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Edição 1 728 - 28 de novembro de 2001
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Não era bem assim

Historiador demonstra que negros
também podiam enriquecer no
período da escravidão

Leonardo Coutinho

Negros compravam a própria alforria e muitos adquiriam outros negros, como escravos. Um século antes da Lei Áurea, o mercado consumidor de Minas Gerais incluía 120.000 negros livres e inseridos nas relações de trabalho. Eles representavam um terço da população da capitania. Havia cativos emprestando dinheiro a seus senhores, e senhores que tratavam como mãe, depois de adultos, alguma escrava. O professor Eduardo França Paiva, do programa de pós-graduação em história da Universidade Federal de Minas Gerais, passou uma década analisando documentos que sustentam essas informações inexoravelmente destinadas a provocar polêmica nos meios intelectuais. A tese de Paiva está no livro Escravidão e Universo Cultural na Colônia: Minas Gerais, 1716-1789 (Editora UFMG; 285 páginas; 28 reais), que chega às livrarias neste mês.

 

Negra emergente
O quadro Baiana, do século XVIII, retrata escrava que fez fortuna trabalhando no campo e no comércio

A principal conclusão do trabalho é que aquele Brasil de extrema violência do branco contra o negro no período escravocrata existiu mais nos livros, ampliado pela propaganda abolicionista, que no dia-a-dia do século XVIII. Isso não melhora a ignomínia da escravidão, mas coloca a história dos escravos sob nova perspectiva. "A violência de fato aconteceu, mas também houve muita convivência pacífica, relacionamento comercial e entendimento espontâneo entre negros e brancos", diz Eduardo Paiva, cujas fontes são testamentos, documentos públicos e narrativas da época. Entre os casos que estudou, reconstituídos principalmente a partir de 858 testamentos em que negros deixam bens consideráveis para seus herdeiros, há o da ex-escrava Bárbara Gomes de Abreu e Lima, que morreu em 1735, quando era uma das comerciantes mais ricas da cidade de Sabará. Há histórias de outras negras que enriqueceram nesse período – não por favor dos senhores mas porque exploraram estabelecimentos comerciais – e também de homens que possuíram fortunas. Entre eles, o escravo Alexandre Correia, de São João del Rei, que não só comprou sua liberdade mas chegou também a adquirir a própria mina de ouro.

Para a diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, Sueli Carneiro, mesmo que o clima de violência da época não tenha sido aquele da literatura escolar, não se deve acreditar que existiu cordialidade no relacionamento entre negros e brancos. "As regras daquela sociedade eram violentas", diz Sueli, numa reação até moderada diante do que o autor ainda espera. Por enquanto, as lideranças das maiores entidades nacionais dizem que vão ler a obra antes de opinar. "Lido com ciência, não com ideologia", adianta-se Paiva.

   
 
   
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