funcionário
público. Esse defeito técnico livrou o autor
do crime, e portanto também o co-autor. A denúncia
do mensalão, ao contrário, está muito
bem embasada. Aponta os fatos praticados por cada um dos réus,
com motivos e circunstâncias. Claro que o STF está
no início, apenas. O direito de defesa assegurado pela
Constituição será exercido pelas pessoas
arroladas na denúncia. Mas ficou demonstrado ao país
que houve o mensalão. E foi praticado com a permissão
clara do governo. A história de Lula dizer que não
sabe nada é uma agressão à inteligência
dos brasileiros.
Veja Não há risco de os crimes dos mensaleiros
prescreverem por causa da demora do julgamento? Ramos A demora é um
problema para a Justiça brasileira em geral. Quando
o cliente é culpado, a saída, para o advogado,
é pedir provas, diligências, precatórios,
ouvir uma testemunha no Rio Grande do Sul e outra no Acre,
para ganhar tempo até a prescrição. No
caso do mensalão, a prescrição é
o maior risco. O Supremo não tem estrutura para fazer
instrução probatória, ainda mais com
tantos réus. E não existe apenas a prescrição
técnica, jurídica: com a demora do julgamento,
a opinião pública também esquece do caso,
e fica mais fácil para a defesa trabalhar.
Veja A
ineficiência e a demora da Justiça são
as principais causas da impunidade? Ramos O
problema é que a legislação brasileira
parece feita só para inocentes. Os constituintes olharam
para o passado, não para o futuro: fizeram vários
artigos para defender os presos políticos das masmorras
da ditadura. Por exemplo, tem um artigo que diz que ninguém
é considerado culpado enquanto não transitar
em julgado a sentença condenatória. O jornalista
Pimenta Neves é um exemplo: embora seja réu
confesso e já tenha sido condenado em primeira instância
por assassinato, está em liberdade. Então, a
culpa não é exclusiva do Judiciário.
O juiz não pode julgar contra a lei.
Veja Como se corrigem
esses problemas? Ramos É preciso alterar a legislação
toda, tanto na Constituição quanto nas leis
infraconstitucionais. Primeiro, tem de mudar esse conceito
da Constituição de que o sujeito é inocente
até trânsito em julgado. Depois, na legislação
penal, tem de estabelecer que condenado em primeira instância
deve começar a cumprir a pena. Não pode apelar
em liberdade.
Veja O
presidente Lula teve a oportunidade de nomear sete dos onze
ministros do STF. Ele fez boas indicações? Ramos Na maioria, sim. Há uma minoria,
uns dois ou três, que é intelectualmente mais
fraca.
Veja Quem
são eles? Ramos
É
constrangedor citar nomes. Mas é só acompanhar
os julgamentos do Supremo para ver quem é a minoria.
Ficam brincando com o laptop. São culturalmente mais
fracos.
Veja O senhor já foi advogado do ex-deputado Ronaldo
Cunha Lima, que agora renunciou para não ser julgado
pelo STF. Essa foi uma manobra legítima? Ramos Casos como esse são jabuticabas
jurídicas: só existem no Brasil. Fui advogado
de Ronaldo Cunha Lima quando começou o processo. Consegui
que ele fosse solto com um pedido de habeas corpus
o primeiro no Brasil feito por fax. Depois, ele prosseguiu
o processo com outros advogados. A renúncia ao mandato
teria de sustar o processo contra ele no Supremo, porque ele
deixava de ter foro privilegiado. O ministro Joaquim Barbosa,
sem a necessária serenidade de magistrado, entendeu
tratar-se de um desaforo. É isso mesmo: desaforamento
da ação penal. É um legítimo direito
de defesa do réu. Não acredito que o Supremo
prosseguirá no julgamento de um cidadão comum,
não mais deputado.
Veja Nas suas memórias,
o senhor conta que foi convidado a ser ministro da Justiça
e advogado do governo Collor, com pagamento de honorários.
Como foi isso? Ramos Foi quando começaram a pipocar
os escândalos com PC Farias. Um alto membro do governo,
meu conhecido, me convidou, em nome do presidente, para ser
ministro da Justiça, pagando honorários de 10
milhões de dólares. Já me censuraram
por não ter revelado isso na época. Ora, advogado
não sai por aí gritando "fui consultado
por fulano ou sicrano". Resolvi contar agora no meu livro
porque é um fato único na história do
Brasil. Um ministro da Justiça é um auxiliar
do presidente da República. Ele pode assessorar como
advogado em casos pessoais do presidente da República?
Ele é auxiliar para tudo? São perguntas que
eu mesmo me fiz então.
Veja E um ministro pode agir como advogado? Ramos A minha resposta é negativa,
tanto que não aceitei o convite do Collor.
Veja Mas o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz
Bastos concebeu as teses jurídicas para defender o
governo Lula no caso do mensalão. Ramos Ele agiu como advogado, e não
posso censurar um colega meu, sobretudo quando é bom
advogado. Márcio criou a tese do caixa dois, que melhorou
um pouco o julgamento popular sobre o governo. Também
criou a tese do "Lula não sabia de nada".
É sempre melhor não saber nada do que dar explicação.
Agora, há um gesto simbólico do Márcio
que pouca gente entendeu. Ele saiu do governo. É um
gesto silencioso, mas muito significativo da discordância.
Veja O senhor é muito crítico da atuação
de Fernando Henrique Cardoso durante a Constituinte. Por quê? Ramos Fernando Henrique queria implantar
o parlamentarismo em um momento em que não era legítimo
sob o ponto de vista do direito. O povo já tinha decidido,
no plebiscito de 1963, que o sistema era presidencialista.
Isso só poderia ser mudado, segundo toda a técnica
do direito constitucional, através de outro plebiscito.
Para aprovar o parlamentarismo na Assembléia Constituinte,
Fernando Henrique criou uma Comissão de Sistematização
com poderes especiais. Para derrubar o que a comissão
aprovava por maioria de 47 votos, eram necessários
280 votos do plenário. Os constituintes da comissão
eram de primeira classe, e os do plenário, de segunda.
Eu denunciei isso. Mostramos que era uma fraude.
Veja Como
presidente, Fernando Henrique não andou sempre dentro
dos marcos institucionais? Ramos Sim, andou. Mas ele, por exemplo,
era a favor do tabelamento de juros pela Constituição.
Ele e o Fernando Gasparian lutaram muito para botar o limite
de 12% de juros na Constituição. Isso ia quebrar
o país, com aquela inflação galopante.
Eu dei um parecer, na Consultoria-Geral da República,
de que aquele artigo precisava de lei para ter eficácia.
Fernando Henrique veio brigar comigo. "Você pensa
que suspende a Constituição com parecer jurídico?"
Não só pensava, como suspendi. O Supremo pensou
igual a mim e manteve a suspensão. Na Presidência,
quem mais praticou juros altos foi o Fernando Henrique. Ele
tem essas posições dúbias. Como ele é
inteligente, digo que isso é perigoso.
Veja O senhor também qualificaria Lula como perigoso? Ramos O perigo do Lula é a tendência
permanente à demagogia de palanque. E o risco está
no demagogo se endeusar, achar que pode tudo. É o caso
do Hugo Chávez, na Venezuela.
Veja Se Lula tentar, consegue aprovar uma emenda constitucional
para obter um terceiro mandato? Ramos Eu acredito que nesse ponto a sociedade
vai reagir. A meninada vai pintar a cara de verde e amarelo
de novo. Seria o fim do estado de direito no Brasil.
Veja O senhor foi ministro da Justiça no governo de José
Sarney e é até hoje muito próximo dele.
O que pensa ao vê-lo na base de sustentação
do governo Lula? Ramos Sarney prestou ao Brasil um serviço
de grande relevância quando assumiu a Presidência
da República como vice de Tancredo Neves. Os militares
não se conformavam com a vitória do Tancredo
e queriam botar os tanques na rua de novo. Sarney e Leônidas
Pires Gonçalves, o ministro do Exército nomeado
por Tancredo, souberam conduzir isso com muita habilidade.
Sarney deveria ter parado no momento de glória. Mas
ele continuou na política, e a política tem
dessas coisas. A campanha que ele faz para o Senado, no Amapá,
é no mato, nos mangues, regiões inóspitas.
Ele toma cachaça em botequim e anda de canoa em rios
e igarapés. Para quem está acostumado com isso,
não custa nada entrar na canoa furada que é
o governo Lula.
Veja O senhor atuou,
em 1979, na proibição de O Rei e Eu,
livro em que Nichollas Mariano, mordomo de Roberto Carlos,
fazia revelações sobre a intimidade do cantor.
A recente proibição de Roberto Carlos em
Detalhes, biografia de Paulo Cesar de Araújo, é
um caso comparável? Ramos Os dois casos são
muito diferentes. No tempo de O Rei e Eu, estávamos
sob a Constituição de 1967, que não era
tão liberal quanto a atual. E o livro do mordomo não
tem um caso que seja verdade. Era tudo mentira. Foi uma briga
judicial grande para apreender e queimar o livro antes de
ele sair. Já o livro mais recente é uma biografia
perfeita. Não tem um ataque moral contra o Roberto.
O Roberto me consultou e eu o aconselhei a não tomar
nenhuma providência. Eu recusei a causa, e ele procurou
outros advogados. Agora, não houve, nesse caso, condenação,
mas um acordo. A Planeta, que é a minha editora, capitulou
diante do desejo do Roberto.