A dança da sedução

FHC conquista estrelas associadas à esquerda
mundial e convida a oposição para o diálogo

Expedito Filho

FHC com o
líder sul-africano
Nelson Mandela
Foto: Jamil Bittar-Folha Imagem  

Como diria Jamelão, puxador de samba da Mangueira, que recepcionou o presidente Bill Clinton em sua visita ao Rio de Janeiro no ano passado, o presidente Fernando Henrique encerrou na segunda-feira passada sua viagem a Portugal "feliz como pinto no lixo". Um dia antes, no encerramento da conferência que reuniu os líderes dos países ibero-americanos, na cidade do Porto, Fernando Henrique ouvira elogios rasgados de Fidel Castro, o ditador de Cuba, acompanhados de críticas à oposição no Brasil. Era o que o presidente queria — uma personalidade insuspeita quanto à ideologia de esquerda malhando a oposição no Brasil e convidando-a ao diálogo com o governo. Há algum tempo, discretamente, Fernando Henrique tem arrastado asa para a esquerda, tentando atraí-la para o diálogo. O presidente já disse que, passado o segundo turno, planeja falar com a ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, que trocou o PT pelo PSB, e mandou mensageiros sondar a disposição do governador do Distrito Federal, o petista Cristovam Buarque. Com o respaldo tão explícito e caloroso de Fidel Castro, o presidente avançou alguns metros — ganhou o apoio de um esquerdista nato e conseguiu reforçar sua tese sobre a necessidade de um pacto nacional com a oposição.

No plano internacional, onde atua com desenvoltura e gosto, o presidente tem recolhido muitos trunfos e não perde a oportunidade de colocar sob suas asas os nomes que até pouco tempo atrás os oposicionistas brasileiros relacionavam à esquerda. Assim, FHC ganhou a simpatia do primeiro-ministro inglês, Tony Blair, arauto da chamada "terceira via", cuja eleição no ano passado o PT festejou como um sinal de volta da esquerda ao poder nos países europeus. Um ministro da intimidade de Blair, em visita ao Brasil em julho passado, no entanto, criticou o PT, Lula e sua proposta — e derramou elogios ao governo, gerando até protestos de petistas na embaixada inglesa. Na mesma época, durante sua visita ao Brasil, o presidente sul-africano Nelson Mandela, herói da derrubada do regime racista na África do Sul, não escondeu que se sente mais à vontade com o presidente Fernando Henrique do que com Lula. E logo Mandela, que o PT sempre olhou como um indiscutível companheiro de viagem. Agora, Fidel Castro também entrou no jogo, para desespero dos petistas. Foi tamanho o golpe e tão funda a decepção que Lula reagiu com críticas a Cuba e seu regime, alterando o discurso que mantinha sobre a ilha até há pouco tempo (veja quadro).

Como ocorre com freqüência no caso do presidente, seus sucessos podem ser mais apreciados no exterior do que dentro das fronteiras brasileiras. Seu apelo ao diálogo, mesmo reforçado por Fidel Castro, foi prontamente rechaçado pelos cardeais do PT, tanto da ala esquerda como da direita. O deputado José Genoíno, um petista com bico de tucano, disse que o presidente "precisa deixar a arrogância e respeitar os partidos". O moderado Tarso Genro, uma das estrelas do PT gaúcho, também recusou o diálogo. "O presidente é que tem de assumir as responsabilidades pelas medidas que quer adotar e pelas suas conseqüências", disse. Mas nem sempre o que acontece em público se repete no privado. A idéia do presidente é insistir nos contatos com líderes da oposição brasileira, sempre em conversas sigilosas, sem a presença de jornalistas ou fotógrafos. "Não quero dar a impressão de que pretendo faturar politicamente esses encontros", comentou o presidente. Nos bastidores, a tentativa de namoro segue em frente. Na semana passada, empurrado por injunções partidárias a dar seu apoio público ao candidato do PMDB ao governo do Distrito Federal, Joaquim Roriz, Fernando Henrique ficou satisfeito com a atuação do ministro da Saúde, José Serra, que elogiou o petista Cristovam Buarque e ainda subiu a seu palanque.

Foto: Egberto Nogueira Foto: Nelio Rodrigues
Luiza Erundina, que
trocou o PT pelo PSB:
na lista de FHC
Cristovam Buarque,
governador petista do
DF: recebendo acenos

Refrega política — A tentativa de Fernando Henrique de aproximar-se dos partidos de esquerda não representa uma guinada no conteúdo de seu governo. Orienta-se, na verdade, pelo mesmo pragmatismo que o levou a uma aliança vitoriosa com o PFL em dois pleitos nacionais. O presidente sabe que, mesmo com uma base no Congresso muito mais numerosa que a da oposição, as siglas de esquerda podem lhe dar muita dor de cabeça na hora de aprovar as medidas necessárias para enfrentar a crise. Além disso, pelos seus cálculos políticos, as correntes de esquerda poderão ter uma relevância crescente no seu segundo mandato, dado o fato de que, aqui e ali, seus aliados à direita já começaram a se movimentar para sair na frente na sucessão presidencial de 2002 (veja reportagem). Por essas e outras, Fernando Henrique já definiu, por exemplo, que sua primeira viagem como presidente reempossado, no ano que vem, será um gesto de gentileza para com o PT. Ele pretende visitar o Acre, onde o petista Jorge Viana se elegeu com 58% dos votos no primeiro turno e, na visão de FHC, trata-se de um bom quadro do PT, capaz de dialogar com liberdade. "Até agora não recebi nenhum sinal nesse sentido", diz o governador eleito. "Mas não podemos nos furtar ao diálogo se houver um convite de fato."

No dia-a-dia de Brasília, é mais fácil receber um elogio inesperado de Fidel Castro do que contar com o desarmamento mental das correntes de esquerda. Durante seu primeiro mandato, Fernando Henrique foi, muitas vezes, duro em relação aos oposicionistas. Nesse período, chamou a esquerda de "burra" e disse que suas objeções não passavam de "nhenhenhén". São acusações comuns no mundo da refrega política. Lula e Leonel Brizola se aliaram nesta eleição depois de trocarem muitas farpas e agulhadas até recentemente. O mesmo aconteceu com o senador Antonio Carlos Magalhães e o ex-prefeito Paulo Maluf, que viveram às turras durante anos. Mas nem sempre as mágoas são superadas com facilidade. "O presidente nunca tratou a oposição com seriedade e com respeito. Antes de qualquer coisa, ele terá de nos pedir desculpas", diz o deputado Miro Teixeira, do PDT do Rio de Janeiro, que chegou a ter uma relação cordial com o presidente, incluindo conversas a sós no Palácio da Alvorada. Há meses não trocam palavra.

Até agora, todos os apoios que Fernando Henrique colheu lá fora de políticos moderados ou à esquerda, de Tony Blair a Fidel Castro, serviram mais para desacreditar o PT do que, propriamente, para convencê-lo a ter uma relação mais próxima com o governo. As frases de Fidel Castro serviram apenas para matar mais uma ilusão da turma de Lula. Em nada alteraram a sua indisposição a respeito do Palácio do Planalto. Em sua intenção de conseguir um diálogo mais fácil com a oposição, Fernando Henrique não vai encontrar portas escancaradas. O certo é que o presidente pretende insistir. Uma de suas providências será abandonar o tom abrasivo com que tratou seus adversários no primeiro governo. A dúvida é se conversas à meia-luz no Alvorada e um tratamento mais diplomático nas declarações públicas serão suficientes para desarmar a turma do PT e adjacências. A idéia de promover um entendimento político em função do inimigo externo, que está rondando o Brasil desde o afundamento da Rússia e que exige providências do Planalto e do Congresso, provavelmente terá o mesmo destino das tentativas de pacto nacional feitas pelo presidente José Sarney nos tempos da inflação incontrolável.

Decepção ainda que tardia

Lula em visita
a Cuba: "Democracia
de verdade"
Foto: Antonio Milena  

Na primeira vez em que pôs os pés em Cuba, em 1984, Luís Inácio Lula da Silva passou uma semana na ilha. Teve quatro encontros com Fidel Castro, viajou pelo país de ponta a ponta e fez elogios a projetos de saúde e educação do governo cubano. Lula ficou tão entusiasmado com o que viu que emitiu um comentário surrealista sobre a ditadura que Fidel comanda com mão de ferro há quatro décadas: "Aqui, a democracia existe de verdade, porque o povo tem ampla participação". De lá para cá, Lula voltou a Cuba muitas vezes. Mas só na semana passada, catorze anos depois da primeira visita, reconheceu que havia cometido um erro de avaliação. Durante uma entrevista, ao reagir aos elogios que Fidel Castro fez ao presidente Fernando Henrique Cardoso na semana passada, Lula declarou o seguinte: "O modelo democrático de Cuba não é o modelo que eu quero". A declaração, embora ainda classifique o regime de Fidel de "democracia", o que não é exatamente científico, parece o desabafo de alguém desencantado com seu ídolo. É fácil de entender.

Durante muito tempo, Fidel foi venerado pela esquerda brasileira como herói e modelo. Artistas declaravam solidariedade a ele. Estudantes se alistavam para trabalhar nos canaviais cubanos. Com o colapso do império soviético, porém, secou a fonte que mantinha Cuba de pé. O país entrou numa crise tão profunda que os projetos antes bem-sucedidos deixaram de servir como referência. Por fim, Fidel passou a se comportar de maneira cada vez mais pragmática, em busca de ajuda internacional. No Brasil, presenteou Fernando Collor com caixas de charutos. Depois, distribuiu afagos a Fernando Henrique e Antonio Carlos Magalhães. Postos de lado, Lula e o PT finalmente decidiram se sentir decepcionados com o velho líder.




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