Alegria renovada

Cada vez mais gente desafia o medo de dentista
só para embelezar a boca e sorrir mais branco

Dagmar Serpa e Lidice-Bá


Isabel, que trocou restaurações antigas e escuras (à esq.) por resina clarinha, da cor do dente: "Agora posso rir sem vergonha"


Foto: Claudio Rossi

Obturações, tratamentos de canal, apavorantes extrações — tem um bocado de gente que continua enfrentando o consultório do dentista para se submeter a essas pequenas torturas. A temida cadeira, no entanto, recebe um número crescente de clientes que chegam animadíssimos e vão embora mais felizes ainda. O que querem, e conseguem, é o tratamento puramente estético, aquele que branqueia dentes, preenche falhas, elimina presas de vampiro, diminui gengivas — enfim, tem o único propósito de embelezar o sorriso. Desses, o campeão disparado é o clareamento dental, que, sete anos depois de ser introduzido no país, explode em número de adeptos que sonham com um sorriso igual aos dos anúncios de televisão. O dentista Marcelo Fonseca Pereira, do Rio de Janeiro, calcula que 70% de sua clientela hoje em dia busca o tratamento. "O clareamento tem um poder rejuvenescedor muito grande. Por isso todo mundo quer", avalia Pereira. No consultório do dentista Wilson Garone Filho, professor da Universidade de São Paulo, no começo o tratamento era feito em um a cada 200 pacientes. Agora, um em cada dez vai lá só para clarear o sorriso.

"Como é um tratamento estético, nunca sugiro a ninguém, porque não vou colocar minhoca na cabeça de uma pessoa que está feliz com seus dentes. Mas, se o paciente quiser e for indicado, faço", diz Garone. A advogada Simone Frossard, 23 anos, quis, por achar que era jovem demais para conviver com os dois caninos superiores e a arcada inferior escurecidos. "Fiz por vaidade mesmo, já que meus dentes sempre foram saudáveis e aquelas manchas escuras não me prejudicavam em nada", admite Simone. A técnica é simples e praticamente caseira. O paciente compra no consultório o kit de branqueamento, aplica ele mesmo o gel (feito à base de peróxido de carbamida, uma substância clareadora) em uma espécie de molde que se encaixa na arcada dentária, e dorme com aquilo na boca quinze noites seguidas. Detalhe: durante o tratamento, deve manter distância de cigarro, café e outras bebidas corantes.

Quem branqueia os dentes vai acabar, naturalmente, apelando para tratamentos estéticos adicionais. Numa boca recém-alvejada, é quase inevitável que se ressaltem as emendas de velhas restaurações. Solução: uma camada de resina ou uma capinha de porcelana, tratadas para reproduzir a exata cor dos branquíssimos dentes (veja quadro). Tanto as resinas quanto as porcelanas, devidamente desenvolvidas e adaptadas aos novos tempos, fazem milagres instantâneos naqueles defeitos que antigamente exigiriam anos de aparelho. Dentes muito separados? Emenda de resina ou capa de porcelana neles. Dentes levemente encavalados? Lixa, broca e, mais uma vez, resina ou capa de porcelana (os resultados são praticamente os mesmos. A resina é mais barata; a porcelana, mais durável).

Ester, antes e depois
da boca de 12.000
reais: "Foi o dinheiro
mais bem empregado
da minha vida"
Foto: Antonio Milena  

O tratamento do tipo serviço completo foi a opção da advogada Ester Kuntz Muakad, 42 anos, altamente insatisfeita com os dentes frontais separados e um incisivo lateral escurecido por causa de um tratamento de canal. Num processo longo, encerrado no início deste mês, Ester e seu dentista atacaram tudo isso e mais um pouco. No fim, ganhou outra boca, todinha feita em porcelana, o que lhe custou no total 12.000 reais, o preço de um carro nacional popular. "Foi o dinheiro mais bem empregado da minha vida", garante Ester. "Ganhei auto-estima, o que é uma questão de saúde psicológica." Caminho semelhante percorreu a nutricionista Isabel Cristina Cioffi da Silva, 29 anos, que tinha ímpetos de quebrar o espelho quando olhava para a cor escura de alguns dentes e os metais de velhos tratamentos em outros. Em agosto do ano passado tomou coragem e reformou tudo. Um ano e 6.400 reais depois, tem resina nas restaurações e uma lâmina de porcelana em um incisivo mais teimoso, que resistiu ao branqueamento. "Ficou totalmente diferente. Agora, posso rir sem sentir vergonha", comemora Isabel.

A estudante Michele Campos, 16 anos, começou pelo bisturi: por 700 reais, submeteu-se a uma cirurgia para corrigir a gengiva, que era alta demais. "Demorou quarenta minutos, não doeu nada e adorei o resultado", conta. A redução de gengivas ganhou impulso no Brasil na década de 80, quando a atriz Gloria Pires cortou pela metade o espaço entre lábios e dentes no seu sorriso e, em troca, duplicou sua beleza. Atualmente, é prática corriqueira, feita em consultório, em cerca de uma hora, com anestesia local. "Quase sempre não precisamos receitar nem um analgésico", diz o dentista Nelson Thomaz Lascala. Procedimento ainda mais simples foi utilizado para corrigir os dois caninos da jornalista Lillian Witte Fibe, em 1995. Por ter crescido fora de lugar, destacavam-se quando ela sorria, em especial diante das câmeras de TV. Uma remodelagem à base de resina deixou o canino com cara de incisivo, e o problema foi solucionado sem traumas. Mais radical, o implante demora para ficar pronto — abre-se a gengiva, colocam-se pinos de titânio no osso e espera-se meses pela integração dos dois. Só então o dente artificial é fixado. De todos, é o método mais caro: 1.200 a 2.000 reais por dente, pela cirurgia, mais 600 a 3.000 pela prótese.

Estética bucal, aliás, é recurso que nasceu praticamente junto com a filmadora. Desde os primórdios do cinema que todo ator, ao cruzar a porta do estúdio, marca hora com um dentista. O galã Clark Gable foi caso semiperdido: teve de trocar toda a dentição superior por dentadura, aliás pouco confiável. Grace Kelly revelou que, quando eram namorados e ele a beijava, sentia os dentes falsos se movendo de lugar. Até James Dean, o belo, tinha dois dentes postiços. Já a atriz e cantora Judy Garland apelava para jaquetas para disfarçar defeitos, às vezes com duras conseqüências — diz a lenda que certa vez, ao dar um agudo, engoliu sem querer uma capinha dessas. Da boca dos astros para a de gente comum, a odontologia estética só precisou do empurrão de técnicas avançadas e simplificadas.

Questão de coragem — Tanto o mercado cresceu nos últimos tempos que a Sociedade Brasileira de Odontologia Estética (dez membros em 1995, quando foi fundada, 500, hoje) instituiu o prêmio "Sorriso do Ano" para as pessoas que servem de modelo da boca perfeita aos menos privilegiados. Os contemplados são naturalmente abençoados com dentes impecáveis, que exigem apenas manutenção. Thereza Collor, 36 anos, vencedora de 1996, escova os dentes após as refeições, usa fio dental e, há dois anos, trocou quatro restaurações de amálgama por porcelana. Só. Taís Araújo, 19 anos, sorriso de 1997, nem isso. "Os meus dois dentes da frente eram totalmente separados, mas aos 11 anos eles se juntaram sozinhos", conta a atriz, que jamais teve uma cárie. Neste ano, levaram o prêmio o casal Letícia Spiller, 25 anos, e Marcelo Novaes, 36, que também escovam os dentes e mais nada. "Até ganhamos kits de clareamento e ficamos com vontade de testar, mas ainda não tivemos coragem", diz Letícia. Coisa de quem não precisa mesmo. Para quem quer sorrir mais branco, coragem não falta — até para ir ao dentista sem precisar.

Os materiais da reforma

BRANCO TOTAL A secretária Danielle Gutierrez , 23 anos, já está comemorando. Há doze dias, na hora de dormir, aplica religiosamente nos dentes superiores a moldeira com gel branqueador que compõem seu kit de branqueamento. De manhã, confere a diferença em relação à arcada inferior, que vai atacar na próxima etapa. O grau de clareamento varia de paciente para paciente. Se antigas restaurações ficarem evidentes, terão de ser trocadas (pagamento à parte). O preço do clareamento varia de 500 a 2.000 reais.

ESTRELAS DO RETOQUE Com a consistência de uma pasta, resinas como a usada nos caninos da jornalista Lillian Witte Fibe são aplicadas em consultório para redesenhar o formato dos dentes e substituir obturações. Idêntica aplicação tem a porcelana, com que os protéticos confeccionam facetas laminadas as "unhas postiças" dos dentes feios ou danificados. Mais durável, a porcelana também custa mais caro: facetas saem por 400 a 1.500 reais cada dente. Uma restauração com resina custa de 200 a 600 reais.

EFEITO DO BISTURI Irregularidades na aparência da gengiva podem ser reparadas em consultório, com anestesia local, procedimento que embelezou o sorriso da atriz Gloria Pires (ao lado). Recorta-se a área inferior da gengiva, expondo mais o dente. Em seguida, protege-se o local com uma "cobertura cirúrgica", que é removida depois de uma semana, quando a cicatrização já está adiantada. Geralmente, não há cuidados especiais no pós-operatório. Uma gengiva novinha em folha custa, em média, de 700 a 2.500 reais.

Fotos: Luiz Carlos Kfouri/Antonio Milena/Claudio Rossi/ Alexandre Tokitaka/Antonio Milena/Luizinho Coruja/Ana Paula Paiva


Hollywood, o começo


Judy Garland e Clark Gable: acidentes com próteses
bambas e pouco confiáveis


Perfeição ao natural


Thereza (à esq.), que só trocou obturações antigas, Taís (no centro), que nunca teve uma cárie, e Letícia, que escova os dentes e pronto: prêmio por sorrisos privilegiados pela natureza
Fotos: Ana Araujo/Cibele Clark/Roberto Valverde  




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