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Edição 1 728 - 28 de novembro de 2001
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Claudio de Moura Castro

O drama da evasão
de cérebros

"Temos um problema de evasão de cérebros:
ela é insuficiente. Precisamos perder engenheiros
e empresários para que eles voltem no futuro com
uma experiência que não se aprende na escola"



Ilustração Ale Setti


Pobre ao extremo, a África perde boa parte de seus cérebros para os países ricos. A Rússia perdeu metade de seus cientistas. A Índia perde anualmente doutores que custaram 2 milhões de dólares ao erário. Das Filipinas emigram milhares de universitários. Metade da população de El Salvador mudou-se para os Estados Unidos. Desde fins dos anos 60, denuncia-se no Brasil a perda de cérebros, pois tangidas pelo governo militar saíram do país figuras de grande visibilidade (como o nosso atual presidente da República). A partir de então, não pararam as denúncias de irreparáveis perdas de cérebros.

De fato, os países da África e muitos outros perdem seus poucos cientistas. Péssimo para os países, bom para os que conseguem trabalho produtivo, excelente para quem os recebe. Mas a realidade dos números esconde estranhas surpresas. Por perder milhares de doutores, a Índia criou uma diáspora nos Estados Unidos que hoje contrata 6 bilhões de dólares de serviços de programação na Índia. Os emigrados de El Salvador fazem mais remessas para seu país do que faturam suas exportações. As Filipinas formam enfermeiras justamente para ser exportadas; bom negócio, pois recuperam nas remessas mais do que gastam em sua educação.

Mas o caso realmente curioso é o do Brasil. Diante das denúncias de evasão de cérebros, foram criadas políticas para encorajar sua volta. Só que praticamente ninguém voltou. A pesquisa da Unitar, feita no início dos anos 70, mostrou por quê. O número dos que tinham saído era tão pequeno que não havia quem voltar. Não só a evasão era ilusória, como o país havia se tornado um local de destino para cientistas de outras nações (sobretudo Argentina, Índia e Estados Unidos), que hoje correspondem a 4% de nossos pesquisadores.

De lá para cá, em que pesem as denúncias ocasionais, os dados evidenciam claramente que o país continuou sem perder seus cérebros. Em linha com tais números, os registros da Capes e do CNPq mostram até agora um retorno de quase todos os que saem para fazer doutoramento no exterior. E os escritórios dos headhunters estão lotados de bons executivos querendo vir para o Brasil.

Ora pois, então não constitui problema a evasão de cérebros tupiniquins? Lamentável engano. Temos um problema grave. A ciência se internacionaliza. As empresas têm de operar globalmente (quando nada, para exportar). Os bons negócios se fazem entre pessoas internacionalizadas. Estamos em dupla desvantagem. Temos atávicos vícios de auto-suficiência e isolamento. (Ir à Disney World não resolve!) O segundo defeito é que não temos uma diáspora para funcionar como a janela do Brasil para o mundo, como os milhares de coreanos que, do exterior, alimentam seu país com as tecnologias de que necessitam.

Quase não há brasileiros no exterior, seja nas universidades, nos organismos internacionais ou no mundo empresarial. Para o Brasil, essa diáspora seria de importância vital para gerar colaboração nas pesquisas, para convidar para os seminários, para receber o último paper, para consultorias, para vacinar nossa ciência contra o isolamento intelectual. Coréia e Taiwan mais ou menos empatam com o Brasil em produção científica, mas muitos de seus autores estão no exterior, arejando e internacionalizando sua pesquisa.

Portanto, temos um problema de evasão de cérebros, só que é o oposto. Nossa evasão é insuficiente, é pífia. Produzimos 5.000 doutores por ano. Precisamos perder alguns deles para que, assim, possam irrigar nossa ciência e tecnologia com os ares dos grandes centros produtores. Precisamos perder engenheiros e empresários para que, mais adiante, eles voltem com uma experiência que não se aprende na escola.

Nossas políticas de bolsas de estudo punem os que não voltam imediatamente. É dinheiro público, é fácil entender os escrúpulos das agências. Mas que não voltem alguns poucos é o preço a pagar, apostando que retornem, ainda que seja por curtos períodos, para dar cursos ou colaborar com os que ficaram. O drama maior da evasão de cérebros brasileiros é sua ausência.

 

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)


 
 
   
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