Edição 1924 . 28 de setembro de 2005

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Medicina
O milagreiro de Bauru

O sueco Bränemark, que revolucionou
os implantes dentários e de próteses,
instala-se no interior de São Paulo


Melina Costa


Fabiano Accorsi
Bränemark: fã do ar condicionado e de lingüiça com caipirinha


Se o Fantasma da Ópera tivesse conhecido o doutor Bränemark não haveria, bem, Fantasma da Ópera. O monstro do doutor Frankenstein? Seria praticamente um bonitão. As teratologias da ficção servem para ilustrar as complicações da alma humana, mas na vida real poucas coisas causam mais sofrimento do que graves deformações físicas. E pouca gente fez mais para contornar seus efeitos do que Per-Ingvar Bränemark, um médico sueco hoje com 76 anos que, movido por propósitos benemerentes, iniciou outra e instigante fase de uma carreira excepcional, desta vez no interior de São Paulo. Para os dentistas de todo o mundo, Bränemark é um nome icônico: deve-se a ele o desenvolvimento das técnicas de implante dentário com pinos de titânio, hoje tão comuns, mas revolucionárias em sua concepção. Para muitos pacientes que acorrem a Bauru, a cidade onde montou seu centro de operações, ele é um verdadeiro produtor de milagres: sua técnica "cria" mãos, dedos, orelhas, narizes e até partes do rosto – próteses avançadas que são literalmente atarraxadas no corpo por meio dos pinos de titânio.

A revolução de Bränemark começou por acaso, mas ele soube divisar suas aplicações e propagar seus efeitos. Em 1955, ao conduzir um estudo sobre cicatrização usando coelhos, precisou instalar um mínimo microscópio no osso de uma cobaia e, pela leveza do material, escolheu montá-lo em titânio. Surpresa: quando foi remover o instrumento, descobriu que o titânio não só não havia sido rejeitado como estava amalgamado ao osso – foi preciso uma força equivalente a 100 quilos para remover a peça. Nascia a técnica da osseointegração, a implantação de pinos de titânio praticamente irremovíveis. Agarrados ao osso, servem de base para próteses que funcionam como dentes fixos ou partes removíveis do corpo.

O currículo de Bränemark reflete o sucesso de sua descoberta. Foram dezenas de livros, mais de trinta prêmios internacionais e repetidas indicações ao Nobel – "Não conto", diz o médico, com a imodéstia típica da categoria. Há dois anos, ele trocou Gotemburgo (temperatura média: 7 graus) por Bauru (32 à sombra no verão) e se lançou num projeto ambicioso: a construção da nova sede mundial do P-I Bränemark Institute, que será inaugurada oficialmente nesta segunda-feira e estará funcionando plenamente em janeiro. "Assim, Bauru passa a ser o centro do mundo, pelo menos para a osseointegração", brinca.

O metal se integra ao osso na técnica de reconstrução: "colchetes" de titânio sustentam a orelha de silicone e pinos de titânio se encaixam na prótese de mão

O novo instituto, erguido em terreno cedido pela prefeitura local com recursos (cerca de 2 milhões de reais) doados por instituições suecas de incentivo à pesquisa, vai centralizar os trabalhos de médicos e dentistas de nove filiais, os Bränemark Osseointegration Center, instalados na Ásia, Europa e América Latina. O propósito de seu fundador é dos mais nobres: tornar os tratamentos acessíveis a populações mais carentes. "Tratei de pacientes nos Estados Unidos, na Europa, e me perguntava: francamente, onde estão os pacientes que mais precisam? Constatei que estão na América Latina e na China", diz. Acabou optando pelo Brasil, "que tem muito bom nível de profissionais", ao contrário da China, "que está em um grau mais primário de desenvolvimento". E por que justamente Bauru? "Os médicos daqui têm mente aberta e estão dispostos a cooperar. Além disso, gosto da relação deles com os pacientes", explica Bränemark, que há treze anos forma médicos e dentistas dos hospitais universitários da cidade e colabora com eles.

Conhecido e aclamado no mundo todo, Bränemark vive de aposentadoria e da venda de know-how para a indústria e já tratou pacientes importantes. Recorda-se que certa vez recebeu em Gotemburgo uma equipe médica da Coréia do Norte encarregada de aprender a técnica de recuperação de arcadas dentárias. No fim do curso, acompanhados de um militar e munidos de (também eles) malas cheias de dinheiro vivo, compraram todos os equipamentos necessários e foram embora. Anos depois, Bränemark recebeu um cartão recheado de chapas de raio X – eram imagens da arcada dentária recuperada do ditador Kim Il Sung. "Ainda bem que eu não tive de ir lá. Imagine se tivesse dado errado", brinca. No Brasil, desembarcou pela primeira vez em São Paulo em 1990. Desde então, já colaborou no tratamento de cerca de 100 brasileiros, no Hospital do Câncer, nos da Universidade de São Paulo e no da Universidade do Sagrado Coração, de Bauru.

O objetivo do novo instituto é tratar 80% dos pacientes de graça, financiado por doações de instituições européias e com trabalho voluntário de médicos e dentistas que o próprio Bränemark treinou. Docemente cooptado pela bonomia brasileira, ele mora em Bauru com a segunda mulher, a sueca Barbro, numa casa em condomínio fechado, tem muitos amigos e, nos fins de tarde, costuma ser encontrado em um bar de esquina, onde se tornou apreciador de lingüiça frita com caipirinha. De português, nada, mas a comunicação flui, miraculosamente. "Falo inglês, francês e alemão. E, se mesmo assim a pessoa não entender, eu me comunico por gestos. Nunca tive problemas", afirma o médico. Ele está acostumado com milagres.

 

Um rosto para Débora

Aos 20 anos, a mineira Débora Rocha Dutra contraiu um tipo raro de câncer no nariz. Foi desenganada, entrou em coma e quando finalmente se recuperou, dois anos depois, engravidou. No quarto mês, o câncer voltou; ela optou por não se tratar e preservar a saúde do feto. A doença avançou tanto que, no mesmo dia da cesariana, Débora teve gengiva, arcada dentária e lábio superiores, palato e parte do nariz removidos. Foi nessas condições espantosas que conheceu o doutor Bränemark. Ela conta:

"Como eu ia viver sem rosto? Minha aparência era terrível, eu não podia falar nem comer. Me alimentava por sonda, mas a vontade de engolir era tão insuportável que eu jogava pedaços de comida na garganta só para sentir um pouco do gosto, lá no finalzinho. Sentia tanta saudade da minha voz que ficava ouvindo a mensagem que tinha gravado na secretária eletrônica. Sofria muito quando pensava no meu filho. Como eu ia ensiná-lo a falar? O que ele ia achar da minha aparência? Então fui levada ao doutor Bränemark, em Bauru. Na consulta, a primeira coisa que ele fez foi me abraçar e me passou tanta segurança que três meses depois eu estava na mesa de cirurgia, implantando as hastes de titânio que iriam suportar minha prótese. Depois que cicatrizaram, o doutor Bränemark 'encaixou' o novo palato, os dentes, o nariz e o lábio. Na mesma hora, comecei a falar e mordi o dedo dele. Foi incrível, um milagre. Cantei aquele dia inteiro".

 

 
 
 
 
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