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24 horas no ar
O Show
de Truman tem uma história
original, mas não souberam contá-la
Okky de
Souza
O Show de Truman
O Show da Vida (The Truman Show, Estados Unidos,
1998), em cartaz em circuito nacional a partir desta sexta-feira, poderia
ser um grande filme. Observe-se como a história é original e cheia de
possibilidades. Truman Burbank (Jim Carrey) tem tudo na vida: um bom emprego
e uma esposa maravilhosa. Ele mora numa bela casa, numa cidade onde o
sol sempre brilha. Truman tem bons amigos e todos simpatizam com ele.
Seu mundo é feliz e perfeito, exceto por um detalhe: tudo nele é falso.
A cidade é um gigantesco cenário envolto por uma abóbada, seus habitantes
inclusive a esposa maravilhosa são atores contratados e
até o sol é artificial. Truman não sabe, mas ele é o astro da mais longa
série de TV já produzida. Desde que nasceu, sua vida é transmitida durante
as 24 horas do dia para milhões de espectadores por 5.000 câmeras escondidas
em sua casa, carro, escritório, ruas e outros locais que ele freqüenta.
Certo dia, Truman começa a ter a sensação de estar sendo observado.
Com um argumento desses, O Show
de Truman poderia ser uma bela sátira à voracidade da televisão em
se intrometer na vida dos cidadãos. Poderia ser também um drama fenomenal,
ao confrontar o personagem com a farsa de sua vida. Numa hipótese mais
popularesca, poderia até ser uma versão hollywoodiana do romance 1984,
de George Orwell, aquele em que o Grande Irmão controla a vida de todos
os seres humanos. Na verdade, O Show de Truman tenta ser um pouco disso
tudo, mas a mistura não convence. Até certa altura o filme diverte. Mostra
o mundo estranhamente perfeito de Truman Burbank e as pequenas evidências
de que tudo não passa de mentira. Um holofote despenca do céu como se
fosse um meteorito. Sua mulher faz comerciais disfarçados na hora da refeição.
À medida que a história avança, no entanto, vai se tornando vazia.
Truman, embora vítima dessa imensa
farsa, é um personagem sem conflitos. Nem mesmo quando descobre que seu
"pai", que na infância vira morrer afogado, está vivo. O criador
e diretor do programa O Show de Truman, Christof (Ed Harris), é
mostrado como um vilão caricato parece saído do seriado de TV japonês
Power Rangers. Jim Carrey vai se despindo do personagem e se tornando
cada vez mais Jim Carrey, com suas caretas de sempre. Tudo no filme se
torna inconsistente e inverossímil. Até que vem a revoltante cena final,
que praticamente destrói o filme e deixa o espectador com vontade de pedir
de volta o dinheiro do ingresso.
Dirigido por Peter Weir (Sociedade
dos Poetas Mortos), O Show de Truman tem também um roteiro
tortuoso. A certa altura, o personagem principal volta aos tempos de estudante
sem aviso prévio e com a mesma aparência de sempre. Tem-se a impressão
de que vários roteiristas interferiram na história o que é comum
em Hollywood , inventando cenas e personagens, embora sem ter seus
nomes nos créditos. É uma pena que uma história tão engenhosa resulte
num filme apenas razoável.

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