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diz que sem
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Lailson Santos![]() |
"É preciso premiar o esforço e o talento para tornar a carreira de professor atraente. O bom ensino depende disso" |
Criar um sistema capaz de atrair os melhores alunos para a carreira de professor é imperativo para um ensino de alto nível. Daí a relevância da aprovação, na semana passada, de um projeto concebido pelo economista Paulo Renato Souza, 64 anos, secretário estadual da Educação em São Paulo. Trata-se de um plano de carreira para os professores inteiramente baseado na meritocracia, conceito ainda raro nas escolas brasileiras e repudiado pelos sindicatos, seus principais adversários. "Os sindicalistas são um freio de mão para o bom ensino", resume o ex-ministro da Educação no governo Fernando Henrique, que reconhece avanços na implantação dos rankings no Brasil e da cobrança de resultados com base neles, mas adverte: "É preciso discutir a educação com mais objetividade e menos ideologia".
Um relatório recente da OCDE mostra que o Brasil foi
o país que mais aumentou o investimento na educação em
proporção ao total dos gastos públicos - mas muitos se
queixam de falta de dinheiro nas escolas. Estão certos?
O maior problema no Brasil não é a falta de dinheiro, mas
como esses recursos são empregados - em geral, de maneira bastante ineficaz.
Daria para obter resultados infinitamente superiores apenas fazendo melhor uso
das verbas já existentes. Prova disso é que, com orçamento
idêntico, algumas escolas públicas oferecem ensino de ótima
qualidade e outras, de péssimo nível.
O que explica isso?
As boas são comandadas por diretores com uma visão moderna
de gestão, coisa raríssima no país. Não existe no
Brasil nada como um bom curso voltado para treinar esses profissionais a liderar
equipes ou cobrar resultados, o básico para qualquer um que se pretenda
gestor. Quem se sai bem na função de diretor, em geral, é
porque tem algo como um dom inato para a chefia. A coisa funciona no improviso.
As avaliações sempre chamam atenção
para o despreparo dos professores brasileiros. A que o senhor atribui isso?
Às universidades que pretendem formar professores, mas passam
ao largo da prática da sala de aula. No lugar de ensinarem didática,
as faculdades de pedagogia optam por se dedicar a questões mais teóricas.
Acabam se perdendo em debates sobre o sistema capitalista cujo ideário
predominante não passa de um marxismo de segunda ou terceira categoria.
O que se discute hoje nessas faculdades está muito distante de qualquer
ideia que seja cientificamente aceita, mesmo dentro da própria ideologia
marxista. É uma situação difícil de mudar.
A resistência vem de universidades como USP e Unicamp, as maiores do país.
| "Uma ideia bastante difundida no Brasil é que o professor deve ter liberdade total para construir o conhecimento junto com seus alunos. Essa apologia da ausência de método só atrapalha" |
Como isso se reflete nas escolas?
Muitos professores propagam em sala de aula uma visão pouco objetiva
e ideológica do mundo. Alguns não dominam sequer o básico
das matérias e outros, ainda que saibam o necessário, ignoram
as técnicas para passar o conhecimento adiante. Vê-se nas escolas,
inclusive, certa apologia da ausência de métodos de ensino. Uma
ideia bastante difundida no Brasil é que o professor deve ter liberdade
total para construir
o conhecimento junto com seus alunos. É improdutivo e irracional. Qualquer
ciência pressupõe um método. No ensino superior, há
também inúmeras mostras de como a ideologia pode sobrepor-se à
razão.
O senhor daria um exemplo?
Existe um terrível preconceito nas universidades públicas
contra o setor privado. Ali, qualquer contato com as empresas é visto
como um ato de "venda ao sistema". Como se as instituições
públicas fossem sustentadas por marcianos e não pelo dinheiro
do governo, que vem justamente do sistema econômico. O resultado é
que, distantes das empresas, as universidades se tornam menos produtivas e inovadoras.
Em muitos países, as universidades públicas cobram
mensalidade dos estudantes que têm condições de pagar. Seria
bom também para o Brasil?
Sem dúvida. Só que esse é um tabu antigo no país.
Se você defende essa bandeira, logo o identificam como alguém que
quer privatizar o sistema. Preservar a universidade gratuita virou uma questão
de honra nacional. Bobagem. É preciso, de uma vez por todas, começar
a enxergar as questões da educação no Brasil com mais pragmatismo
e menos ideologia.
Na semana passada, foi aprovado em São Paulo um novo
plano de carreira para professores e diretores. Esse tipo de medida tem potencial
para revolucionar o ensino nas redes públicas?
Planos de carreira são essenciais para tornar essas profissões
novamente atraentes, de modo que os melhores alunos saídos das universidades
optem por elas. Sem isso, é difícil pensar em bom ensino. O plano
de São Paulo não apenas eleva os salários, o que é
um chamariz por si só, mas faz isso reconhecendo, por meio de avaliações,
o mérito dos melhores profissionais. Ou seja: esforço e talento
serão premiados, um estímulo que a carreira não tinha.
A meritocracia consta de qualquer cartilha de gestão moderna, mas é
algo ainda bem novo nas escolas brasileiras.
Os principais adversários do projeto foram os sindicatos
desses profissionais. Que lógica há nisso?
É uma manifestação de puro corporativismo. Pela nova
lei, só poderão pleitear aumento de salário aqueles professores
assíduos ao trabalho - um pré-requisito mais do que razoável.
É o mínimo esperar que, para alguém almejar ascender na
carreira, ao menos compareça ao serviço. Apenas o sindicato não
vê desse jeito. Ele encara as "faltas justificadas" como um
direito adquirido. E ponto. Não quer perdê-lo. Mas repare que eu
não estou dizendo que os professores ficarão sem esse direito.
Só estou tentando fornecer um estímulo adicional para que eles
deem suas aulas. O último levantamento que fizemos mostra que a média
de ausências na rede estadual de São Paulo é altíssima:
foram trinta faltas por docente apenas em 2008. Ao resistir a uma medida que
premia a presença na escola, o sindicato dá mais uma mostra de
como o espírito corporativista pode sobrepor-se a qualquer preocupação
com o ensino propriamente dito.
| "No lugar de ensinarem didática, as faculdades de pedagogia optam por perder tempo com discussões teóricas que, não raro, se baseiam em conceitos sem nenhuma comprovação científica" |
O movimento sindical passa ao largo da preocupação
com o bom ensino?
É exatamente isso. Está claro que os sindicatos estão
focados cada vez mais no próprio umbigo e menos nas questões relativas
à educação. Entendo, evidentemente, que lutem pelos interesses
da categoria, propósito de qualquer organização do gênero.
Mas a qualidade do ensino, que é de responsabilidade social deles, deveria
vir em primeiro lugar. Em 1984, quando fui secretário da Educação
em São Paulo pela primeira vez, já se via essa forte tendência
nos sindicatos. Em reuniões com os professores, palavras como aluno ou ensino jamais eram mencionadas por eles. Apenas se discutiam ali
os interesses da categoria. E esse problema só piora.
O que causa a piora?
O movimento sindical politizou-se a um ponto tal que não se acham
mais nele pessoas realmente interessadas em educação. Estas debandaram.
Hoje, os sindicatos estão tomados por partidos radicais de esquerda sem
nenhuma relevância para a sociedade. Para essas agremiações
insignificantes, o sindicalismo serve apenas como um palanque, capaz de lhes
dar uma visibilidade que jamais teriam de outra maneira. É aí
que tais partidos aparecem e fazem circular seu ideário atrasado e contraproducente
para o ensino. Repare que esses sindicalistas são poucos - e estão
longe de expressar a opinião da maioria. Mas têm voz.
Com a nova lei fica determinado que, para pular de nível
na carreira, o professor seja submetido a uma prova. Por que os sindicatos rejeitaram
a ideia?
É lamentável que um grupo de professores critique a existência
de uma prova. Veja o absurdo. Eles alegam que um exame os obrigaria a estudar
mais e que não têm tempo para isso. A crítica expressa também
uma resistência à avaliação, que até hoje
se vê arraigada em certos setores da sociedade brasileira.
Nisso o Brasil destoa de outros países?
Em culturas mais individualistas e competitivas, como a anglo-saxã,
as aferições do nível dos professores e do próprio
ensino não são apenas bem-aceitas como têm ajudado a melhorar
as escolas, na medida em que fornecem um diagnóstico dos problemas. Os
professores brasileiros que agora resistem a passar pela avaliação
certamente não estão atentos a isso. Sua maior preocupação
é lutar por direitos iguais para todos - velha bandeira que ignora qualquer
noção de meritocracia. Por isso, eles se posicionaram contra uma
regra do projeto que limita o número de promoções por ano:
não mais do que 20% dos profissionais poderão subir de nível.
É um teto razoá-vel: evita um rombo no orçamento e, ao
mesmo tempo, promove uma bem-vinda competição. Demandará
mais empenho e estudo dos professores - o que não lhes fará mal.
No campo salarial, premiar o mérito significa romper
com o conceito da isonomia de ganhos para todos os funcionários. Esse
não é um valor que deveria ser preservado?
Não. Já é consenso entre especialistas do mundo todo
que aumentos concedidos a uma categoria inteira, desprezando as diferenças
de desempenho entre os profissionais, não têm impacto relevante
no ensino. O que faz diferença, isso sim, é conseguir premiar
os que se saem melhor em sala de aula. A isonomia é uma bandeira velha.
Há experiências no Brasil com a concessão
de bônus aos melhores professores. Isso funciona?
Sem dúvida. Quando há um sistema feito para reconhecer e
premiar os talentos individuais, a eficácia das políticas públicas
para a educação aumenta. Coisa de quinze anos atrás, o
Brasil estava a anos-luz disso. Não havia informação sobre
nada - nem mesmo se sabia o número de escolas no país. O dado
variava entre 190 000 e 230 000 colégios, dependendo da fonte. Hoje,
já dá até para comparar o ensino de Capão Redondo,
na periferia de São Paulo, com o das escolas da Finlândia. Desse
modo, é possível traçar metas bem concretas para a educação
e cobrar por elas - alicerces para uma boa gestão em qualquer setor.
Já se formou um consenso no Brasil de que esse é
o caminho acertado?
Acho que sim. Nos primeiros anos de governo Lula, os petistas chegaram
a pôr em xeque a ideia de que a qualidade do ensino precisa ser aferida
com base em dados objetivos. Foi um retrocesso. Mas hoje o MEC norteia suas
políticas com base em avaliações, metas e cobrança
de resultados. Diria que eles chegam até a exagerar na dose, divulgando
rankings que, como ministro, eu mesmo preferia não trazer a público.
É o caso do Enem.
O Enem não é um bom indicador da qualidade do
ensino em escolas públicas e particulares?
O problema é que, como só faz o exame quem quer, ele não
necessariamente traduz a qualidade de ensino na escola como um todo. E se apenas
os bons alunos de determinado colégio se submeterem à prova? O
retrato sairá distorcido. Grosso modo, o Enem até espelha bem
a realidade. Mas, como a amostra de alunos de cada escola é aleatória,
há espaço para que se cometam injustiças. Em tese, qualquer
colégio particular que se sentisse prejudicado pelo ranking poderia processar
o MEC. De modo geral, porém, sou absolutamente favorável a que
se lance luz sobre os resultados. O monitoramento deve ser constante.
No começo do ano, flagraram-se em material que seria
distribuído às escolas pela Secretaria Estadual da Educação
erros crassos, tais como a inclusão de dois Paraguais num mapa da América
do Sul. Faltou fiscalização por parte do governo?
Sem dúvida. Ainda que o material não seja produzido pela
secretaria, é de responsabilidade dela que não passem erros. Não
há o que argumentar aí. Depois do episódio, os cuidados
foram redobrados. Cada livro é revisado de três a quatro vezes.
Apostila com erro é um desserviço à educação
- e desperdício de dinheiro público.