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Medicina
O milagreiro de Bauru
O sueco Bränemark, que revolucionou
os implantes dentários e de próteses,
instala-se no interior de São Paulo

Melina Costa
Fabiano Accorsi
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| Bränemark: fã do ar condicionado e de lingüiça
com caipirinha |
Se o Fantasma da Ópera tivesse conhecido o doutor Bränemark
não haveria, bem, Fantasma da Ópera. O monstro do
doutor Frankenstein? Seria praticamente um bonitão. As teratologias
da ficção servem para ilustrar as complicações
da alma humana, mas na vida real poucas coisas causam mais sofrimento
do que graves deformações físicas. E pouca
gente fez mais para contornar seus efeitos do que Per-Ingvar Bränemark,
um médico sueco hoje com 76 anos que, movido por propósitos
benemerentes, iniciou outra e instigante fase de uma carreira excepcional,
desta vez no interior de São Paulo. Para os dentistas de
todo o mundo, Bränemark é um nome icônico: deve-se
a ele o desenvolvimento das técnicas de implante dentário
com pinos de titânio, hoje tão comuns, mas revolucionárias
em sua concepção. Para muitos pacientes que acorrem
a Bauru, a cidade onde montou seu centro de operações,
ele é um verdadeiro produtor de milagres: sua técnica
"cria" mãos, dedos, orelhas, narizes e até partes
do rosto próteses avançadas que são
literalmente atarraxadas no corpo por meio dos pinos de titânio.
A revolução de
Bränemark começou por acaso, mas ele soube divisar suas
aplicações e propagar seus efeitos. Em 1955, ao conduzir
um estudo sobre cicatrização usando coelhos, precisou
instalar um mínimo microscópio no osso de uma cobaia
e, pela leveza do material, escolheu montá-lo em titânio.
Surpresa: quando foi remover o instrumento, descobriu que o titânio
não só não havia sido rejeitado como estava
amalgamado ao osso foi preciso uma força equivalente
a 100 quilos para remover a peça. Nascia a técnica
da osseointegração, a implantação de
pinos de titânio praticamente irremovíveis. Agarrados
ao osso, servem de base para próteses que funcionam como
dentes fixos ou partes removíveis do corpo.
O currículo de Bränemark
reflete o sucesso de sua descoberta. Foram dezenas de livros, mais
de trinta prêmios internacionais e repetidas indicações
ao Nobel "Não conto", diz o médico, com a imodéstia
típica da categoria. Há dois anos, ele trocou Gotemburgo
(temperatura média: 7 graus) por Bauru (32 à sombra
no verão) e se lançou num projeto ambicioso: a construção
da nova sede mundial do P-I Bränemark Institute, que será
inaugurada oficialmente nesta segunda-feira e estará funcionando
plenamente em janeiro. "Assim, Bauru passa a ser o centro do mundo,
pelo menos para a osseointegração", brinca.
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| O metal se integra ao osso na
técnica de reconstrução: "colchetes" de titânio sustentam a
orelha de silicone e pinos de titânio se encaixam na prótese
de mão |
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O novo instituto, erguido em terreno
cedido pela prefeitura local com recursos (cerca de 2 milhões
de reais) doados por instituições suecas de incentivo
à pesquisa, vai centralizar os trabalhos de médicos
e dentistas de nove filiais, os Bränemark Osseointegration
Center, instalados na Ásia, Europa e América Latina.
O propósito de seu fundador é dos mais nobres: tornar
os tratamentos acessíveis a populações mais
carentes. "Tratei de pacientes nos Estados Unidos, na Europa, e
me perguntava: francamente, onde estão os pacientes que mais
precisam? Constatei que estão na América Latina e
na China", diz. Acabou optando pelo Brasil, "que tem muito bom nível
de profissionais", ao contrário da China, "que está
em um grau mais primário de desenvolvimento". E por que justamente
Bauru? "Os médicos daqui têm mente aberta e estão
dispostos a cooperar. Além disso, gosto da relação
deles com os pacientes", explica Bränemark, que há treze
anos forma médicos e dentistas dos hospitais universitários
da cidade e colabora com eles.
Conhecido e aclamado no mundo
todo, Bränemark vive de aposentadoria e da venda de know-how
para a indústria e já tratou pacientes importantes.
Recorda-se que certa vez recebeu em Gotemburgo uma equipe médica
da Coréia do Norte encarregada de aprender a técnica
de recuperação de arcadas dentárias. No fim
do curso, acompanhados de um militar e munidos de (também
eles) malas cheias de dinheiro vivo, compraram todos os equipamentos
necessários e foram embora. Anos depois, Bränemark recebeu
um cartão recheado de chapas de raio X eram imagens
da arcada dentária recuperada do ditador Kim Il Sung. "Ainda
bem que eu não tive de ir lá. Imagine se tivesse dado
errado", brinca. No Brasil, desembarcou pela primeira vez em São
Paulo em 1990. Desde então, já colaborou no tratamento
de cerca de 100 brasileiros, no Hospital do Câncer, nos da
Universidade de São Paulo e no da Universidade do Sagrado
Coração, de Bauru.
O objetivo do novo instituto
é tratar 80% dos pacientes de graça, financiado por
doações de instituições européias
e com trabalho voluntário de médicos e dentistas que
o próprio Bränemark treinou. Docemente cooptado pela
bonomia brasileira, ele mora em Bauru com a segunda mulher, a sueca
Barbro, numa casa em condomínio fechado, tem muitos amigos
e, nos fins de tarde, costuma ser encontrado em um bar de esquina,
onde se tornou apreciador de lingüiça frita com caipirinha.
De português, nada, mas a comunicação flui,
miraculosamente. "Falo inglês, francês e alemão.
E, se mesmo assim a pessoa não entender, eu me comunico por
gestos. Nunca tive problemas", afirma o médico. Ele está
acostumado com milagres.
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Um rosto para Débora
Aos 20 anos, a mineira
Débora Rocha Dutra contraiu um tipo raro de câncer
no nariz. Foi desenganada, entrou em coma e quando finalmente
se recuperou, dois anos depois, engravidou. No quarto
mês, o câncer voltou; ela optou por não
se tratar e preservar a saúde do feto. A doença
avançou tanto que, no mesmo dia da cesariana,
Débora teve gengiva, arcada dentária e
lábio superiores, palato e parte do nariz removidos.
Foi nessas condições espantosas que conheceu
o doutor Bränemark. Ela conta:
"Como eu ia viver
sem rosto? Minha aparência era terrível,
eu não podia falar nem comer. Me alimentava por
sonda, mas a vontade de engolir era tão insuportável
que eu jogava pedaços de comida na garganta só
para sentir um pouco do gosto, lá no finalzinho.
Sentia tanta saudade da minha voz que ficava ouvindo
a mensagem que tinha gravado na secretária eletrônica.
Sofria muito quando pensava no meu filho. Como eu ia
ensiná-lo a falar? O que ele ia achar da minha
aparência? Então fui levada ao doutor Bränemark,
em Bauru. Na consulta, a primeira coisa que ele fez
foi me abraçar e me passou tanta segurança
que três meses depois eu estava na mesa de cirurgia,
implantando as hastes de titânio que iriam suportar
minha prótese. Depois que cicatrizaram, o doutor
Bränemark 'encaixou' o novo palato, os dentes,
o nariz e o lábio. Na mesma hora, comecei a falar
e mordi o dedo dele. Foi incrível, um milagre.
Cantei aquele dia inteiro".
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