Apertem os cintos!

"Os gastos de quem deveria vigiar o Estado perdulário"

Flávio Pinheiro

Pepe Casal

Está mais uma vez no cadafalso o brasileiro perdulário. Esse gastador incorrigível que de tempos a tempos arde em fogueiras para purgar pecados de contas que não fecham, faturas pendentes desde a demarcação das sesmarias. As imolações reais (e de mentirinha) celebram os chamados pacotes, solenes protofonias de arrochos. Coisa bem antiga, já incorporada à vida nacional. Diante da Central do Brasil o brigadeiro Eduardo Gomes, candidato conservador à Presidência da República em 1945, conclamou uma multidão de desvalidos a "apertar os cintos". Carlos Lacerda nunca se esqueceu do engraçadinho que gritou no meio da multidão: "Já começou a perseguição". Com o tempo, o fogaréu ajudou a decantar dois países: o que corrompe as contas e o que paga por elas. No usurpador sempre estão pregadas apostas de política econômica que goraram. Mas há também o Estado pobre, loteado pelo compadrio político incontrolável, que aparentemente só existe para ser sugado até a última gota.

A semana passada juntou na mesma encruzilhada esse Estado e quem deveria vigiar sua propensão para a gastança irresponsável. Os papéis estavam trocados. Vieram à tona os números com gastos em viagens para o exterior dos oito ministros do Tribunal de Contas da União, TCU. Só neste ano, um pouco mais de 333.000 reais. Neste momento, Marcos Vilaça gasta em moeda forte os mais de 15.000 reais que recebeu em diárias para um périplo pela Finlândia, Ucrânia, Turquia e Grécia. Valmir Campelo já recebeu os 4.000 reais de que precisava para passar uma semana em Las Vegas, em novembro. O presidente Homero Santos tem números que rivalizam com os de guias de turismo. Só neste ano já viajou oito vezes, gastando mais de 42.000 reais, e já sacou os 3.000 da viagem que fará ao Uruguai em novembro. A movimentação dos ministros compõe um mapa ilustrativo. Há muito Nova York, Washington, Miami (que mereceu uma visita de Carlos Átila, ex-assessor de imprensa do general João Figueiredo), Roma ou Lisboa. Nada de Cuidad del Este, no Paraguai, ou Cochabamba, na Bolívia. O TCU é um braço do Legislativo, mas sabe-se lá por que as diárias de viagem de seus ministros estão fixadas em 506 reais, quando as dos senadores são de 300 reais.

Governo e Congresso revezam-se na nomeação dos ministros. Em geral destinam ao tribunal políticos em fim de carreira com anemia de votos e apaniguados com escasso mercado de trabalho para que eles mereçam o conforto de uma boa aposentadoria. A farra globe-trotter do TCU coincide com uma crise aguda nas contas do país que já tem conseqüências. No mês de setembro o governo não pagou os salários de 2.652 funcionários de embaixadas e consulados brasileiros no exterior. Não são diplomatas nem oficiais de chancelaria. Trata-se de mão-de-obra contratada em cada país. Também ficaram a ver navios no mês passado quase todos os proprietários de 162 imóveis que o Tesouro brasileiro aluga no exterior. Isso antes mesmo do anúncio do pacote. Mas o problema dos pacotes é este: eles são cegos para o que parece detalhe.

Creches adotadas
A prefeitura de Porto Alegre encontrou uma forma simples de aumentar o atendimento a crianças em idade pré-escolar. Em vez de construir pré-escolas, contratar professores e criar uma nova estrutura de ensino, ela está adotando creches mantidas por associações de moradores e igrejas. Todos os meses, 100 instituições recebem quantias que variam de 1.800 a 3.100 reais, dependendo do número de crianças atendidas. Não é muito, mas o suficiente para resolver problemas simples como pequenas reformas e abertura de vagas. Além do dinheiro, o município oferece cursos gratuitos para os monitores. Para manter o convênio, as escolinhas precisam prestar contas e conservar as condições de higiene e manutenção. Quem não se enquadra perde a ajuda.

Foto: Divulgação




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