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Roberto Pompeu de Toledo

Iguais no pecado
da retórica

Ao dizer-se arauto do Bem, Bush
iguala-se ao inimigo, que chama
os Estados Unidos de Grande Satã

O presidente George W. Bush acredita-se empenhado numa guerra do bem contra o mal. Ou melhor, do Bem contra o Mal – promovamos as duas palavras à nobreza da inicial maiúscula para lhes dar o peso que merecem. Desde o começo do atual conflito, vale dizer, desde o infame ataque terrorista contra as torres gêmeas de Nova York e o Pentágono, Bush adotou a retórica do Bem contra o Mal. Ainda na semana passada, voltou a ela. "O Mal não prevalecerá", disse. O.k., os terroristas são bandidos e o ato que praticaram foi maligno. Estiveram a serviço da destruição e da morte. Foram maus, portanto. Mas, quando se adota uma linguagem como a de Bush, está-se indo além, bem além de meramente classificar os praticantes do ato terrorista de malvados. Está-se conferindo realidade ao Mal, com maiúscula. O Mal existe em si e por si. Por conseqüência, existe também o Bem. Revogam-se a dialética, a política, a economia, a sociologia e a psicologia para procurar refúgio no Absoluto. Está-se diante não de uma guerrinha contingente qualquer, mas da luta última. O discurso político apropria-se da linguagem religiosa, e traveste-se de luta cósmica, similar à da Luz contra a Treva, da Verdade contra a Mentira, do Bem contra o Mal.

Bush não é o primeiro presidente americano a lançar mão de tal retórica. Ele não faz mais do que retomar Ronald Reagan, que chamou a União Soviética de "Império do Mal". Soa esquisito que o presidente de um Estado laico, no ambiente secular e democrático que é o do Ocidente desenvolvido, venha a adotar tal linguagem, mas não é difícil achar explicações. Por um lado, os Estados Unidos, desde os caubóis que arrostavam os inimigos no Oeste inóspito até os filmes da Guerra nas Estrelas, criaram uma cultura lastreada no avanço dos bons contra os maus, dos retos contra o tortos, tão fértil, essa cultura, como doutrina edificante e mito fundador da pátria quanto como fornecedora de temas para a indústria do entretenimento. Não por acaso, Bush e Reagan são eles próprios duas figuras retardatárias de caubóis, ambos donos de ranchos, ambos dados a posar de botina e chapelão. Num presidente como Bill Clinton, de extração liberal, e mais refinado intelectualmente, o discurso do Bem contra o Mal só seria cabível como ironia. Em Bush e Reagan, combina com o tipo bronco mas, como um sacerdote, impregnado de certezas.

Por outro lado os Estados Unidos são, no Ocidente desenvolvido, o país mais religioso e mais permeável aos fundamentalismos. Político americano vive invocando o nome de Deus. Não se concebe político francês ou inglês que faça o mesmo. Nem italiano, apesar da intimidade com o papa, nem brasileiro, apesar de Deus, como sabemos, ser brasileiro. Curioso país, os Estados Unidos. É o mais avançado do mundo, inventor da internet, possuidor, de longe, das melhores universidades, e, ao mesmo tempo, palco de controvérsias como a que até hoje existe em torno da teoria evolucionista. O Estado do Kansas, não faz muito, proibiu o ensino do evolucionismo. Em outros Estados americanos, é obrigatório ensinar, ao lado do evolucionismo, o chamado "criacionismo", a tese do início do mundo como está na Bíblia. No discurso do Bem contra o Mal, tão extemporâneo quanto o criacionismo, pode-se identificar alguma vantagem. Ele injeta certeza a um mundo de incertezas. Confere fibra e propósito ao ambiente tão relaxado e tão relativizado do Ocidente do século XXI. O outro lado da balança é que ele rebaixa o presidente da maior potência a um simplismo de aiatolá.

Não há novidade na apropriação do discurso religioso pelo debate político. Os comunistas identificam no "burguês", no "capitalista", no "latifundiário" encarnações do vilão. Inversamente, os comunistas, para os anticomunistas, são comedores de criancinhas. Está-se, sem dizer seu nome, no discurso do Bem contra o Mal. Bush e Reagan dão um passo além porque dizem o nome. Entre os dois, e já que se falou de novo neles, Bush até tem mais credenciais do que Reagan para investir-se em guerreiro do Bem. O que o leva a tal foi uma agressão de proporções arrasadoras. Já Reagan não tinha fato comparável a servir-lhe de base. Nem se deve acreditar que chamou a União Soviética de Império do Mal pela perversidade intrínseca de seu regime. Fosse assim, teria de abrigar sob o mesmo epíteto também certos regimes amigos. Ele investiu contra a União Soviética porque ela se opunha aos interesses americanos.

Eis-nos diante de um dos motivos pelos quais a linguagem do Bem e do Mal se revela, além de extemporânea e absurdamente pretensiosa, também cínica. Invocam-se o sagrado, o absoluto, o transcendente, quando, na verdade, o que se defende são interesses. E isso não é tudo. Os Estados Unidos, ao se arvorarem em arautos do Bem, no presente caso, igualam-se ao inimigo. Para tipos como o aiatolá Khomeini e Osama bin Laden, os americanos são o Grande Satã. A linguagem é a mesma. Fica tudo muito rasteiro, muito brutamontes, muito vulgar.

   
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