Edição 1924 . 28 de setembro de 2005

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Ambiente
Caçador de homens

Na falta das presas habituais, leões da África
Oriental estão devorando seres humanos


Ruth Costas

Algo terrível está ocorrendo com os leões da África Oriental: eles estão comendo gente. Só neste mês, devoraram vinte pessoas numa área rural do sul da Etiópia. Na Tanzânia, país que abriga o maior contingente de leões selvagens, o número de vítimas multiplicou-se nos últimos quinze anos. Foram 900 ataques, com 560 mortos. A atual matança na Etiópia impressiona pela ousadia dos felinos. Os ataques foram realizados à luz do dia. Entre as vítimas estão crianças, mortas enquanto brincavam no quintal de casa, e lavradores surpreendidos no campo. A freqüência dos ataques intriga os especialistas. Apesar da fama de comedor de homens, o leão em geral evita o ser humano, que não faz parte de sua dieta. "Esses predadores tendem a ignorar o homem porque nós emitimos sons que para eles são estranhos e temos um porte e até um cheiro diferentes dos de suas presas usuais", diz o biólogo Carlos Alberts, da Universidade Estadual Paulista, especialista em felinos.

Não significa ausência de confrontos. A maior matança conhecida foi a realizada por dois leões no Quênia, em 1898. Em nove meses, eles devoraram 135 operários que construíam uma ponte sobre o Rio Tsavo, até serem mortos a tiros. Os leões de Tsavo pertencem a uma subespécie, a única em que os machos são desprovidos de juba. O episódio rendeu alguns livros, um filme de Hollywood – A Sombra e a Escuridão, de 1996, com Val Kilmer e Michael Douglas – e estudos científicos. Os corpos dos matadores de Tsavo, empalhados e expostos num museu de Chicago, foram examinados e se descobriu que um deles tinha dentes ruins. Talvez a deficiência o tenha obrigado a substituir a caça de animais maiores pela de homens, quase sempre pegos dormindo dentro de barracas. Outra hipótese, mais provável, é que a mudança de hábitos se deveu a uma epidemia que dizimou as manadas de búfalos, sua presa predileta.

Um estudo publicado no mês passado pela Nature, respeitada revista científica, mostra que, diferentemente da dupla de Tsavo, cujos hábitos de caça destoavam dos da espécie, as investidas atuais estão adquirindo o caráter de um padrão de comportamento. Dois fatores podem explicar a mudança nos hábitos de caça dos leões, ambos relacionados com transformações em seus ecossistemas. O primeiro é o aumento da população africana, que dobrou nos últimos trinta anos. Com as povoações humanas avançando sobre o território ocupado por animais selvagens, a probabilidade de alguém encontrar uma fera na porta de casa é cada vez maior. O segundo é a redução do número de zebras, gazelas e antílopes, presas tradicionais dos leões, em conseqüência da caça e da devastação da vegetação. Obrigados a diversificar sua dieta, os felinos inicialmente recorrem aos javalis africanos, uma praga que devasta as lavouras da região. São os javalis que atraem as feras para as proximidades das casas nas zonas rurais, onde, além do gado, eles encontram mais um novo item para incorporar ao cardápio, o homem.

A probabilidade de uma pessoa sobreviver ao ataque de um leão é de menos de 40%. Em geral, o animal avança sobre o pescoço da vítima, que morre estrangulada pela pressão da bocarra. Um leão pode pesar mais de 200 quilos e está acostumado a arrastar presas com o dobro de seu tamanho. Uma única patada é suficiente para matar uma pessoa, quebrando ossos e esmagando órgãos internos. Correr da fera, nem pensar. O leão pode ultrapassar os 50 quilômetros por hora, apesar de, devido ao peso, não conseguir se manter nesse ritmo por mais de 90 ou 100 metros.

 

Os dois leões de Tsavo, empalhados em museu de Chicago: 135 pessoas devoradas em 1898

Com medo dos leões, 1.000 etíopes já abandonaram a própria casa neste mês. Outros, para desespero dos ambientalistas, preferem ir à caça dos animais. Há agricultores etíopes armando-se e saindo em grupos pelas savanas, dispostos a vingar a morte de um parente ou o sumiço de cabeças de gado. "Para diminuir os riscos de ataques estão sendo estudados projetos para construir cercas ao redor dos parques e recuperar as populações de zebras e gazelas", disse a VEJA o biólogo tanzaniano Bernard Kissui, do Centro de Pesquisa dos Leões da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos. "O grande desafio é descobrir como homens e animais selvagens podem viver próximos e em harmonia", completa.

O avanço humano sobre espaços ocupados por predadores tem provocado conflitos em outras regiões do mundo. Nos EUA, onde muitas famílias buscam qualidade de vida em subúrbios próximos a reservas florestais, só na última década setenta pessoas foram devoradas por ursos e onças-pardas – número igual ao que havia sido registrado em todo o restante do século XX. Na floresta de Sundarbans, na Índia, para se protegerem dos tigres-de-bengala, os coletores de mel e lenhadores usam na nuca máscaras que imitam o rosto humano, distribuídas pelo governo. Na década de 80, entre cinqüenta e sessenta indianos eram comidos pelos felinos a cada ano. O truque funciona porque os tigres preferem atacar pelas costas e, ao ver um homem "com duas caras", ficam confusos e desistem da empreitada. No Brasil, as onças-pardas, também conhecidas como suçuaranas, estão se tornando freqüentes em torno de pequenas cidades e áreas rurais. "Recebemos de dez a vinte chamados por ano para retirar onças-pardas de sítios, ruas e até da casa das pessoas, e esse número cresce ano a ano", diz Rogério de Paula, coordenador do programa de conflitos entre predadores e populações humanas do Centro Nacional de Predadores do Ibama.

 
 
 
 
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