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Edição 1 728 - 28 de novembro de 2001
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Sérgio Abranches

Se a eleição fosse hoje...

"...provavelmente ficaria polarizada entre quem
é contra tudo o que representa esse governo e
quem não é. Dificilmente dois oposicionistas
se enfrentarão no segundo turno"


Ilustração Ale Setti

O crescimento das intenções de voto de Roseana Sarney no segundo semestre deste ano vem sendo confirmado por todas as pesquisas. Segundo o último Ibope, ela passou de 7% para 17% entre junho e novembro deste ano, com certeza impulsionada pelos programas partidários na TV e sua repercussão na mídia. Essa foi a única mudança significativa nesta fase, ainda muito preliminar, do processo sucessório.

Não dá para dizer muito sobre 2002 hoje. Há muita oscilação e pouca tendência. Quem diz que ainda estamos muito longe das eleições está certo. Nas três vezes em que elegemos o presidente após a ditadura militar – da qual muita gente parece ter-se esquecido –, a campanha na TV teve efeito decisivo sobre o resultado das urnas.

Lula tem desempenho muito estável nas pesquisas. Em doze meses, oscilou de 28% para 30%. Esses 30% que o Ibope lhe dá hoje não são inéditos. Em janeiro de 1994, também chegou a 30%. De março a agosto de 1994, ficou acima disso, fazendo média de 36%. Em junho de 1998, chegou aos 30%, empatando com o presidente Fernando Henrique, com 33%. Nos meses seguintes, oscilou na margem de erro para alcançar 31,7% dos votos.

Ciro Gomes teve uma queda significativa em doze meses, de 17%, em novembro do ano passado, para 9%, neste mês. Na eleição de 1998, ele obteve 11% dos votos.

Roseana ficou estável entre novembro, quando apareceu com 10% em pesquisa do Ibope, e setembro deste ano, quando chegou a 12%. Agora, com 17%, ela fecha uma trajetória de crescimento, em doze meses, que é notável, somando mais 7 pontos. Praticamente o inverso de Ciro Gomes.

José Serra também tem uma pesquisa muito estável. Ele ficou em 6%, entre maio e setembro, aparecendo agora com 5%. Estatisticamente não mudou. Olhando-se as pesquisas nos últimos doze meses, ele teria perdido 3 pontos, saindo de 8%, em novembro do ano passado, para os 5% de agora. Praticamente dentro da margem de erro.

Itamar Franco saiu de 10%, em novembro passado, para 7%. Seu melhor momento foi em março deste ano, quando chegou a 14%. De lá para cá, perdeu 7 pontos, provavelmente subtraídos pela queda de popularidade em Minas Gerais, origem da maior parte de seu apoio. É, talvez, o preço por ter trocado o Palácio da Liberdade pelas ante-salas das lideranças do PMDB, lutando por uma candidatura que a cúpula partidária não quer.

No momento, a única novidade é o atual patamar de Roseana Sarney. Não é possível dizer se é sustentável ou apenas o reflexo de um momento bom, apoiado na propaganda na TV. Há quem sustente ser puro marketing. Um balão que se esvaziará em breve. Há quem considere que ela conseguiu a adesão do eleitor que não é "contra tudo isso que está aí". O oposto do eleitor de Lula. Nos táxis, elevadores, restaurantes e aeroportos, o eleitor comum a está levando mais a sério que os políticos em Brasília. De repente, o factóide pode se impor como fato consumado, dando um susto naquelas lideranças do PFL que pretendem descartá-la no futuro.

Calculei, com base em uma série de respostas à pesquisa de outubro do Ibope para a CNI, um "índice de oposicionismo". Ele sintetiza a atitude dos eleitores de cada candidato em relação ao governo e a percepção que eles têm de seus candidatos, como de oposição ou apoio ao governo. Quanto mais negativo, mais de oposição. Quanto mais positivo, mais governista.

Lula é o candidato oposicionista puro, com índice de -122 pontos. Serra é o mais governista, com +81 pontos. Roseana Sarney fica no meio, com zero, indicando certa neutralidade ou independência, sem hostilidade em relação ao governo. Não é "contra tudo isso que está aí" nem muito identificada com o governo. Os índices de Ciro Gomes (-26) e Itamar Franco (-32) mostram uma certa incongruência entre o agressivo discurso anti-FHC e o que pensam seus possíveis eleitores.

Não dá, ainda, para tirar muitas conclusões sobre esses números, exceto o óbvio: a eleição provavelmente ficará polarizada entre quem é contra tudo o que representa esse governo e quem não é. Dificilmente dois oposicionistas se enfrentarão no segundo turno.


Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)


 
 
   
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