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Home  »  Revistas  »  Edição 2136 / 28 de outubro de 2009


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Cinema

Problemas na decolagem

Besouro, que une a capoeira às técnicas fabulosas dos chineses
para filmar artes marciais, era uma promessa. E ficou só nisso


Isabela Boscov

Divulgação
NO TRAILER ERA MELHOR
Manoel "Besouro" (Carmo) levita, assistido por Iansã: sem drama nem clímax

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Desde o meio do ano, quando notícias sobre o projeto se espalharam, Besouro (Brasil, 2009), que estreia na próxima sexta-feira no país, tornou-se foco de curiosidade sempre crescente. Embora estreante em longa-metragem, seu diretor, o publicitário João Daniel Tikhomiroff, é um dos diretores de comerciais mais premiados do mundo – com 46 Leões, é o segundo maior detentor de troféus do festival de publicidade de Cannes. O tema do filme e o tratamento dado a ele também pareciam ser um ovo de Colombo. Legendário no Recôncavo Baiano dos anos 20, o capoeirista Manoel Henrique Pereira, o "Besouro", foi uma figura emblemática da resistência dos negros à repressão de suas tradições e um atleta de dotes tidos como miraculosos: dizia-se que era tão ágil e rápido que podia voar (daí o apelido). E era isso que se via o protagonista fazer no trailer que, colocado no YouTube, rapidamente ganhou centenas de milhares de acessos: graças ao trabalho do chinês Huen Chiu Ku, coordenador de artes marciais de O Tigre e o Dragão, Kill Bill e O Reino Proibido, o capoeirista Ailton Carmo, que desempenha o papel-título, cortava os céus, saltava de telhado em telhado e levitava. Casar a capoeira à técnica fabulosa dos chineses parecia ser uma excelente opção plástica e um ótimo chamariz para um público que pouco se interessa por produções nacionais – os adolescentes. Às vezes, porém, auspícios são só isso mesmo: prenúncios que não se concretizam. E Besouro (inspirado no livro Feijoada no Paraíso, de Marco Carvalho, lançado pela Record) passa muito longe de preencher qualquer uma das expectativas que suscitou.

Não há aspecto do filme em que o almejado não seja fragorosamente derrotado pelo executado. Besouro ambiciona mostrar como as atitudes escravagistas persistiam no início do século XX, atiçar a plateia com um triângulo amoroso e falar do misticismo baiano, mas oferece uma encenação de teatro amador, muito inferior a qualquer novela nordestina da Globo (inclusive em profundidade). Não obstante essas exigências dramáticas tão modestas, a parte do elenco recrutada entre capoeiristas sofre para dar conta do recado. As falhas estruturais são também gritantes. As cenas são mal planejadas, a montagem é desorganizada e as idas e vindas no tempo às vezes atropelam o nexo de tal forma que parecem troca de rolo. É misterioso que Tikhomiroff tropece em fundamentos que, em sua carreira de publicitário, domina por completo. O que realmente deixa Besouro no chão, porém, são as cenas de ação – ou de falta dela. Nos filmes chineses, o que torna aquelas lutas fantasiosas tão sedutoras não é só sua proeza atlética, mas o fato de que cada uma delas é, em si, um drama e um enredo. Aqui, há uns pulos e uns voos sem palpitação nem clímax, com vários sinais visíveis do esforço dos atores em se adaptar aos cabos e gruas que propiciam os movimentos. É patente que o filme foi feito com o intuito de ser belo e fascinar. Mas tentar e não chegar nem perto é uma eventualidade de que o cinema nacional, em particular o feito com apoio das leis de incentivo, tem de riscar da sua agenda.


Trailer

Video

 

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