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Não era bem
assim
Historiador
demonstra que negros
também podiam enriquecer no
período da escravidão
Leonardo
Coutinho
Negros compravam
a própria alforria e muitos adquiriam outros negros, como escravos.
Um século antes da Lei Áurea, o mercado consumidor de Minas
Gerais incluía 120.000 negros livres
e inseridos nas relações de trabalho. Eles representavam
um terço da população da capitania. Havia cativos
emprestando dinheiro a seus senhores, e senhores que tratavam como mãe,
depois de adultos, alguma escrava. O professor Eduardo França Paiva,
do programa de pós-graduação em história da
Universidade Federal de Minas Gerais, passou uma década analisando
documentos que sustentam essas informações inexoravelmente
destinadas a provocar polêmica nos meios intelectuais. A tese de
Paiva está no livro Escravidão e Universo Cultural na
Colônia: Minas Gerais, 1716-1789 (Editora UFMG; 285 páginas;
28 reais), que chega às livrarias neste mês.

Negra
emergente
O quadro Baiana, do século XVIII, retrata escrava que fez fortuna
trabalhando no campo e no comércio |
A principal
conclusão do trabalho é que aquele Brasil de extrema violência
do branco contra o negro no período escravocrata existiu mais nos
livros, ampliado pela propaganda abolicionista, que no dia-a-dia do século
XVIII. Isso não melhora a ignomínia da escravidão,
mas coloca a história dos escravos sob nova perspectiva. "A violência
de fato aconteceu, mas também houve muita convivência pacífica,
relacionamento comercial e entendimento espontâneo entre negros
e brancos", diz Eduardo Paiva, cujas fontes são testamentos, documentos
públicos e narrativas da época. Entre os casos que estudou,
reconstituídos principalmente a partir de 858 testamentos em que
negros deixam bens consideráveis para seus herdeiros, há
o da ex-escrava Bárbara Gomes de Abreu e Lima, que morreu em 1735,
quando era uma das comerciantes mais ricas da cidade de Sabará.
Há histórias de outras negras que enriqueceram nesse período
não por favor dos senhores mas porque exploraram estabelecimentos
comerciais e também de homens que possuíram fortunas.
Entre eles, o escravo Alexandre Correia, de São João del
Rei, que não só comprou sua liberdade mas chegou também
a adquirir a própria mina de ouro.
Para a diretora
do Geledés Instituto da Mulher Negra, Sueli Carneiro, mesmo
que o clima de violência da época não tenha sido aquele
da literatura escolar, não se deve acreditar que existiu cordialidade
no relacionamento entre negros e brancos. "As regras daquela sociedade
eram violentas", diz Sueli, numa reação até moderada
diante do que o autor ainda espera. Por enquanto, as lideranças
das maiores entidades nacionais dizem que vão ler a obra antes
de opinar. "Lido com ciência, não com ideologia", adianta-se
Paiva.
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