Sérgio
Abranches
Se
a eleição fosse hoje...
"...provavelmente
ficaria
polarizada entre quem
é contra tudo o que representa esse governo e
quem não é. Dificilmente dois oposicionistas
se
enfrentarão no segundo turno"
Ilustração Ale Setti
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O
crescimento das intenções de voto de Roseana Sarney no segundo
semestre deste ano vem sendo confirmado por todas as pesquisas. Segundo
o último Ibope, ela passou de 7% para 17% entre junho e novembro
deste ano, com certeza impulsionada pelos programas partidários
na TV e sua repercussão na mídia. Essa foi a única
mudança significativa nesta fase, ainda muito preliminar, do processo
sucessório.
Não dá para dizer muito sobre 2002 hoje. Há muita
oscilação e pouca tendência. Quem diz que ainda estamos
muito longe das eleições está certo. Nas três
vezes em que elegemos o presidente após a ditadura militar
da qual muita gente parece ter-se esquecido , a campanha na TV teve
efeito decisivo sobre o resultado das urnas.
Lula tem desempenho muito estável nas pesquisas. Em doze meses,
oscilou de 28% para 30%. Esses 30% que o Ibope lhe dá hoje não
são inéditos. Em janeiro de 1994, também chegou a
30%. De março a agosto de 1994, ficou acima disso, fazendo média
de 36%. Em junho de 1998, chegou aos 30%, empatando com o presidente Fernando
Henrique, com 33%. Nos meses seguintes, oscilou na margem de erro para
alcançar 31,7% dos votos.
Ciro Gomes teve uma queda significativa em doze meses, de 17%, em novembro
do ano passado, para 9%, neste mês. Na eleição de
1998, ele obteve 11% dos votos.
Roseana ficou estável entre novembro, quando apareceu com 10% em
pesquisa do Ibope, e setembro deste ano, quando chegou a 12%. Agora, com
17%, ela fecha uma trajetória de crescimento, em doze meses, que
é notável, somando mais 7 pontos. Praticamente o inverso
de Ciro Gomes.
José Serra também tem uma pesquisa muito estável.
Ele ficou em 6%, entre maio e setembro, aparecendo agora com 5%. Estatisticamente
não mudou. Olhando-se as pesquisas nos últimos doze meses,
ele teria perdido 3 pontos, saindo de 8%, em novembro do ano passado,
para os 5% de agora. Praticamente dentro da margem de erro.
Itamar Franco saiu de 10%, em novembro passado, para 7%. Seu melhor momento
foi em março deste ano, quando chegou a 14%. De lá para
cá, perdeu 7 pontos, provavelmente subtraídos pela queda
de popularidade em Minas Gerais, origem da maior parte de seu apoio. É,
talvez, o preço por ter trocado o Palácio da Liberdade pelas
ante-salas das lideranças do PMDB, lutando por uma candidatura
que a cúpula partidária não quer.
No momento, a única novidade é o atual patamar de Roseana
Sarney. Não é possível dizer se é sustentável
ou apenas o reflexo de um momento bom, apoiado na propaganda na TV. Há
quem sustente ser puro marketing. Um balão que se esvaziará
em breve. Há quem considere que ela conseguiu a adesão do
eleitor que não é "contra tudo isso que está aí".
O oposto do eleitor de Lula. Nos táxis, elevadores, restaurantes
e aeroportos, o eleitor comum a está levando mais a sério
que os políticos em Brasília. De repente, o factóide
pode se impor como fato consumado, dando um susto naquelas lideranças
do PFL que pretendem descartá-la no futuro.
Calculei, com base em uma série de respostas à pesquisa
de outubro do Ibope para a CNI, um "índice de oposicionismo". Ele
sintetiza a atitude dos eleitores de cada candidato em relação
ao governo e a percepção que eles têm de seus candidatos,
como de oposição ou apoio ao governo. Quanto mais negativo,
mais de oposição. Quanto mais positivo, mais governista.
Lula é o candidato oposicionista puro, com índice de -122
pontos. Serra é o mais governista, com +81 pontos. Roseana Sarney
fica no meio, com zero, indicando certa neutralidade ou independência,
sem hostilidade em relação ao governo. Não é
"contra tudo isso que está aí" nem muito identificada com
o governo. Os índices de Ciro Gomes (-26) e Itamar Franco (-32)
mostram uma certa incongruência entre o agressivo discurso anti-FHC
e o que pensam seus possíveis eleitores.
Não dá, ainda, para tirar muitas conclusões sobre
esses números, exceto o óbvio: a eleição provavelmente
ficará polarizada entre quem é contra tudo o que representa
esse governo e quem não é. Dificilmente dois oposicionistas
se enfrentarão no segundo turno.
Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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