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Home  »  Revistas  »  Edição 2136 / 28 de outubro de 2009


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Exposição

A rainha está de casa nova

Soberbamente indiferente aos que misturam seu sublime nome até a picuinhas na Unesco, Nefertiti reina, mais bela ainda, em museu restaurado de Berlim

Fabrizio Bensch/Reuters
MAIS QUE PERFEITA
Num pedestal, pairando acima das outras antiguidades e, como sempre, cercada de súditos: Nefertiti se coloca em seu devido lugar


Linda, perfeita, poderosa, pescoço de cisne, nariz de obelisco, olhos eternamente fixados em algum lugar entre o mundo dos homens e o dos deuses. É pouco? Sim, quando a beldade em questão é Nefertiti. Considere-se o que o marido dela, o faraó Akhenaton, mandou gravar num dos muitos monumentos em que aparecem juntos: Herdeira, Bela de Face, Adornada com as Duas Plumas, Senhora da Felicidade, Rainha das Duas Terras, Esposa Principal do Rei, sua amada, que viva para sempre. E assim tem sido nos últimos 3 400 anos. Rainha que é rainha leva a majestade aonde estiver, mas desde o começo do mês Nefertiti está acomodada em ambiente à altura de seu exílio dourado na Alemanha. No restaurado Neues Museum, reinaugurado no dia 17 em Berlim, o busto mitológico e incrivelmente conservado repousa sobre um pedestal isolado, iluminado pela luz da claraboia da cúpula principal, protegido por vidros indevassáveis como uma Mona Lisa da Antiguidade. Parece pairar acima das preciosidades à sua volta.

E há muitas, a começar pelo próprio prédio. Inaugurado no século XIX, um dos cinco museus instalados à beira do Rio Spree, o Neues, ou Novo Museu, entrou na II Guerra vazio, com todas as obras removidas, e chegou ao fim em ruínas. Assim permaneceu no lado oriental, sob domínio comunista, da Berlim posteriormente retalhada pelo muro. Veio a reunificação, e há cerca de dez anos o arquiteto inglês David Chipperfield venceu a concorrência para recuperá-lo com um projeto elegante que seguiu os preceitos contemporâneos de preservar pedaços que lembram a história, como as marcas de projéteis. Sua inauguração, às vésperas dos vinte anos da queda do muro, tem um peso simbólico e celebratório importante para a Alemanha. Entre os 9 000 objetos em exposição, o mais antigo é uma faca de pedra de 700 000 anos; o mais novo, um pedaço de arame farpado da "barreira antifascista" montada pelo regime comunista – barreira evidentemente ao contrário, uma vez que impedia as pessoas de sair. Há uma ala inteira de antiguidades egípcias, entre elas imagens das filhas de Nefertiti e do marido Akhenaton, o faraó que tentou instaurar uma espécie de culto monoteísta ao Sol justamente no Egito de todos os deuses. Nefertiti foi a esposa número 1 e, segundo algumas interpretações, chegou a compartilhar o reinado faraônico em condições quase sem similares para uma rainha consorte.

 

Fotos Markus Schreiber/AP e Prnewsfoto/divulgação
O ANTIGO E O NOVO
A mão da rainha entrelaçada com a do faraó há mais de 3 000 anos, e a suposta reconstituição de seu rosto


O Neues Museum foi o local original de exposição da rainha na Alemanha, ali instalada em 1923 (enquanto esteve fechado, ela morou no Museu Egípcio de Berlim) e sua principal atração desde o primeiro dia. Antes, Nefertiti passou onze anos enfeitando a sala da casa de Ludwig Borchardt, o arqueólogo alemão que a descobriu não numa tumba, como é praxe num lugar onde os mortos vivem para sempre, mas na escavação da oficina do escultor Tutmés. A escultura magnífica, previsivelmente, é cercada de lendas e boatarias. A mais radical, e menos aceita, diz que o busto de pedra coberta de gesso pintado foi na verdade esculpido na época das escavações de Borchardt, por encomenda dele, para testar pigmentos que havia encontrado – estes, sim, do Egito antigo. Mais recentemente, documentos guardados em segredo por quase um século mostraram os artifícios usados pelo arqueólogo para tirar do Egito o que qualquer um identificaria no ato como um tesouro sem par. Por um acordo vigente na época, o produto das escavações devia ser dividido meio a meio com os egípcios. Para disfarçar, o arqueólogo alemão deixou o busto no fundo de um caixote, numa sala pouco iluminada, cercado de artefatos banais. A revelação insuflou a reivindicação egípcia pela devolução do busto de Nefertiti. "Se ela saiu do Egito de forma ilegal, e estou convencido de que saiu, vou exigir oficialmente que a Alemanha a devolva", reclamou Zahi Hawass, o onipresente diretor de antiguidades do Egito. Hawass vive pedindo a devolução de tesouros da civilização que precedeu em alguns milênios o Egito contemporâneo. Especialistas em egiptologia moderna dizem que o tom aumentou depois da derrota do ministro da Cultura egípcio, Farouk Hosny, em sua candidatura a diretor da Unesco. O favorito do chanceler Celso Amorim não resistiu ao histórico de declarações antissemitas. Mas talvez tenha sido a maldição da múmia, vai saber...

Mistérios muito mais interessantes cercam Nefertiti, que surge poderosíssima em esculturas e monumentos, ao lado do marido evidentemente apaixonado, e desaparece em circunstâncias até hoje desconhecidas. Sabe-se que teve seis filhas, o que não garantia muito o futuro de uma consorte, mas é possível que uma delas tenha se casado com Tutancâmon, o jovem faraó que restaurou a religião tradicional. Ao contrário do que aconteceu com o suposto genro, desencavado em toda a sua rica e sublime glória, Nefertiti até hoje não teve sua tumba encontrada. Cientistas ingleses especializados em reconstituir rostos a partir de crânios descarnados juram ter chegado às feições originais da rainha. A reconstituição foi feita com base nas imagens digitais de uma múmia tirada de um túmulo desimportante que a egiptóloga inglesa Joann Fletcher alega há anos ser o que restou do corpo de Nefertiti. O resultado é um lindo rosto de mulher, com um pouco de Angelina Jolie, um pouco de Naomi Campbell, como na rainha de Berlim. Mas convenhamos: a estátua é muito mais bonita.

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