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Livros A
marca da suástica Em seu novo livro, Philip
Roth subverte a história ao montar um cenário em que os
Estados Unidos se aliam à Alemanha nazista contra os russos
e os judeus 
Carlos Graieb
Sara Krulwich/The New York Times  |
| Roth: Roosevelt derrotado nas urnas |
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Philip Roth é
um cara-vermelha. O termo remete a uma célebre classificação
dos escritores americanos, feita na linguagem do bangue-bangue. De um lado encontram-se
os caras-pálidas. De outro, os peles-vermelhas. Os primeiros são
autores como Henry James, cheios de tato e refinamento. Os segundos são
da estirpe de Mark Twain, mais vibrantes e agressivos. Um cara-vermelha é
um mestiço: alguém que tenta conciliar essas maneiras antagônicas
de ver o mundo e escrever sobre ele. Há mais de quarenta anos, é
isso o que Roth tem feito com enorme sucesso. São dele algumas das
páginas mais desvairadas e ultrajantes da ficção contemporânea,
e também algumas das mais sutis. Nos Estados Unidos, o autor acumula todas
as homenagens literárias possíveis. Aos 72 anos, começa a
ter sua obra editada pela Library of America, a coleção que define
os clássicos daquele país. No Brasil, porém, Roth sempre
contou com um número modesto de leitores. A situação bem
que poderia mudar com o lançamento de Complô contra a América
(tradução de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras;
488 páginas; 56,50 reais). O romance tem elementos típicos de um
livro de Roth: a dissecação das relações familiares
num microcosmo judeu, por exemplo, ou a exploração irônica
da vida pública americana. O bônus se encontra no mote engenhoso
da história: e se, no começo da II Guerra Mundial, os Estados Unidos
houvessem eleito como presidente um simpatizante do nazismo?
Em entrevista a VEJA, Roth disse que a idéia para Complô contra
a América nasceu com a descoberta de que, às vésperas
das eleições americanas de 1940, certos grupos do Partido Republicano
tentaram viabilizar a candidatura presidencial do aviador Charles Lindbergh, o
primeiro homem a cruzar o Atlântico num vôo-solo. Lindbergh era uma
figura magnética, graças a seus feitos aéreos e a uma tragédia
pessoal, o rapto e morte de seu filho pequeno. Ele também defendia uma
tese que gozava de legitimidade no debate político da época: a de
que os Estados Unidos deveriam se manter fora da guerra que devastava a Europa.
As máculas em sua biografia eram o anti-semitismo e um laço escuso
com o regime de Adolf Hitler, de quem ele aceitou uma condecoração
no fim dos anos 30. A candidatura de Lindbergh jamais decolou. No livro de Roth,
o aviador entra na disputa e inflige uma derrota amarga a Franklin Delano Roosevelt
(o presidente eleito na história real). A conseqüência política,
no fronte externo, é a assinatura de um pacto de não-agressão
entre os Estados Unidos e os países do Eixo. Internamente, enquanto isso,
começa a ganhar força uma ameaça contra os judeus americanos.
Entre eles, a família do menino Philip.
Há curiosos retratos de figuras históricas em Complô contra
a América, mas eles nascem das memórias de um narrador que as
conheceu, na infância, por intermédio do rádio, dos jornais,
dos noticiários cinematográficos, das conversas à mesa de
jantar. Esse não é o tipo de romance que leva o leitor para os bastidores
da política, muito menos para dentro da cabeça dos "grandes personagens".
Um livro de Gore Vidal seria assim mas não um de Philip Roth. Característico
do autor é colocar a si próprio no centro da trama. "Eu já
tinha o ponto de partida, mas o livro só começou a funcionar realmente
quando imaginei meus pais, meu irmão mais velho e a mim, criança,
naquele ambiente de tensão", diz ele. Essa duplicação de
si mesmo e de seus familiares é abundante nos livros de Roth. Em alguns,
como Patrimônio, que fala da velhice de seu pai, ele se manteve próximo
dos fatos. Em outros a invenção é delirante. Operação
Shylock não tem apenas um, mas dois Roths, um "verdadeiro" e um "impostor"
cuja bandeira é desmontar o Estado de Israel. Em Complô contra
a América, o autor trabalha com o meio-termo: é fiel ao caráter
das pessoas, embora a situação seja irreal. Além disso, a
família judia da cidade de Newark, formada por um vendedor de seguros cheio
de princípios, uma dona-de-casa dedicada e dois garotos exemplares, reaparece,
com diferentes graus de disfarce, nos oito livros em que figura Nathan Zuckerman,
o mais constante alter ego (ou "alter cérebro", como ele disse certa vez)
do escritor. O jogo de espelhos com duplos ficcionais já causou muita confusão
entre os leitores de Roth. É um dos pilares de sua literatura. Para ele,
escrever romances é realizar uma espécie de "inquirição
imaginativa" da realidade. Como seria o mundo se isso acontecesse? Como seria
eu mesmo, se aquela circunstância fosse diferente?
Em anos recentes, Roth passou a dedicar grande atenção à
história americana. Antes de Complô contra a América,
escreveu uma trilogia de romances em que explora o macarthismo dos anos 50 (Casei
com um Comunista), a Guerra do Vietnã (Pastoral Americana) e
o escândalo sexual do presidente Bill Clinton (A Marca Humana). "Foram
momentos de grande impacto para pessoas de minha geração, momentos
de turbulência nos quais a substância moral do país se tornou,
de certa forma, palpável", diz ele. É possível detectar nesses
livros o desprazer de Roth com vários aspectos da vida pública americana
as manifestações de truculência política, as
exibições de santimônia, os flagrantes de hipocrisia moral.
Mas os romances não permitem concluir que este seja um escritor com uma
visão puramente negativa de seu país. O mesmo vale para Complô
contra a América. Roth se lembra da atmosfera dos anos 30, no que diz
respeito à questão racial. "O anti-semitismo era uma presença
real e ameaçadora. A verdade, porém, é que as instituições
do país jamais permitiram que essa ameaça ganhasse uma feição
mais concreta", diz ele. Ao final, as instituições americanas também
resistem no romance embora fique a sugestão de que elas são
vulneráveis a arranhões. Tentar extrair de Roth qualquer comentário
político mais direto é inútil. "Meu modo de me expressar
é pela ficção. Meus livros não têm objetivos
ulteriores, virtuosos ou não", diz ele. Roth insiste que sua ambição
sempre foi ser apenas e tão-somente isto: escritor. No caso de um artista
desse naipe, para que, realmente, pedir mais?
| O aliado alemão "Em
1941, o pacto teuto-soviético de não-agressão assinado
dois anos antes por Hitler e Stalin foi rompido quando Hitler ousou empreender
a conquista do imenso território que se estendia da Polônia pela
Ásia adentro. O presidente Lindbergh falou à nação
e surpreendeu até meu pai pela maneira franca como elogiou o Führer:
'Com este ato, Adolf Hitler se afirma como a maior defesa do mundo contra a disseminação
do comunismo. Se tivéssemos permitido que nossa nação fosse
arrastada para esta guerra mundial do lado de Grã-Bretanha e França,
nossa grande democracia estaria agora aliada ao regime malévolo da União
Soviética. É bem possível que o Exército alemão
esteja lutando hoje numa guerra em que, não fosse ele, caberia aos soldados
americanos lutar'." Trecho
de Complô contra a América | |
| Vôo da imaginação
Em Complô
contra a América, Philip Roth especula como seriam os rumos da II Guerra
Mundial se o aviador Charles Lindbergh um notório anti-semita
tivesse sido eleito presidente dos Estados Unidos em 1940 A
HISTÓRIA REAL Reeleito
para um terceiro mandato em novembro de 1940, Franklin Delano Roosevelt não
entra imediatamente na guerra, mas apóia os esforços da Inglaterra
na luta contra a Alemanha nazista
O Japão ataca Pearl Harbor, no fim de 1941, e os Estados Unidos
entram na guerra Seria impensável
que Roosevelt recebesse um alto dignitário nazista na Casa Branca depois
de ter declarado guerra à Alemanha
A FICÇÃO DE PHILIP ROTH
Charles Lindbergh derrota Roosevelt nas urnas, com a promessa de manter os Estados
Unidos fora da guerra. Logo depois da posse, viaja para a Islândia, para
assinar um pacto de não-agressão com a Alemanha de Hitler
O ataque a Pearl Harbor nunca acontece, pois
Lindbergh firma um pacto de não-agressão também com os japoneses
Em 1942, Lindbergh recebe o ministro
das Relações Exteriores nazista, Joachim von Ribbentrop,
para um jantar de gala na Casa Branca | | |