J. R. Guzzo
Tempo de trapaça
"Nas demais sociedades civilizadas vale o princípio
pelo qual
é permitido tudo o que não é expressamente proibido
em lei.
No Brasil é proibido tudo o que não é expressamente
permitido"
Todo cidadão que acompanha, mesmo de longe, o noticiário
político seria capaz de jurar que há uma campanha eleitoral em
andamento no Brasil e que diversas pessoas querem suceder ao presidente Luiz
Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2010.
Há a ministra Dilma Rousseff e o deputado Ciro Gomes, do lado do governo,
o governador José Serra, pela oposição, e outros mais.
Ao mesmo tempo, o público é informado diariamente de que não
há nenhuma campanha eleitoral e nenhum candidato à Presidência.
Os comícios não são comícios. A propaganda não
é propaganda. Os candidatos não são candidatos. O que é
isso tudo, então? É exatamente o que parece, mas o governo e a
oposição não podem dizer que é. Podem fazer tudo.
Mas não podem falar; aí já seria contra a lei, que, na
sua ambiciosa lista de regras destinadas a regular tudo, marca o dia 6 de julho
do ano que vem para o começo das campanhas. Como se sabe, temos leis
eleitorais rigorosíssimas neste país, possivelmente as mais severas
do mundo. Enquanto nas demais sociedades civilizadas vale o princípio
pelo qual é permitido tudo o que não é expressamente proibido
em lei, no Brasil dos tribunais eleitorais a coisa funciona ao contrário:
é proibido tudo o que não é expressamente permitido. É
uma surpresa, no fundo, que alguém consiga ser eleito com tanta proibição
assim e a saída para os políticos, inevitavelmente, é
trapacear. É o que está acontecendo no momento.
É ruim, porque a campanha eleitoral de 2010, como tantas
que vieram antes dela, começa em cima de uma falsificação
por atacado da verdade. O presidente Lula, por exemplo, viaja sem parar pelo
Brasil fazendo comícios e pedindo votos para quem for o candidato do
governo e ameaçando o país com a ruína se o eleitorado
cometer a estupidez de preferir um outro nome. Mas ele diz que está "inspecionando
obras". (Já da inspeção que a lei manda fazer, a dos
tribunais de contas, o presidente vive reclamando.) E os comícios, com
ônibus fretado, despesa paga pelo Erário e sorteio de casas entre
a plateia? "Qualquer reunião com mais de três pessoas já
é comício", diz Lula. Ou seja: o que é que se vai
fazer? Afinal, o presidente da República não pode ficar trancado
em casa. Se acham que é comício quando ele discursa em lugares
onde há gente reunida, paciência. Quanto aos votos que pede para
a ministra Dilma, nenhum problema. O presidente diz que está apenas elogiando
uma grande servidora do governo e apenas dando a opinião de que
ela seria um colosso como sua sucessora. Que mal haveria nisso?
A ministra Dilma, por sua vez, faz rigorosamente tudo o que os
coordenadores de campanha prescrevem para um candidato. Há tempos deixou
de comparecer com regularidade ao seu local de trabalho e passou a correr de
um lado para outro atrás de votos, seja em shows de música popular
com o cantor Dominguinhos, seja em "fiscalização de obras"
nas margens do Rio São Francisco; há pouco foi vista inaugurando
um estádio de futebol em Araraquara. O que isso tudo teria a ver com
as funções que é paga para exercer na Casa Civil? Do lado
da oposição, a peça de teatro é estrelada pelo governador
José Serra, que quer a Presidência tanto quanto qualquer um dos
seus adversários, mas diz que só vai tocar no assunto no ano que
vem. Serra não pode fazer campanha aberta como Lula faz; tem de se contentar
com os limites impostos pelo seu cargo. Carrega a mão, por exemplo, na
propaganda oficial; a última, no gênero, é a decisão
da Assembleia Legislativa que autoriza o governo a fazer publicidade de suas
obras em outros estados, para "promover o turismo" em São Paulo.
Registre-se, enfim, a notável contribuição
do deputado Ciro Gomes, que recentemente passou a ter seu domicílio eleitoral
em São Paulo, para manter aberta a possibilidade de candidatar-se ao
governo paulista. Mas o deputado não mora em São Paulo; só
a Justiça Eleitoral acredita nisso. Tudo o que fez foi passar quatro
horas na cidade, no começo de outubro, apresentar um endereço
de fantasia e assinar um papel num cartório garantindo que reside ali.
Um cidadão "comum", como diria o presidente Lula, não
pode ter um domicílio falso; aliás, vive tendo de provar onde
mora com contas de luz, correspondência de bancos ou carnês de crediário,
e se der um endereço que não é realmente o seu vai, com
certeza, arrumar complicação. Já para ser candidato a presidente
da República ou governador do estado não há problema nenhum.
Não se sabe, é claro, quem vai ganhar as eleições
de 2010. Mas a verdade, desde já, está levando uma surra.
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