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Ecologia chique

Itacaré tem pouca gente,
quase nada de axé, muita
beleza – e quer continuar assim

Flávia Varella

 
Bruno Alves
Fernando Vivas
José Ruy Gandra
Combinação para poucos: praias deslumbrantes e estilo rústico sofisticado, como no bangalô e na piscina do Txai Resort, com diárias a 680 reais

O que o herdeiro da Rede Globo, José Roberto Marinho, o banqueiro Daniel Dantas, o roqueiro Marcelo Bonfá, o tenista Gustavo Kuerten, o principesco Joãozinho de Orleans e Bragança, o presidente da AmBev, Marcel Telles, a apresentadora de TV Babi e a atriz Maitê Proença têm em comum nas horas de lazer? Além das vantagens do dinheiro e da fama, todos eles descobriram mais ou menos recentemente as praias de Itacaré. Localizada na Costa do Cacau, no litoral sul da Bahia, Itacaré é o destino turístico mais cobiçado do momento para os bem de vida e de bem com a vida – aqueles poucos que aliam alto saldo bancário com disposição para vasculhar a estonteante geografia da região, sempre com uma confortável infra-estrutura nos bastidores, é claro. É um público reduzido. E, estranhamente, ninguém pretende ampliá-lo. Nem os famosos e ricos citados acima, que, aliás, prefeririam que esta reportagem não saísse. Nem os empreendedores, governantes e ambientalistas locais, que concebem Itacaré como um novo paradigma de turismo, inédito no Brasil (com baixa densidade de visitantes, caro e chique, que dê lucro aos investidores e ainda preserve a beleza natural) e surpreendente para a Bahia (sem axé music e, eventualmente, com azeite de oliva em lugar de dendê).

O plano deles está dando certo em cada detalhe. Para começar, a clientela está disposta a desembolsar quanto se pede. Paga-se caro pela garantia de um cenário escasso em seres humanos, mas abundante em mata, céu e mar, e por caprichos de hotelaria que variam de hidromassagem privativa ao ar livre a uma sala de leitura repleta de livros sobre arte brasileira e natureza idem. Os dois primeiros grandes empreendimentos de Itacaré que seguem à risca a proposta do turismo elitizado e preservacionista estão com o quadro de reservas preenchido até o Carnaval. Os investimentos começam a retornar. Os donos do condomínio Villas de São José, que inclui o Itacaré Eco Resort, com diária de 360 reais por casal com meia pensão, faturaram 8 milhões de reais neste ano. O Txai Resort, construído há um ano, com bangalôs verde-esmeralda de 60 metros quadrados cada a 680 reais por dia, deve recuperar os 4 milhões de dólares colocados para construir um cenário encantador em 2006. O dinheiro está entrando e, extraordinariamente, o lugar continua tranqüilo. Nas praias ao sul da cidade, onde ficam os novos hotéis, não há ambulantes nem barracas agitadas, nas quais a cerveja atordoa e a música ensurdece. É possível ficar horas tostando ao sol sem escutar voz humana, seguro, porém, de que a qualquer momento pode-se esticar o braço e solicitar bebidinhas básicas – água-de-coco, caipirinha de cajá, uma taça de champanhe.

Itacaré é uma anomalia baiana, com muito orgulho. Num trecho de menos de 30 quilômetros, ao sul da cidade, existem dezoito praias, a maioria pequenas baías em forma de concha com 500 metros de areia. Por um fenômeno geológico único no Estado, a costa foi pressionada, recortada, e ficou emoldurada por paredões rochosos e morros cobertos de Mata Atlântica que avançam até o mar. Só os coqueirais e a temperatura da água lembram a Bahia de longas praias e falésias descampadas. Essa região baiana é formada por grandes fazendas que conservaram as árvores mais altas da mata para sombrear o plantio de cacau. Nos anos 70, os surfistas mochileiros descobriram suas ondas perfeitas, mas as quase cinco horas de viagem que separavam Ilhéus de Itacaré mantiveram longe as hordas de turistas comuns. Foi apenas em 1998 que saiu a pavimentação dos 65 quilômetros da estrada. Com o tempo de viagem reduzido para uma hora, apareceram os ricos.

Fotos Paulo Roberto/Divulgação
Novo paradigma de turismo: casa na beira da praia do Itacaré Eco Resort e o luxo máximo da paisagem preservada e com população controlada

Por sorte, as vans e Cherokee do asfalto só chegaram quando já estava implantada a Área de Proteção Ambiental (APA) Serra Grande-Itacaré, com regras rígidas para ocupação do solo e o impedimento legal de derrubar qualquer vegetação, não apenas a chamada primária, aquela que nunca foi tocada, mas também os trechos em estágio de regeneração. Para a criação da APA, a área de paisagem luxuriante com 30 quilômetros ao longo da costa e 6 de largura em direção ao continente foi toda estudada. Metro a metro, ficou definido onde se pode construir e quanto. A baixa densidade de leitos, por exemplo, é uma obrigação que, se não cumprida, pode levar ao embargo do hotel. O Villas de São José fica numa deslumbrante área de 2,2 milhões de metros quadrados, uma vez e meia o Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e brindada com duas praias classificadas com três guarda-sóis (muito bonita) no Guia Praias Quatro Rodas. Caberia muita gente, mesmo sem aglomerações. Mas o empreendimento foi planejado para que nunca haja mais do que trinta pessoas ao mesmo tempo na areia. Outro exemplo: João Paiva Neto, investidor paulista que abraçou o estilo praiano de viver, acatou pacificamente a rejeição, por motivos ambientais, do projeto inicial de um resort "seis estrelas" que está desenvolvendo com um grupo português na região. "A melhor maneira de ganhar dinheiro aqui é preservando a natureza", diz. É bom que ele saiba do que está falando: a diária projetada do futuro empreendimento é de 600 dólares, "no mínimo".

Aliar poucos visitantes com lucro requer mais do que preço alto. Uma das características do tipo de turismo que está sendo implantado em Itacaré é a junção no mesmo empreendimento de hotel com um condomínio de casas que são vendidas e podem ser usadas pelos proprietários com direito aos serviços de hotelaria e também alugadas, como num flat. Quando estiver todo implantado, o Villas de São José terá cinqüenta quartos no Eco Resort, vinte casas e 25 chalés. O Txai terá 56 bangalôs – todos isolados, com decoração elegantemente em branco, incluindo os românticos mosquiteiros – em sistema de diária de hotel e 22 casas. "Esse esquema garante a viabilidade econômica do negócio e permite construções pequenas que não destroem a natureza nem interferem no visual", afirma Nelson Moraes Junior, outro paulista convertido, que depois de trinta anos de trabalho no mercado financeiro resolveu morar e investir em Itacaré.

A preservação da natureza privilegiada e a perspectiva de ganhar dinheiro com o turismo elitizado trouxeram investidores do sul do país. Moraes, o proprietário do Txai, tem 1 quilômetro de frente de praia. Seus vizinhos não ficam atrás. Daniel Dantas, do banco Opportunity, é dono da área em frente a uma praia de 300 metros, o empresário mineiro Antonio Luciano Pereira tem quatro praias, Marco Mariani, da família proprietária do Banco da Bahia, tem outra e o empresário paulista Alfio Lagnado, mais uma. Alguns pretendem ganhar dinheiro com a propriedade e testar as águas do ramo do turismo, mas também querem ter lá uma casa de veraneio. Por isso, abominam a idéia de ver o paraíso transformado, por exemplo, numa nova Porto Seguro. "Junto com a APA, o tipo de vizinhança nos dá a segurança de que aqui nunca haverá turismo de massa", diz Cleber Issac Soares Filho, cuja família é dona da fazenda São José, agora transformada em empreendimento ecológico, desde a segunda metade do século XIX.

O estilo rústico chique contagiou Itacaré. A cidade tem sua cota de casinhas encantadoramente antiquadas e potencial para um ambiente de charme – se resolvida a praga da falta de saneamento. Modestos restaurantes de comida local já entenderam o espírito da coisa e as novas pousadas tentam pegar carona nos hotéis mais caros, visando a um público também de bom gosto, com preocupações ambientais, mas sem tanto dinheiro. As agências de ecoturismo oferecem logística impecável para trilhas que passam por praias, montanhas e costões de pedras, passeios de canoa ou caiaques infláveis até cachoeiras e manguezais, rafting, rappel, escaladas. Do motorista de táxi ao balseiro, todos na cidade têm um discurso preservacionista a fazer. É o laboratório ideal para ver se o turismo que beneficia a todos, sem destruir a galinha dos ovos de ouro, pode vingar de fato nas maravilhosas praias do Nordeste.

   
 
   
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