|
"BOMBAS"
QUE SÃO UMA BOMBA
A
obsessão por corpos ultramusculosos
leva
ao consumo
desenfreado de anabolizantes
Ariel Kostman
Fotos Claudio Rossi
 |
 |
| Participantes
de campeonatos de fisiculturismo nos EUA: riscos à saúde são
desprezados em prol do ganho de massa muscular exagerada |
Quando
decidiu, aos 18 anos, ter um corpo esculpido por músculos
bem torneados, Júlio (nome fictício) era um rapaz
franzino tinha 1,74 metro de altura, 30 centímetros
de bíceps, 70 de peitoral e 50 de coxa. Hoje, aos 34 anos,
ele é puro músculo. Seu muque cresceu 15,5 centímetros.
Seu tórax está meio metro mais largo e cada coxa,
25 centímetros mais grossa. Professor de educação
física, Júlio prefere se manter no anonimato. O motivo
é simples: ele usa substâncias ilegais para ser forte
e massudo. "Dois meses depois que comecei a tomar as drogas, ganhei
4 quilos de músculos", lembra. "Sem as bombas, levaria um
ano para chegar ao mesmo resultado." As tais "bombas" são
os esteróides anabolizantes, hormônios sintéticos
capazes de fazer a massa muscular estufar. Eles podem ser injetados
ou tomados sob a forma de comprimido. Seriam uma maravilha se não
tivessem o efeito de um míssil atômico sobre o organismo.
Podem causar insuficiência cardíaca, crescimento de
mamas nos homens, aumento nas taxas de colesterol, impotência,
hipertensão, câncer de fígado, infertilidade
e aparecimento de pêlos no rosto das mulheres, entre outros
problemas graves. Júlio, por exemplo, já foi vítima
de uma intoxicação no fígado, semelhante àquela
que acomete os alcoólatras.
Na
surdina, as drogas são vendidas nas academias de ginástica
e nas farmácias. Seu consumo é crescente. O maior
levantamento sobre o uso de "bombas" no Brasil foi feito pelo Programa
de Prevenção e Tratamento do Uso de Drogas na USP
(Produsp), da Universidade de São Paulo. A pesquisa, que
abarcou quase 1 500 jovens, de 18 a 25 anos, mostra que 25% deles
já usaram essas substâncias pelo menos uma vez na vida.
Em 1996, os usuários de anabolizantes não passavam
de 0,5% dos entrevistados. Derivados da testosterona, o hormônio
masculino por excelência, os anabolizantes aumentam a capacidade
do organismo de sintetizar proteínas que funcionam
como tijolos de músculos. Além disso, essas substâncias
retêm líquido, o que incha ainda mais a massa muscular.
O resultado são homens e mulheres deformados.
Os
especialistas são unânimes: menos de 1% dos homens
e mulheres com corpos inflados estão programados biologicamente
para ter músculos que, de tão grandes e definidos,
parecem querer rasgar a pele. A maioria das pessoas pode se esfalfar
na academia, comer proteínas até não mais poder
e se entupir de suplementos alimentares, sem que jamais alcance
o físico de um mister Universo. O limite de cada um é
determinado geneticamente. "Mas os esteróides permitem romper
esse teto biológico de musculatura e atingir um nível
muito além do que a mãe natureza jamais pretendeu",
escreveu o psiquiatra americano Harrison Pope, no livro O Complexo
de Adônis.
A
explosão dos anabolizantes reflete de maneira mais dramática
o crescente desagrado dos homens com o próprio corpo. Seriam
a versão masculina das "bolinhas" para emagrecer que afetam
a saúde de milhões de mulheres. Uma pesquisa feita
em 1972 detectou que 15% dos homens americanos estavam insatisfeitos
com a sua aparência. Em 1997, eram 43%. O grande terror masculino
ao menos no que se refere à estética
é mesmo a falta de músculos. E o padrão é
cada vez mais anabolizado. Os bonecos para meninos são um
exemplo disso. O primeiro Falcon, lançado em 1964 nos Estados
Unidos, não tinha músculos. Na versão de 1974,
a primeira a chegar ao Brasil, ele já era fortinho. Mais
de vinte anos depois, Falcon desapareceu. Em seu lugar, surgiu o
Action Man, um "homem-armário" (veja
quadro abaixo).
O
descaso com a saúde, em prol de bíceps esculpidos,
peitorais largos, abdome em gomos, cintura fina e coxas grossas,
pode ser verificado nos diálogos travados pela internet entre
os praticantes de fisiculturismo. Pela rede, são trocadas
informações sobre pontos-de-venda, preços,
quantidades mais eficientes de determinadas substâncias e
por aí vai. No mês passado, um internauta reclamou
numa das salas de bate-papo que, ao aplicar anabolizante pela primeira
vez, ficou com o braço dolorido. Ao que um tal de "Reginaldo
Farinha" respondeu: "Bicho, tá achando que tomar bomba é
só alegria? Tem essas lamas também. Dói um
pouco..." Na verdade, dói muito.
|