Uma lição de solidariedade

Traumann: desafio
de romper o silêncio
sobre a Aids
Foto: Antonio Milena  

Na vida de uma revista, os assuntos que levam a uma grande reportagem muitas vezes surgem de forma surpreendente e imprevisível. Há aqueles que se impõem pela dimensão ou repercussão pública, como a crise financeira mundial, um grande acidente aéreo ou uma descoberta no campo da saúde. Outros aparecem de forma mais sutil. Esse é o caso da reportagem sobre o crescimento alarmante do número de mulheres que contraem Aids de seus maridos.

O assunto apareceu pela primeira vez na redação de VEJA na forma de uma estatística que seria usada na seção Contexto, espaço reservado para informações sucintas acompanhadas de gráficos, nas páginas de abertura da revista. Uma avaliação mais cuidadosa, porém, levou à conclusão de que esses números mereciam um tratamento ampliado. Era preciso convertê-los em reportagem, de maneira a contar as histórias dessas mulheres e suas famílias, vítimas da mais terrível epidemia do século.

Encarregado de coordenar a apuração da reportagem, o editor Thomas Traumann enfrentou, de imediato, um problema delicado. A Aids, além dos terrores que cercam todas as doenças que levam à morte, é ainda um mal revestido de grande preconceito. Por essa razão, é difícil encontrar, entre suas vítimas, pessoas dispostas a relatar abertamente o drama que estão vivendo. Durante três semanas, quinze repórteres de VEJA estrevistaram mais de cinqüenta mulheres que contraíram Aids com maridos ou namorados. Dessas, quinze concordaram em se deixar fotografar.

O resultado contém uma grande lição de solidariedade: essas mulheres deram depoimento e aceitaram aparecer na revista por acreditar que sua história contribuiria para confortar e orientar outros milhares de vítimas que, como elas, vivem em silêncio o mesmo drama. VEJA também procurou oito maridos que contaminaram suas mulheres, para que eles contassem sua versão da história. Nenhum aceitou.




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line