Claudio
de Moura Castro
O drama da evasão
de cérebros
"Temos
um problema de evasão de cérebros:
ela é insuficiente. Precisamos perder engenheiros
e empresários para que eles voltem no futuro com
uma experiência que não se aprende na escola"
Ilustração Ale Setti
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Pobre ao extremo, a África perde boa parte de seus cérebros
para os países ricos. A Rússia perdeu metade de seus cientistas.
A Índia perde anualmente doutores que custaram 2 milhões
de dólares ao erário. Das Filipinas emigram milhares de
universitários. Metade da população de El Salvador
mudou-se para os Estados Unidos. Desde fins dos anos 60, denuncia-se no
Brasil a perda de cérebros, pois tangidas pelo governo militar
saíram do país figuras de grande visibilidade (como o nosso
atual presidente da República). A partir de então, não
pararam as denúncias de irreparáveis perdas de cérebros.
De fato,
os países da África e muitos outros perdem seus poucos cientistas.
Péssimo para os países, bom para os que conseguem trabalho
produtivo, excelente para quem os recebe. Mas a realidade dos números
esconde estranhas surpresas. Por perder milhares de doutores, a Índia
criou uma diáspora nos Estados Unidos que hoje contrata 6 bilhões
de dólares de serviços de programação na Índia.
Os emigrados de El Salvador fazem mais remessas para seu país do
que faturam suas exportações. As Filipinas formam enfermeiras
justamente para ser exportadas; bom negócio, pois recuperam nas
remessas mais do que gastam em sua educação.
Mas o caso
realmente curioso é o do Brasil. Diante das denúncias de
evasão de cérebros, foram criadas políticas para
encorajar sua volta. Só que praticamente ninguém voltou.
A pesquisa da Unitar, feita no início dos anos 70, mostrou por
quê. O número dos que tinham saído era tão
pequeno que não havia quem voltar. Não só a evasão
era ilusória, como o país havia se tornado um local de destino
para cientistas de outras nações (sobretudo Argentina, Índia
e Estados Unidos), que hoje correspondem a 4% de nossos pesquisadores.
De lá
para cá, em que pesem as denúncias ocasionais, os dados
evidenciam claramente que o país continuou sem perder seus cérebros.
Em linha com tais números, os registros da Capes e do CNPq mostram
até agora um retorno de quase todos os que saem para fazer doutoramento
no exterior. E os escritórios dos headhunters estão lotados
de bons executivos querendo vir para o Brasil.
Ora pois,
então não constitui problema a evasão de cérebros
tupiniquins? Lamentável engano. Temos um problema grave. A ciência
se internacionaliza. As empresas têm de operar globalmente (quando
nada, para exportar). Os bons negócios se fazem entre pessoas internacionalizadas.
Estamos em dupla desvantagem. Temos atávicos vícios de auto-suficiência
e isolamento. (Ir à Disney World não resolve!) O segundo
defeito é que não temos uma diáspora para funcionar
como a janela do Brasil para o mundo, como os milhares de coreanos que,
do exterior, alimentam seu país com as tecnologias de que necessitam.
Quase não
há brasileiros no exterior, seja nas universidades, nos organismos
internacionais ou no mundo empresarial. Para o Brasil, essa diáspora
seria de importância vital para gerar colaboração
nas pesquisas, para convidar para os seminários, para receber o
último paper, para consultorias, para vacinar nossa ciência
contra o isolamento intelectual. Coréia e Taiwan mais ou menos
empatam com o Brasil em produção científica, mas
muitos de seus autores estão no exterior, arejando e internacionalizando
sua pesquisa.
Portanto,
temos um problema de evasão de cérebros, só que é
o oposto. Nossa evasão é insuficiente, é pífia.
Produzimos 5.000 doutores por ano. Precisamos
perder alguns deles para que, assim, possam irrigar nossa ciência
e tecnologia com os ares dos grandes centros produtores. Precisamos perder
engenheiros e empresários para que, mais adiante, eles voltem com
uma experiência que não se aprende na escola.
Nossas políticas
de bolsas de estudo punem os que não voltam imediatamente. É
dinheiro público, é fácil entender os escrúpulos
das agências. Mas que não voltem alguns poucos é o
preço a pagar, apostando que retornem, ainda que seja por curtos
períodos, para dar cursos ou colaborar com os que ficaram. O drama
maior da evasão de cérebros brasileiros é sua ausência.
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)
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