Exposição
A rainha está de casa nova
Soberbamente
indiferente aos que misturam seu sublime nome até a picuinhas na Unesco,
Nefertiti reina, mais bela ainda, em museu restaurado de Berlim
Fabrizio
Bensch/Reuters
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MAIS
QUE PERFEITA
Num pedestal, pairando acima das outras antiguidades e, como
sempre, cercada de súditos: Nefertiti se coloca em seu devido lugar |
Linda,
perfeita, poderosa, pescoço de cisne, nariz de obelisco, olhos eternamente
fixados em algum lugar entre o mundo dos homens e o dos deuses. É pouco?
Sim, quando a beldade em questão é Nefertiti. Considere-se o que
o marido dela, o faraó Akhenaton, mandou gravar num dos muitos monumentos
em que aparecem juntos: Herdeira, Bela de Face, Adornada com as Duas Plumas, Senhora
da Felicidade, Rainha das Duas Terras, Esposa Principal do Rei, sua amada, que
viva para sempre. E assim tem sido nos últimos 3 400 anos. Rainha que é
rainha leva a majestade aonde estiver, mas desde o começo do mês
Nefertiti está acomodada em ambiente à altura de seu exílio
dourado na Alemanha. No restaurado Neues Museum, reinaugurado no dia 17 em Berlim,
o busto mitológico e incrivelmente conservado repousa sobre um pedestal
isolado, iluminado pela luz da claraboia da cúpula principal, protegido
por vidros indevassáveis como uma Mona Lisa da Antiguidade. Parece pairar
acima das preciosidades à sua volta.
E há muitas, a começar
pelo próprio prédio. Inaugurado no século XIX, um dos cinco
museus instalados à beira do Rio Spree, o Neues, ou Novo Museu, entrou
na II Guerra vazio, com todas as obras removidas, e chegou ao fim em ruínas.
Assim permaneceu no lado oriental, sob domínio comunista, da Berlim posteriormente
retalhada pelo muro. Veio a reunificação, e há cerca de dez
anos o arquiteto inglês David Chipperfield venceu a concorrência para
recuperá-lo com um projeto elegante que seguiu os preceitos contemporâneos
de preservar pedaços que lembram a história, como as marcas de projéteis.
Sua inauguração, às vésperas dos vinte anos da queda
do muro, tem um peso simbólico e celebratório importante para a
Alemanha. Entre os 9 000 objetos em exposição, o mais antigo é
uma faca de pedra de 700 000 anos; o mais novo, um pedaço de arame farpado
da "barreira antifascista" montada pelo regime comunista barreira
evidentemente ao contrário, uma vez que impedia as pessoas de sair. Há
uma ala inteira de antiguidades egípcias, entre elas imagens das filhas
de Nefertiti e do marido Akhenaton, o faraó que tentou instaurar uma espécie
de culto monoteísta ao Sol justamente no Egito de todos os deuses. Nefertiti
foi a esposa número 1 e, segundo algumas interpretações,
chegou a compartilhar o reinado faraônico em condições quase
sem similares para uma rainha consorte.
Fotos Markus Schreiber/AP e Prnewsfoto/divulgação
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O
ANTIGO E O NOVO
A mão da rainha entrelaçada com a do faraó
há mais de 3 000 anos, e a suposta reconstituição de seu
rosto |
O Neues Museum foi o local original
de exposição da rainha na Alemanha, ali instalada em 1923 (enquanto
esteve fechado, ela morou no Museu Egípcio de Berlim) e sua principal atração
desde o primeiro dia. Antes, Nefertiti passou onze anos enfeitando a sala da casa
de Ludwig Borchardt, o arqueólogo alemão que a descobriu não
numa tumba, como é praxe num lugar onde os mortos vivem para sempre, mas
na escavação da oficina do escultor Tutmés. A escultura magnífica,
previsivelmente, é cercada de lendas e boatarias. A mais radical, e menos
aceita, diz que o busto de pedra coberta de gesso pintado foi na verdade esculpido
na época das escavações de Borchardt, por encomenda dele,
para testar pigmentos que havia encontrado estes, sim, do Egito antigo.
Mais recentemente, documentos guardados em segredo por quase um século
mostraram os artifícios usados pelo arqueólogo para tirar do Egito
o que qualquer um identificaria no ato como um tesouro sem par. Por um acordo
vigente na época, o produto das escavações devia ser dividido
meio a meio com os egípcios. Para disfarçar, o arqueólogo
alemão deixou o busto no fundo de um caixote, numa sala pouco iluminada,
cercado de artefatos banais. A revelação insuflou a reivindicação
egípcia pela devolução do busto de Nefertiti. "Se ela
saiu do Egito de forma ilegal, e estou convencido de que saiu, vou exigir oficialmente
que a Alemanha a devolva", reclamou Zahi Hawass, o onipresente diretor de
antiguidades do Egito. Hawass vive pedindo a devolução de tesouros
da civilização que precedeu em alguns milênios o Egito contemporâneo.
Especialistas em egiptologia moderna dizem que o tom aumentou depois da derrota
do ministro da Cultura egípcio, Farouk Hosny, em sua candidatura a diretor
da Unesco. O favorito do chanceler Celso Amorim não resistiu ao histórico
de declarações antissemitas. Mas talvez tenha sido a maldição
da múmia, vai saber...
Mistérios muito mais interessantes
cercam Nefertiti, que surge poderosíssima em esculturas e monumentos, ao
lado do marido evidentemente apaixonado, e desaparece em circunstâncias
até hoje desconhecidas. Sabe-se que teve seis filhas, o que não
garantia muito o futuro de uma consorte, mas é possível que uma
delas tenha se casado com Tutancâmon, o jovem faraó que restaurou
a religião tradicional. Ao contrário do que aconteceu com o suposto
genro, desencavado em toda a sua rica e sublime glória, Nefertiti até
hoje não teve sua tumba encontrada. Cientistas ingleses especializados
em reconstituir rostos a partir de crânios descarnados juram ter chegado
às feições originais da rainha. A reconstituição
foi feita com base nas imagens digitais de uma múmia tirada de um túmulo
desimportante que a egiptóloga inglesa Joann Fletcher alega há anos
ser o que restou do corpo de Nefertiti. O resultado é um lindo rosto de
mulher, com um pouco de Angelina Jolie, um pouco de Naomi Campbell, como na rainha
de Berlim. Mas convenhamos: a estátua é muito mais bonita. |